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Mulheres

Prendas Reveladas – Bertina Coias Tomé

960 637 Aliança Evangélica Portuguesa

“Então, não desembrulhas?”

“Ah, pois, está bem. Querem que desembrulhe agora?”

“Sim, é para vermos!”

Retiro cuidadosamente a fita e o papel colorido, perante os seus olhares curiosos. E aí está a prenda que me foi amavelmente oferecida por alguém e que desperta sorrisos e comentários prazenteiros.

Esta situação tem acontecido diversas vezes. Porque não me desembaraço do papel de imediato, e revelo o que ganhei? Habitualmente não chego a explicar o motivo mas é ainda evidência de um hábito que trago comigo dos tempos de Macau. Lá, entre a população chinesa e macaense, não se abre um presente logo após ter sido recebido. Fazê-lo é sinal de grande indelicadeza. Agradece-se e coloca-se o embrulho colorido junto dos outros, num local definido para tal. Só depois de os convidados se terem retirado, concluída a festa, se procede à abertura das prendas, apenas no seio da família chegada. Subjaz a esta prática um importante sentido de respeito: evitar circunstâncias de algum embaraço para aquelas pessoas que, por limitações económicas, tenham oferecido algo mais modesto que, de outro modo, se veriam expostas perante os demais convidados.

Aquilo que oferecemos a Deus é, frequente e inevitavelmente, desembrulhado diante dos homens. Temos o exemplo da mulher que derramou sobre Jesus um unguento de nardo puro. Como uma oferta que era, ela não falou em preço. Contudo, houve logo quem fizesse as contas: valeria uns 300 dinheiros, por certo. Uma prenda cara demais, comentou alguém (João 12:4,5).  E Jesus interveio de imediato: “Deixa-a; para o dia da minha preparação para a sepultura o guardou (João 12:7).

Noutra ocasião, junto à arca do tesouro, era possível observar aquilo que cada um ia lançando como oferta a Deus. Havia pessoas de condição abastada que ofertavam grandes quantias. A meio daquele fluxo de gente vem uma viúva de condição muito modesta que deita duas moedas que valiam cinco réis. Tão pouco, diria alguém. Prenda desembrulhada.

Jesus assegurou aos seus discípulos que aquela mulher dera mais que todos. Ficou logo claro que o critério de avaliação de Jesus era outro. E explicou: “… da sua pobreza deitou tudo o que tinha, todo o seu sustento.” (Marcos 12:44). Daí o valor.

Muito do que oferecemos a Deus poderá ser “à moda chinesa”, isto é, discretamente, sendo só Ele a conhecer o conteúdo. A mão esquerda não saberá o que ofereceu a mão direita.

Outras vezes, contudo, não há como evitar que se torne conhecido aquilo que fazemos para Deus, que lhe oferecemos em louvor e em adoração, em serviço para Ele e em favor de outros. São os nossos vasos de alabastro e as nossas moedas de cobre.

Qual será a atitude de outros quando observam a prenda desembrulhada?

Ao longo da sua vida, Moody ofereceu ao Senhor um intenso trabalho de evangelismo. Certa vez, ao observá-lo, uma senhora acabou por criticar: “Sr. Moody, não gosto da maneira como faz o evangelismo.” Em resposta, Moody disse-lhe: “Eu também nem sempre o aprecio necessariamente. Diga-me, como é que a senhora faz?” “Oh, eu não faço evangelismo.”, foi a resposta. “Bem,” disse Moody, “eu gosto mais da maneira como eu o faço do que da maneira que a senhora não o faz.”

O olhar de Deus sobre a nossa vida é o mais importante de tudo. Ele observa as nossas dádivas como mais ninguém saberia fazer. Atribui-lhes o real valor, por vezes tão distante daquele que os homens lhe reconhecem. Talvez muito maior. Por vezes, muito menor.

Algumas ofertas chegar-lhe-ão em segredo. Serão a Suas Mãos, apenas elas, a revelar. Exemplo disso temos na oração, no jejum ou na dádiva referidas por Jesus em S. Mateus 6:1-6.

Outras serão, inevitavelmente, desembrulhadas diante dos homens. Contudo, não deixemos de oferecer por esse motivo. Não percamos de vista que o destinatário é, igualmente, Ele. Maior que qualquer crítica, incompreensão ou o silêncio enigmático de outros, contará a graça de podermos ofertar-lhe alguma coisa, de saber que O servimos e de aí depositarmos todas as nossas expectativas.

Ofereçamos-Lhe o melhor que tivermos, que soubermos, que formos. Coloquemos o nosso presente, humildemente, nas Suas mãos, feridas por amor a nós. E saibamos deleitar-nos no Seu sorriso.

“De todos os vossos dons oferecereis toda a oferta alçada do Senhor: do melhor deles, a sua santa parte. (…) como a novidade da eira e como novidade do lagar.” Números 18:29,30

 

 

Bertina Coias Tomé
Psicóloga, Especialista em Psicologia Clínica e da Saúde e Psicologia Comunitária

“E viveram felizes para sempre…” – Alina Carvalho Carreiro

960 640 Aliança Evangélica Portuguesa

Esta frase, tão comum no final dos contos de fadas, traz em si a expectativa de coisas boas e perfeitas para a vida de casados: harmonia constante, nada de lutas financeiras ou emocionais, muita saúde e alguns filhos para alegrar a casa!

Ao casar-me, era isso o que eu desejava… Mas tenho que reconhecer que, actualmente, essa frase tem para mim um significado bem diferente…

De todas aquelas condições por mim sonhadas, a única que vejo preenchida, após tantos anos de casamento, é a que se refere ao meu marido, Vanderli, companheiro sempre presente em todas as situações.

Quanto à vida tranquila, sem lutas ou pressões, a saúde perfeita, os recursos materiais sempre disponíveis… Ora, isso não faz parte do mundo real, em que cada desafio deve se constituir nas oportunidades necessárias ao nosso crescimento e consequente fortalecimento. E se já seguimos o exemplo do salmista, que disse ao Senhor Deus: “Nas Tuas mãos estão os meus dias…” (Salmo 31:15), então não há que temer, pois a cada luta vêm-nos as forças que nos permitem sair vitoriosas.

Mas, e quanto aos filhos? Não é isso o que se espera, que um casal complete a sua felicidade gerando e criando filhos, por meio dos quais venha a perpetuar a sua família?

Para nós, esta foi uma decisão natural. Habituados a viver em famílias numerosas (Vanderli tem dez irmãos, e eu tenho cinco), não nos poderíamos imaginar sem crianças à volta.

Por isso, à medida que o tempo passava, saímos em busca das soluções para o aparente problema da infertilidade. Foram muitos exames, tratamentos diversos, consultas com especialistas, na expectativa de um bom resultado. Em todo o tempo, o Vanderli esteve comigo, apoiando-me e também submetendo-se ao processo, quando necessário. Mas nada acontecia que indicasse a solução do problema.

Para mim, o mais difícil nesse período foi entender o que Deus realmente queria. Embora uma criança fosse muito desejada, custava-me pensar que eu poderia estar a insistir em algo que não fizesse parte dos propósitos de Deus para a minha vida. Às vezes retraía-me diante de uma nova tarefa, porque considerava: “E se eu engravidar? Como vou dar conta deste novo trabalho?”

Por outro lado, deparávamo-nos com as cobranças contínuas: “E então, quando chega essa criança?” Algumas vezes a intenção era boa, de pessoas preocupadas em que estivéssemos a deixar passar o momento ideal para criar os filhos. Outras vezes, éramos feridos por comentários menos bondosos. E o tempo passava… e nada acontecia…

Após uns quinze anos de casados, fui a uma consulta ginecológica de rotina, num hospital muito conceituado. O médico que me atendeu, então, insistiu em que eu marcasse uma consulta na nova Unidade de Esterilidade, para uma avaliação.

Concordei, e compareci àquela consulta, munida de todos os exames e laudos recebidos, ao longo de todo o tempo em que tentara engravidar. A médica, muito atenciosa, conferiu as informações e explicou: “Realmente, você tem seguido o caminho certo, para engravidar. Porém, se vier tratar-se connosco, deverá voltar a fazer estes exames, através do nosso Centro Médico, para conferirmos se há alguma alteração”.

Pedi-lhe um tempo para pensar e fui para casa. Passei uma semana orando e conversando com o Vanderli sobre o assunto. Sobretudo, desejávamos que a paz do Senhor acalmasse os nossos corações, com a decisão que viéssemos a tomar. E foi assim que retornei à médica resolvida a não seguir adiante com o novo tratamento.

Contudo, houve uma condição que coloquei perante o Senhor, caso Ele me mostrasse que não deveria continuar a tentar engravidar: eu desejava sentir-me realizada, completa, independentemente dessa privação dos filhos. Que eu nunca me entristecesse com a alegria daquelas que geram e criam seus filhos, que eu não me considerasse diminuída por não ser mãe, que eu não limitasse o meu afeto pelas crianças, pelo facto de não ter um filho meu… E que soubesse aproveitar todas as oportunidades decorrentes dessa condição, tanto para testemunhar como para empregar o meu esforço e energia no Seu serviço.

E como no plano de Deus não há falhas, e a Sua vontade é boa, agradável e perfeita (Romanos 12.2), eu tenho experimentado alegrias a cada dia, ao depositar diante do Senhor os meus sonhos, expectativas e realizações. O ministério que Ele me tem permitido desenvolver, ao lado do Vanderli, trouxe-nos tantos “filhos e netos”, que de maneira alguma nos sentimos sós!

Portanto, deixo-lhe um desafio. Aprenda a orar como Davi: “Tu és o meu Deus, outro bem não possuo senão a Ti somente” (Salmo 16:2). Deus é o Bem maior. Esta convicção a ajudará a superar as eventuais perdas da vida – a doença inesperada, o marido que se vai, o dinheiro que é pouco, os filhos que não apoiam, o emprego que falhou e o mais que possa pensar. Quando o maior afeto do seu coração for o Senhor, ainda que tudo se venha a perder, o Senhor nunca lhe será tirado. Dele você receberá a vida abundante, que fará com que os seus dias sejam plenos de significado (João 10.10).

O apóstolo Paulo enumerou uma série de situações que, embora graves e desgastantes, são incapazes de nos afastar do amor de Deus, revelado em Cristo Jesus, o nosso amado Salvador: “Porque estou certo de que nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as potestades, nem o presente, nem o porvir, nem a altura, nem a profundidade, nem alguma outra criatura nos poderá separar do amor de Deus, que está em Cristo Jesus nosso Senhor” (Romanos 8.38,39).

E nessa confiança, envolvidos pelo imenso amor de Deus, o Vanderli e eu temos vivido “felizes para sempre…”

 

 

Alina Carvalho Carreiro
Professora de Educação Cristã e de Música

O poder de Deus aperfeiçoa-se na tua fraqueza – Celeste Farinha

960 640 Aliança Evangélica Portuguesa

Quando fui convidada a escrever este artigo, a minha resposta imediata, mas graças a Deus silenciosa, foi: não. Poucos minutos depois, recebi uma mensagem do meu local de trabalho a informar-me que daí a cinco dias eu teria uma formação para dar nos escritórios centrais a um grupo de colegas, na sua maioria desconhecidos. O foco das palestras fora construído a pensar na função e nos desafios com que nos deparamos no dia-a-dia, no nosso local de trabalho. Reclamei: “Pensam que eu não tenho problemas suficientes”? Orei: “Senhor, sou tua filha, sirvo-te fielmente e estou com tantas situações a atribular-me e agora ainda tenho que ir falar de coisas das quais me sinto vazia.” Senti-me subcarregada, frágil e cansada tinha até vontade de chorar, e foi aqui que o Senhor me deu o tema para este artigo e eu nem tinha como dizer não.

Eu senti que estava a ser o terreno fértil para o Senhor fazer algumas mudanças em mim antes que eu fosse tentar ajudar alguém. Provérbios 24:10 diz que se eu me mostrar frouxa no dia da angústia, a minha força será pequena.

Às vezes, como cristãos, achamos que não temos que passar por problemas e reclamamos contra Deus, e ainda somos ousados ao ponto de, quando um irmão nosso está a passar dificuldade, pensar que provavelmente ele não estará a ser fiel a Deus. Quando a nossa primeira filha faleceu, uma senhora crente veio visitar-me e a determinada altura perguntou-me se eu podia confidenciar-lhe aonde foi que eu pequei para que Deus me fizesse aquilo.

Os cristãos devem sofrer ou estar isentos de problemas? Se eu tivesse todo o dinheiro do mundo, será que eu poderia fazer os problemas desaparecer? A verdade é que vivemos num mundo caído e sempre teremos problemas. Todos enfrentamos problemas. A boa notícia é que o nosso Deus é maior que os nossos problemas. Uma coisa que descobri é que quando eu não estou a tratar de problemas meus, eu estou a tentar resolver os de outra pessoa.

Jesus foi perfeito e sem pecado mas, pelo facto de ter vindo viver num mundo caído, Ele enfrentou uma série de desafios com os quais teve que lidar. A notícia fantástica é que Jesus conquistou e superou todos os problemas que podemos imaginar (João 16:33). Gosto de chamar desafios aos problemas, sinto-me mais corajosa para os enfrentar, e são realmente desafios. Jesus não estava imune aos problemas e desafios da vida. Ele foi tentado, testado, acusado, traído.

Há um provérbio Indiano que diz que águas calmas não produzem bons marinheiros. Aceitar os desafios, sabendo que maior é o que está em nós do que aquele que está no mundo, fortalece-nos. Quando eu olho para trás e vejo como o Senhor, ao longo destes anos, agiu e tem agido na minha vida em situações tão difíceis, eu sinto-me privilegiada e mais forte. Sinto-me importante, uma personagem principal no filme real desta vida, e sei que a história sempre acaba bem.

Existem crentes modernos que procuram uma vida cristã livre de problemas. Jesus, os apóstolos e, mais tarde, os discípulos ensinaram que a enfase é aceitar as tribulações em harmonia e confiança com o Nosso Senhor.

Sempre que somos capazes de colocar o Senhor como o nosso companheiro número um nos grandes desafios, eles vão produzir crescimento e fortalecimento espiritual.
Hoje, nas mensagens que recebo diariamente no WhatsApp, estava uma que dizia: “Nunca deixes de acreditar em dias melhores, porque milagres acontecem todos os dias.” É claro que isto é bonito de ler e não tenho qualquer dúvida que me foi enviada cheia de amor, mas olhemos só o que diz a palavra de Deus: “Meus irmãos, tende por motivo de toda a alegria o passardes por várias provações.” (Tiago 1:2) É verdade, mesmo. o Senhor dá-nos paz, dá-nos crescimento e deixa-nos ver o Seu poder a agir em nós. Neste momento, um sem-número de situações veio à minha mente em que o Senhor me deixou passar por situações muito complicadas e me mostrou resultados tão lindos e edificantes.

“E não somente isto, mas também nos gloriamos nas tribulações, sabendo que a tribulação produz paciência e a paciência a experiência; e a experiência a esperança e a esperança não traz confusão, porque o amor de Deus está derramado no nosso coração pelo Espírito Santo que nos foi dado.” (Romanos 5:3-5) Algumas versões dizem que as tribulações produzem perseverança e a perseverança produz carácter. Deus quer moldar o nosso carácter para sermos mais como o Seu Filho.

Há uns anos atrás, quando o meu marido e eu preparávamos as coisas para irmos para o campo missionário na Namíbia, eu comecei a ler algumas coisas sobre o país e li acerca das “Black Mamba” que proliferavam no Norte. Senti calafrios, porque íamos exatamente para o Norte e levávamos as nossas filhas ainda tão pequeninas e iríamos viver numa caravana. Orei, manifestando os meus medos ao Senhor. Naquela altura usávamos uma ajuda para o nosso devocional “O nosso Pão Diário”. O assunto naquele dia tinha a ver com segurança em Jesus. No rodapé do devocional estava escrito o seguinte pensamento: “Segurança não é viver na ausência do perigo, mas no meio do perigo com a presença de Deus.” Imediatamente, eu traduzi para mim: segurança não é viver onde não há cobras, mas no meio das cobras com a presença de Deus. Isto foi tão real. Cheguei a ver algumas no nosso quintal, mas nunca fomos atingidos.

Problemas sempre os teremos mas precisamos de aprender a viver os problemas com a presença de Deus. Será bastante proveitoso também aprendermos com os que enfrentaram a vida com coragem e saíram vitoriosos.

David suportou a fúria de um rei, ataques dos inimigos, o roubo da família. É visível a angústia emocional em alguns Salmos que escreveu. Contudo, nada disso destruiu a seu relacionamento com Deus. No Salmo 27:1 ele revela que a sua força vem de Deus e por isso ele não tem medo de nada.

Job sofreu tanto, e não sabia porque é que aquilo lhe estava a acontecer. (Job 3:3, 11). Mesmo assim, ele manteve-se íntegro e fiel ao Senhor. Augusto Cury, no seu livro “Treinando a emoção para ser feliz” escreveu algo espetacular: “Ser feliz não é ter uma vida perfeita; ser feliz é reconhecer que vale a pena viver, apesar de tantos desafios, perdas e frustrações; ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas e tornar-se o autor da própria história.”

Estamos cá para um propósito que vale a pena. Ninguém chegou a este mundo por engano. Podemos não ter chegado da forma que Deus queria mas a Palavra de Deus diz-nos que antes de sermos formados Ele já nos amava. (Salmo 139).

O nosso Senhor providenciou muitas ajudas para enfrentarmos com coragem os desafios atuais. Precisamos de estar alerta, olhar como foi que outros corajosos servos de Deus antes de nós já venceram e fizeram impacto no nosso mundo. Podemos imitá-los e podemos depois dizer como o apóstolo Paulo: Somos derrubados mas não destruídos. Não desistimos e seremos renovados. (2 Coríntios 4:9,16)

 

Celeste Farinha
Auxiliar de Acção Médica

Perda, Perdão e Liberdade – Lídia Pereira

960 720 Aliança Evangélica Portuguesa

Na caixa do correio, uma notificação do Tribunal da cidade. Sem perceber o porquê e, muito menos, o para quê do meu nome como destinatária, foi com surpresa que verifiquei tratar-se do assunto que transformara, havia bastante tempo, um prometedor fim de tarde de verão em grande tristeza.

Estacionara o automóvel, por poucos minutos. Terminara a minha missão de apoio aos netos deixando-os em casa dos pais e voltara, feliz, depois das despedidas feitas de sorrisos e beijos. Assim acontecia, em cada tarde com as novidades que me contavam e a alegria, sempre renovada, pelo encontro com a mãe que esperava os seus meninos com um abraço sem fim.

Ao regressar ao carro uma surpresa me aguardava: o vidro duma janela estilhaçado na rua e o desaparecimento da minha bolsa, a habitual mala das senhoras que tudo tem dentro.

“Não posso acreditar!” foram as minhas palavras, numa sensação mista de pesadelo ou sonho, de aflição e incredulidade pelo que acontecera em tão pouco tempo, proporcionado pela  minha lamentável  imprevidência de a ter deixado à vista.

… E veio a Polícia e alguns vizinhos, e o desapontamento dentro de mim era enorme, como se me sobrassem mãos para segurar o vazio das chaves de casa, do telemóvel, da carteira com os documentos bancários e de identificação e algum (bastante) dinheiro.

Caiu a noite. O automóvel foi deixado num local resguardado para poder ser objecto de perícia que pudesse detectar a presença de impressões digitais.

Como foi possível isto acontecer? Tantas vezes sabemos de acontecimentos destes  e de outros, incomparáveis na sua gravidade e consequências.  Tentando relativizar o meu desgosto, não podia deixar de me sentir invadida por alguém que, sem escrúpulos, se apoderou do que não lhe pertencia, causando-me tanto prejuízo.

Quem seria o ladrão? Fora hábil, rápido e astuto para conseguir os seus intentos numa rua com tanto trânsito! “Estas coisas são muito frequentes”, “não são apanhados”, “é melhor cancelar os cartões bancários” “não merecem perdão” – eram vozes desconhecidas que, ao invés de me confortarem, só aumentavam a minha sensação de perda.

Nas mãos que ficaram vazias naquele fim de tarde tinha, agora, a informação de que fora identificado e preso o autor do roubo que sofri e estava a ser convocada para me apresentar no seu julgamento. Finalmente a justiça puniria o causador dos prejuízos materiais elevados, já que os morais e emocionais não o poderiam ser.

No dia e hora marcados, ali estava perto da Sala de Audiência, observando, com muito respeito e maior curiosidade, todos os movimentos de funcionários que passavam, em passo rápido, carregando as suas pastas.

À minha chamada, dirigi-me à porta que se abrira: à sua direita, três vultos que vi sem olhar e, nos respectivos lugares, as restantes entidades que compõem um julgamento. Era uma sala pequena de que gostei, por não me sentir intimidada, muito diferente do que imaginara pelas imagens vistas em filmes.

Num pequeno púlpito fiquei em pé. Várias e insistentes perguntas me foram feitas para que descrevesse o que se passara mas uma, a que recordo com nitidez, foi a que, pedindo que me virasse para trás, dissesse se alguma vez vira aquele homem, ladeado por dois agentes da autoridade.

Senti um choque muito grande: um jovem magro, de olhos claros e vazios, rosto envelhecido, olhava-me com curiosidade, frágil e indefeso, num olhar que nunca  esquecerei!  Um misto de solidão e hábito, pobre e desvalido, tentando encontrar na memória desgastada alguma imagem de mim.

Deixara registadas impressões digitais no roubo que cometera. Com esse facto foi confrontado pela Juíza que presidia ao julgamento. Respondeu que não se lembrava desse acontecimento: voltara ao vício da droga depois de um tratamento e, quando isso acontecia, sempre se afundava mais.

À pergunta que me foi feita, se queria ser ressarcida do prejuízo que sofrera, fui invadida por um sentimento de grande compaixão por aquele pobre homem e pelas suas circunstâncias. Veio à minha mente o perdão que Jesus nos oferece quando falhamos e a certeza de uma nova vida quando, arrependidos, O recebemos como Senhor e Deus.

“Nada quero receber” – respondi. “Apenas, e se me for permitido, dizer a este jovem umas palavras: que fale com Deus na sua solidão, procure ajuda de alguém que o encaminhe nessa busca, e experimente ser uma nova criatura com a Sua ajuda, ciente do Seu Amor para com ele, pronto para o ajudar num novo recomeço.” O que lhe estava dizendo já vira acontecer noutras pessoas prisioneiras do mesmo drama. Estava a falar-lhe duma realidade e não duma utopia.

Pediu-me perdão, assim como ao tribunal, e agradeceu.

Pela Dra. Juíza foi aconselhado a lembrar-se, em algum momento da sua vida, das palavras sábias que ouvira. E acrescentou:

– “Está livre! Pode ir buscar as suas coisas (à prisão de onde fora trazido para o julgamento), porque está livre”.

Respirou-se um ar de alívio em toda a sala. A defensora oficiosa enxugou as lágrimas. Os polícias que o ladeavam afastaram-se e tive oportunidade de o cumprimentar.

“… não têm perdão…” ecoava na minha mente uma das frases ouvidas naquele anoitecer tão triste para mim…

No regresso à vida em liberdade, era imensa a minha gratidão pela oportunidade de  poder ter  reflectido  o  AMOR de DEUS na  minha vida e compreender, duma forma tão real,  o valor do perdão que  liberta da mágoa quem o oferece e, neste caso, deu liberdade à vida que o recebeu.

No meu coração e na minha mente, o eco das palavras do meu Salvador e amado Jesus quando ensinava como orar: “… e perdoa as nossas ofensas assim como nós perdoamos aos que nos têm ofendido!”

O sol brilhava, os meus passos tornaram-se mais leves, o amor tornou-se a nota dominante da música que tocava na minha alma e fiz uma das mais sinceras orações da minha vida: “Obrigada, Senhor”.

 

 

Lídia Pereira

Gestora de Recursos Humanos e Administrativos
Aposentada

A Minha Casa – Catarina Borrego

960 626 Aliança Evangélica Portuguesa

Organização. Uma palavra tão amada por uns e tão odiada por outros. Ela define a forma como se dispõe um sistema para atingir os resultados pretendidos. Eu sou uma pessoa organizada – ou gosto de pensar que sim. Desde as finanças, às férias, às refeições de cada dia, não há nada que escape às minhas intermináveis listas. Organizar a minha vida permite-me viver sem stress, sem grandes correrias por falta de tempo… Talvez se identifique comigo: a sua agenda é a sua melhor amiga; ou talvez ache que organização retira a espontaneidade do dia-a-dia e não é algo que faz parte da sua maneira de ser. Contudo, só por hoje, ouça o que tenho para lhe falar acerca de organização.

De todos os tipos de organização, sem dúvida que a da casa é a minha preferida. A nossa casa é o nosso refúgio, ao fim de um dia difícil no trabalho, é lugar de celebrações da família, é abrigo em dia de temporal… Mais do que quatro paredes – é um lar. As nossas casas muitas vezes refletem a nossa vida, sabia? Casas desorganizadas, vidas desorganizadas… Como é que está a sua “casa”?

Hoje não lavo a louça. Fica para amanhã. Amanhã também é dia! Ninguém morre por eu não lavar a louça hoje. Conhece esta lenga-lenga? Vá lá, confesse – também já disse isto. Foi só uma vez. Ou duas. Todas nós já dissemos (e fizemos) isto – até aquelas que são donas de casa perfeitas: aquelas! Têm o chão tão bem lavado que parece um espelho. Sim. Todas.

Sinceramente, todos nós somos seres um pouco desorganizados, andamos muitas vezes no ritmo “deixa para amanhã, para quê fazer hoje?!”.

Eu não sou excepção, um dia não são dias. Porém, se a excepção é a regra na sua casa… Bem, então aí, alguma coisa não pode estar bem. A verdade é que, quer gostemos quer não, a nossa casa diz muito sobre nós mesmos. Casas desorganizadas, vidas desorganizadas.

Pronto, respire fundo. Eu sei que acabou de pensar no armário dos seus filhos. Tenha calma. Nada está perdido – basta começar. Um passo de cada vez, um dia de cada vez. Talvez a sua casa não esteja no seu melhor, talvez a sua vida não esteja no seu melhor, mas o que é importante é que vamos sempre a tempo de mudar. E mudar para melhor.

Eu sou muito organizada (ou gosto de pensar que sim): tento manter a casa funcional, faço listas para tudo e mais alguma coisa, tenho a minha agenda sempre à mão. No fundo, acredito que vivemos melhor, mais felizes, num mundo organizado.

Por exemplo, eu não passo horas à procura da lima das unhas, da última factura da água, ou de um gancho para pôr no cabelo das miúdas: cá em casa, tudo tem o seu sítio certo para estar guardado. E isto permite que o dia flua com mais facilidade, não perdemos tempo – que hoje em dia é tão precioso – porque a verdade, é que o dia passa demasiado a correr. Ou como diria Pitágoras “Com organização e tempo, acha-se o segredo de fazer tudo e bem feito”.

E depois, porque a nossa casa deve ser o nosso refúgio: o cantinho que desejamos encontrar no final de um dia difícil, onde podemos relaxar e estar com aqueles que mais amamos e que mais nos amam. E cuidar da nossa casa, no fundo, é cuidar da nossa família – é uma forma de mostrar o nosso amor por eles.

Como começar, pergunta? Muito fácil. Basta limpar e arrumar tudo no próximo sábado. Pois… Não é bem assim. O problema da organização é igual ao de fazer dieta: perder peso é fácil, o difícil é manter! Ser organizada é um processo e é, antes de mais, uma questão de atitude.

Por isso, vá com calma. Ninguém espera que seja uma super-heroína, e mude de um dia para o outro mas, para ser mais fácil, deixo aqui ideias para ajudar o processo:

10 Dicas Para Começar o Processo de Organização

  • Lixo não se organiza. Se está velho, estragado ou não usa – deite fora ou doe. Está apenas a ocupar espaço.
  • As caixas são nossas amigas. Divisórias para as gavetas, caixas para os sapatos, gavetas de plástico para a despensa: quanto mais dividido estiver um espaço, mais bem aproveitado é.
  • Entra novo, sai velho. Se comprou uns casacos novos, então está na altura de se desfazer dos antigos. E isto funciona para tudo: tupperwares, sapatos, revistas (com excepção do marido).
  • A minha agenda. Não confie apenas na sua memória. Agendar eventos, aniversários, viagens, permite-nos planear com antecedência.
  • A jarra da tia. Se não gosta da jarra, se não fica bem com a decoração, mas guarda por recordação de quem ofereceu: tire uma foto à jarra e a seguir pode doá-la. Nunca mais vai se esquecer da jarra. Nem da tia.
  • Faça a cama. Uma cama feita, é 70% do quarto arrumado.
  • Lave a colher. Eu sei. É só uma colher. Mas 1 colher demora 1 minuto a lavar. 20 colheres demoram… Muito mais tempo.
  • 2 horas para limpar a casa. No mínimo, por semana, reserve duas horas para limpar casa – limpar o pó, aspirar e lavar o chão, lavar wc e cozinha. Depois, no dia-a-dia é só manter, e assim nunca tem a casa muito suja.
  • Famílias unidas. Toda a família deve ajudar a manter a casa. Delegue tarefas. Cada um a cumprir a sua parte, facilita o todo.
  • Planeie o dia seguinte. Não custa nada: um papel, uma caneta, e escreva tudo o que tem para fazer no dia seguinte, incluindo o que vai fazer de jantar e levar para o lanche dos miúdos. Garanto-lhe que vai começar o dia seguinte com muito menos stress.

Um pequeno passo para si. Um grande passo para a harmonia no seu lar.

Comece hoje. Em primeiro lugar, por si – você merece, depois pela sua família – eles são terríveis, eu sei, mas não há ninguém que você ame mais, e em terceiro lugar por Aquele que tudo criou com ordem e perfeição – em tudo devemos dar a nossa excelência e o nosso melhor.

Contudo, existe uma outra casa… Pense comigo sobre o que a Bíblia fala acerca de uma “casa” muito especial: “Vocês não sabem que são santuário de Deus e que o Espírito de Deus habita em vocês? Se alguém destruir o santuário de Deus, Deus o destruirá; pois o santuário de Deus, que são vocês, é sagrado” 1Coríntios 3:16-17. Sim, somos a casa onde Deus habita. Quando Jesus morreu e ressuscitou, Ele abriu caminho para que todos possam ter contacto direto com Deus, em qualquer lugar. Quem aceita Jesus como salvador recebe o Espírito Santo, que faz morada dentro dele “Respondeu Jesus: Se alguém me ama, obedecerá à minha palavra. Meu Pai o amará, nós viremos a ele e faremos morada nele” João 14:23.

 

Deus já entrou na sua casa. Mas será que o deixou passar do corredor? Todas as divisões precisam de ser “arrumadas e limpas”. Deixe-O entrar, organizar…

Comece pelas fundações, na cave, e deixe que Deus lhe mostre onde a confiança começa. A sua Fé será o seu alicerce mais importante.

Suba as escadas e abra a porta da sala de estar, ao fim do corredor. Ajeite as almofadas, sente-se à lareira e disfrute da presença de Deus, onde Ele lhe poderá contar, através da Sua Palavra, tudo o que já fez no passado, desde a criação do mundo até Jesus. Com a Bíblia nas mãos, ponha os pés para cima do sofá e descubra quem Deus é.

Agora, no quarto, arranja as cortinas, coloca uma colcha bonita e limpa… Chegou o momento de uma conversa privada… Em que você fala, pede, agradece e Deus responde. É lugar de partilha. É lugar de oração.

Mais um pouco, e chegámos à cozinha. Deixe de petiscar à pressa.  Sente-se à mesa para desfrutar de uma mesa farta que Deus preparou para si: bênçãos, milagres, sonhos, novos projectos… Deus tem a refeição completa pronta para si.

E por fim, cheguem juntos ao telhado: veja tantas outras casas ao seu redor. Casas a perder de vista. Casas que precisam de “organização”. Casas que precisam de Jesus. Casas que precisam da sua ajuda para se tornarem um lar.

 

Catarina Borrego
Assistente Pastoral

Não Deixes De Agir! – Marta Correia

960 720 Aliança Evangélica Portuguesa

Já te aconteceu ires a uma loja e, quando chegas a casa, vês que te enganaram no troco? Como é que te sentiste? Enganada? Defraudada? Roubada?

Ainda no outro dia, paguei o bilhete do autocarro para ir de uma cidade para outra, aqui no Gana, e o senhor disse para eu me sentar que já me dava o troco. O autocarro saiu e, apesar de me terem dito que me iam dar o troco, não me deram. O motorista disse-me que ele não era responsável e, como um vidro que se despedaça… Senti-me roubada, defraudada, enganada.

Um amigo conduzia um carro num dos países africanos onde o abuso policial é uma realidade. Ainda que ele não fosse a conduzir a mais de 40km/h, a fotografia claramente editada pela polícia mostrava uma velocidade superior a 75km/h! Que injustiça!

Noutro país africano, uma menina é violada no meio da rua. Não obstante o facto de ter sido apresentada queixa, a polícia diz que não pode fazer nada porque não tem dinheiro para o combustível. No entanto, a casa onde o crime ocorreu encontra-se a apenas 50 metros de distância. Consegues entender a frustração desta menina, dos seus pais?

As estatísticas da Organização Mundial de Trabalho indicam haver mais de 40 milhões de pessoas em situação de exploração ou escravatura moderna.

Já imaginaste quão roubadas, defraudadas, enganadas, injustiçadas, frustradas essas pessoas se devem estar a sentir? Muitas delas encontram-se em completa escuridão, violadas, roubadas da dignidade humana, em cativeiro, algemadas e privadas de liberdade, forçadas a trabalhar de sol a sol sem salário ou a satisfazer mais de 30 homens por noite… E acontece à nossa volta.

Qual é, então, o nosso papel, a nossa responsabilidade perante tal opressão? Perante tamanha injustiça?

No tear das nossas vidas, o Artesão fia cada momento da nossa história através do encontro dos fios horizontais e verticais. Se os fios horizontais são as nossas características pessoais, já os fios verticais são as características de Deus: compaixão, bondade, fidelidade, graça, justiça, entre outras.

Se retirarmos um dos fios verticais, por exemplo a justiça, o tecido vai ficar imperfeito. Da mesma forma, a nossa vida ficaria imperfeita sem justiça para connosco e para os outros à nossa volta.

Quando pensamos em pobreza, rapidamente pensamos em fome, doenças, sem-abrigo, analfabetismo, água suja e falta de educação, mas apenas uma minoria iria relacionar pobreza com violência sexual, trabalho forçado, detenção ilegal, roubo de terras, agressão, abuso policial e opressão a que os mais pobres estão sujeitos.

Conheci a Elsa* num abrigo de crianças. Ela foi vendida pelo pai quando tinha 4 anos e resgatada dos seus traficantes após mais de 10 anos de abusos. Quando, em tribunal e perante os seus opressores a Elsa teve que relatar o que lhe tinha sucedido, o advogado de defesa alegava que ela estava a mentir. Foi assim que, aquela menina, com lágrimas a correrem pela face e de pulso cerrado (onde guardava uma pequena moeda), corajosamente ergueu a sua voz e respondeu ao juiz que estava a dizer a verdade.

Estivemos ao seu lado durante todo este processo por forma a restaurar o seu tear, especialmente o fio da justiça e esperança de restauração de uma vida quebrantada.

Continuamos a lutar para que a sentença contra os transgressores seja pesada e sirva de exemplo para deter outros na mesma comunidade de cometerem crimes idênticos.

Estudos confirmam que a maioria das pessoas pobres vive fora da proteção da lei. De facto, os sistemas de justiça no mundo em desenvolvimento tornam os pobres mais pobres e menos seguros. É como se o mundo de repente descobrisse que os hospitais tornam as pessoas pobres mais doentes.

“O desafio é ver a violência pelo que é e acabar com a impunidade que permite que continue a ocorrer.” Gary Haugen, fundador do International Justice Mission

Num país em desenvolvimento, é comum ter que lutar com maior avidez quando se é pobre, porque os pobres raramente têm acesso à justiça se não pagarem à polícia, aos tribunais, entre outros.

Qual é a nossa responsabilidade perante tal situação? Encontrei a resposta na Bíblia, em Provérbios 31:8-9: “Ergue a voz e julga com justiça; defende os direitos dos pobres e dos necessitados”.

Ainda que a violência contra os mais pobres, ainda que mais proeminente nos países em desenvolvimento, não obsta que a mesma possa estar a acontecer na casa do teu vizinho, no rio Tejo com os apanhadores de amêijoa, no semáforo da tua rua onde crianças te imploram uma moeda, na internet onde a criança raptada das praias do algarve está a ser explorada sexualmente na “darkweb”, numa rua onde a prostituta (uma menina recrutada para trabalhar num restaurante) viu os seus sonhos despedaçados quando lhe disseram que precisava de vender o corpo para recuperar a sua liberdade…

Se fechares os teus olhos, será que te consegues abstrair destes abusos?

Nunca é tarde demais! Abre os teus olhos e age. Pergunta à pessoa se precisa de ajuda, chama a polícia e certifica-te de que a polícia actua, investe o teu tempo… Porque a arma mais forte que os traficantes e os abusadores têm é o nosso silêncio.

Certa vez um homem foi convidado para ir a um banquete. Tinha de levar vinho de palma (uma espécie de vinho que parece água) mas, como não tinha dinheiro para comprar vinho de palma, pensou que ninguém notaria se ele levasse água em vez de vinho de palma. Quando juntaram todo o vinho de palma que todos tinham levado e começaram a servir o vinho de palma, sabia a água… Todos tinham levado água a contar que o vizinho ia levar o vinho de palma e que aquela pequena garrafa de água não iria fazer diferença.

Tal como no convite para o banquete, tu és convidado a agir com justiça. A tua “pequena garrafa de água” vai fazer toda a diferença. Os teus donativos, as tuas orações, a tua colaboração com associações de apoio à vítima, com organizações internacionais na luta contra o tráfico como o International Justice Mission, A21 ou Operation Mobilization, entre outras, pode fazer a diferença.

 

Na minha experiência profissional, enquanto advogada na luta contra o tráfico humano, tenho visto que posso alterar o rumo de injustiça na vida de indivíduos e comunidades privadas deste fio vertical da justiça tão essencial nas nossas vidas!

A Elsa e outros sobreviventes são a prova de que os seus abusadores são condenados e punidos.

Não compactues com a opressão. Ergue a tua voz.

Uma estrela-do-mar, de cada vez… faz a diferença!

*  Elsa – nome fictício.

 

 

Marta Correia
Advogada

Um Sopro De Vida – Sara Ramalho Pereira

960 640 Aliança Evangélica Portuguesa

A importância da relação com Deus na vida de uma mulher

E foi ali, à beira das águas cálidas do outro lado do Atlântico, numa areia branca e suave, que eu e Deus nos sentámos a falar!

Aquela viagem, que tinha sido a resposta a um desafio de amigas: “Vamos?” – “Vamos!”,  tornou-se num tempo de regeneração e de encontro com Deus e comigo!

Com uma vida repleta de prazos para cumprir, tarefas para completar, filhos para cuidar, agendas para conciliar, a possibilidade de, por uns dias, tudo ficar para trás e simplesmente ir, pareceu-me uma lufada de ar fresco num momento de exaustão iminente!

Sem dúvida que terá sido o ato mais egoísta que vivenciei mas, de facto, foi profundamente reparador!

Quando me sentei no avião, com 8 horas de viagem pela frente, senti um profundo descanso. Naquelas horas eu teria a possibilidade de fazer coisas para as quais não tinha tido tempo nos dois últimos anos! Ler!! Levei dois livros, um deles o “Aromas da Manhã”, que devorei com todo o apetite de quem não comia há vários dias!!

Só a possibilidade de fazer uma coisa tão simples como ler sem ser interrompida por choros, telefonemas ou pela sensação de culpa de estar a “perder tempo” essencial para outras coisas, trouxe-me uma sensação de prazer que me invadiu de uma profunda gratidão a Deus e ao meu marido por me terem permitido viver aquela experiência de uma forma tranquila.

E assim fomos, eu e Deus, numa viagem até ao outro lado do mundo!!

É curioso pensar que também Jesus, em diversas situações da sua vida, sentiu a necessidade de se afastar! Sempre que Ele tinha de tomar uma decisão ou estava a passar por um momento difícil, Ele retirava-se para um lugar reservado com o propósito de orar, tal como vemos em Lucas 22:39-45.

Noutra ocasião, Jesus sentiu-se tão pressionado pela multidão que O seguia que teve necessidade de se afastar para continuar a cumprir o Seu propósito que era ensinar!

Também nós temos as nossas próprias multidões que, por vezes, são os colegas de trabalho, os filhos, a família, os problemas, entre outros!

É importante, desde logo, ter a capacidade de reconhecer que multidões é que “apertam” a nossa vida pois só quando reconhecemos quais são os nossos problemas é que teremos a capacidade de os solucionar!

Depois importa tomar uma atitude e essa atitude deverá ser, numa primeira linha, algum afastamento dessas multidões!

Quando nos afastamos das multidões que nos rodeiam, as coisas passam a ter uma dimensão menor, a distância dá-nos uma perspetiva diferente do que nos rodeia e ajuda-nos a ver mais para além do que está diante de nós!

 

Por último, não devemos perder os nossos objetivos de vista, para podermos prosseguir com eles mas já de uma forma mais forte e com uma nova atitude!

Há alturas, nas nossas vidas, que temos que reconhecer que somos incapazes de fazer tudo aquilo a que nos dispomos a fazer e temos que reconhecer a necessidade de nos afastarmos um pouco e nos recolhermos para estar com Deus.

Desde a criação do mundo que Deus quis estar com o homem e com a mulher e por isso, em Génesis, vemos que Deus tinha um relacionamento diário e pessoal com Adão e Eva mas o pecado afastou-nos desse relacionamento.

Ainda assim, Deus não desistiu de nós e enviou Jesus para morrer na cruz do Calvário e restaurar o nosso relacionamento com Ele!

No tempo em que vivemos, em muitas situações os relacionamentos são efémeros, fugazes. Importa apenas o aqui e o agora, viver o momento. Ninguém se predispõe a dar mais do que recebe e apenas tem em vista o que pode ser bom e benéfico para si próprio. A essência do relacionamento que Deus quer ter connosco vai além disso, porque Ele amou o mundo de tal maneira que enviou Jesus para morrer por nós na cruz, João 3:16.

E este ato tão altruísta só prova a imensa e profunda vontade de Deus em ter um relacionamento connosco.

Para podermos ter um relacionamento com Deus, temos que tirar tempo para estar com Ele, procurar ler e meditar na Bíblia e, sobretudo, orar para podermos falar com Ele e termos a plena confiança que Ele estará sempre disponível para ouvir, responder e enxugar as nossas lágrimas. Isso vai-nos ajudar a ser mulheres mais fortes, seguras e confiantes de que são amadas e respeitadas e que não dependem de outros mas sim de Deus!

Creio que nós mulheres, na generalidade, gostamos de viver todos os relacionamentos, de forma mais romântica, mais floreada. Queremos conversar, passear, queremos amar e sentirmo-nos amadas, ter uma relação de companheirismo. Vivemos tudo de forma muito intensa e, por vezes, há situações em que a não correspondência das nossas exigências se traduz num sentimento de frustração porque os outros, em determinado momento, não vão conseguir estar à altura das nossas expectativas.

Com Deus é diferente! Nunca será Ele a desapontar-nos. Talvez seremos sempre nós que não seremos capazes de manter o relacionamento com Ele na mesma medida que Ele o mantém connosco! Porque relacionamento implica correspondência, afinidades, convivência, implica um envolvimento diário e Deus está sempre disponível para nós e recetivo a dar-nos o Seu colo!

Este colo de Deus evoca-me a memória de um momento nesta viagem que fiz a Cuba, em que passeei por aquela praia de areia branca, com o mar a banhar a areia e as palmeiras ao fundo a contornarem o areal, tudo tal como num postal, e quase que consigo ouvir recitar o famoso poema:

“Pegadas na areia

Uma noite eu tive um sonho.

Sonhei que estava a passear na praia com o meu Senhor
e através do Céu, passavam cenas da minha vida.

Para cada cena que se passava, percebi que eram deixados
dois pares de pegadas na areia;
Um era meu e o outro do Senhor.

Quando a última cena da minha vida passou
Diante de nós, olhei para trás, para as pegadas
Na areia e notei que muitas vezes, no caminho da
Minha vida havia apenas um par de pegadas na areia.

Notei também, que isso aconteceu nos momentos
Mais difíceis e angustiosos do meu viver.

Isso entristeceu-me deveras, e perguntei
Então ao Senhor.
“- Senhor, Tu me disseste que, uma vez
que eu resolvi Te seguir, Tu andarias sempre
comigo, todo o caminho mas, notei que
durante as maiores tribulações do meu viver
havia na areia dos caminhos da vida,
apenas um par de pegadas. Não compreendo
porque nas horas que mais necessitava de Ti,
Tu me deixaste.”

O Senhor me respondeu:
“- Meu precioso filho. Eu te amo e
jamais te deixaria nas horas da tua prova
e do teu sofrimento.
Quando viste na areia, apenas um par
de pegadas, foi exatamente aí que EU,
nos braços…Te carreguei.”

O poema Pegadas na Areia foi escrito em 1964 por Margaret Fishback

 

 

Sara Ramalho Pereira
Advogada

Sonhos Geram Sonhos – Lídia Ferreira

960 639 Aliança Evangélica Portuguesa

Sonhar

É atrever-se a olhar para fora, para além do óbvio, do conhecido
É atrever-se a considerar possível o impossível,
É aguardar o futuro com expectativa,
É ser perseverante na adversidade.

 

É bom sonhar!

Mas nem todos conseguem olhar para o futuro por janelas de esperança.

Alguns estão presos a circunstâncias que acreditam ser determinantes e finais, senhoras do seu passado, algozes do seu presente e roubadoras do seu futuro.

Encontram-se eles próprios fechados no desespero de ter falhado, na frustração de não ter conseguido, na revolta de se sentirem defraudados ou até no desgosto de nem terem tentado.

Não reconhecem em si a capacidade de sonhar e desconfiam de quem diz que sonha. Sem horizontes, caminham pelos dias e pelos anos sempre da mesma forma, correndo o risco de desenvolver uma estabilidade mórbida.

 

Não sonhar é passar pela vida sem viver.

Uma leitura simples do texto Bíblico apresenta-nos os sonhos de diversos sonhadores através dos tempos.

Desde logo, o sonho Divino de relacionar-se em amor com alguém Seu semelhante, sonho que O moveu num ato criador de acordo com a Sua imagem e semelhança, gerando alguém criado por si e a quem fez portador do Seu espírito. Com este alguém  vivia o sonho de passear, relacionar-se e de viver todos os dias. [1]

Mas, o sonho foi testado e a relação interrompida. Contudo, o predador dos sonhos não conseguiu os seus intentos. E, de um movimento criador, Deus passou a um ato redentor, do qual falou muitas vezes e de muitas maneiras, revelando o que viria a acontecer. Ele não permitiria que o sonho morresse, nem que para isso tivesse de se tornar Homem e dar a Sua Vida. Nem que o tivesse de fazer, outra vez, com as Suas próprias mãos: mãos que antes se cruzaram sobre o pó e agora se abriam numa cruz; mãos que com sangue escreveram salvação e desenharam de novo a ponte da relação.

E o homem renasceu, novamente gerado e capacitado a encontrar-se em relação íntima com Deus no virar de cada dia.

 

Os sonhos morrem quando o sonhador os deixa morrer.

Mais adiante o texto Bíblico relata um jovem que sonhou para si um futuro de sucesso e de influência acima do comum. Partilhou o sonho com o seu círculo mais íntimo: aqueles que deveriam acreditar em primeira mão, incentivar e acalentar a partilha. Contou-lhes que um dia estaria em lugares de destaque, tomaria decisões que influenciariam a vida de muitos. Era um sonho ousado, porque se sobrelevava aos comuns ideais do círculo íntimo e representava ameaça de concorrência: Aquele que era o menor sonhava ser o maior! 

Esse foi o início da luta pelo sonho. Sonhar não é tarefa simples. Acalentar o sonho requer coragem de guerreiro. Enquanto acreditava na veracidade do que vira e na interpretação que lhe dera, o jovem teve também de aguentar as consequências da partilha. Inveja, ciúme, descrédito, amargura, ódio, separação, ditaram as circunstâncias através das quais teve de guardar o sonho.

 

É responsabilidade de quem sonha, saber guardar o sonho.

O círculo íntimo procurou enterrar o sonho, na esperança de o matar. Cavaram um buraco e colocaram nele o sonhador:

– “Aí nas profundezas desse buraco podes sonhar à vontade. Nada vai acontecer. Um “animal feroz” comerá o teu sonho!”

Grandes sonhos sofrem ameaças ferozes, parecendo que vêm, inevitavelmente, incluídas no “pacote” do sonho. E no fim daquele dia de desilusão, o sol pôs-se sobre a esperança de viver para ver o sonho! No entanto, na escuridão da noite campesina, ao som das ameaças desconhecidas das trevas, não restava mais nada a não ser o sonho. Era bom rever como possibilidade aquilo que parecia agora longínquo e impossível.

 

Em circunstâncias inóspitas é o sonho que alimenta a vida.

Muitos Sois e Luas passariam até que o jovem visse a realização do seu sonho.

A distância temporal entre o momento do sonho e o da sua realização pode ser maior ou menor, mas é sempre desafiante. Exige confiança no material sonhado, tenacidade perante as ameaças de “morte ao sonho” e diligência nas ações da espera. Porque a vida do sonhador não é um vazio e a espera também o não é.

A viagem do sonhador deste relato foi sinuosa e cheia de perigos, aparentemente aumentando a distância da sua realização ou até gritando a sua impossibilidade. Aquele que sonhara ser o maior foi, afinal, o menor, o escravo, o servo, o prisioneiro.

Numa situação de vulnerabilidade, tentaram trair o sonho. Foi necessário um caminho de coragem, de sabedoria e de fidelidade para o preservar: coragem para dizer não ao prazer fácil que lhe era oferecido; sabedoria para acreditar que posições confortáveis também poderiam ser inimigas do sonho, que o hoje está distante do amanhã e que o futuro é comprometido com uma decisão do presente; fidelidade para honrar os compromissos e manter o carácter.

 

A consistência de carácter preserva o sonho.

Numa perfeita resposta de injustiça, o sonhador foi vítima de difamação e de mentira. E, assim, tentaram aprisionar o sonho. Mas mesmo na prisão, quando todas as vozes gritavam “Esquece! Ninguém se lembra de ti. Vê quão distante estás do teu sonho. Desiste!”, o sonhador acalentou a esperança da liberdade e a certeza da validade de Quem lhe dera a capacidade de sonhar.

 

Mesmo os sonhos que estão presos gritam por liberdade.

E foi, novamente, pela fidelidade e autenticidade que o marcavam que se distinguiu na adversidade.

A capacidade de sonhar está ao alcance de todos, em qualquer circunstância. Alguns limitam-se a si mesmos pela incredulidade, pela ausência de esperança, pela fragilidade de carácter e pela fraca persistência. Mas todos podem sonhar!  

Os sonhos podem ser grandes ou pequenos, podem ser pessoais ou de valor comunitário, mas todos precisam de ser guardados.

O desejo e a esperança estão na base do sonho. Há predadores de sonhos que, por inveja ou por medo, se esforçam para matar aquilo que o sonhador deseja e espera, impedindo que o sonho nasça. Esses predadores aparecem sobretudo quando os sonhos dos outros parecem maiores do que os seus.

Manter o sonho vivo (apesar de tudo) exige a tenacidade do guerreiro, a força do sábio e a persistência da fé.

Na história do jovem sonhador apareceram também contributos, em momentos cruciais, que estimularam a esperança e acalentaram o desejo. Deus envia, nos momentos certos, guardas de sonhos que mesmo sem saberem contribuem para o processo da sua realização, ainda que através do seu  próprio sonho. E o sonho do jovem aconteceu pelo sonho de um rei. [2]

 

Sonhos geram sonhos.

E durante a concretização desse sonho ousado, o jovem esteve em lugares de governo e salvou a vida de muitos com a sabedoria, a prudência e a humildade que foram marcas na sua vida de sonhador.

Na vida, como na história, há momentos em que apetece sonhar e momentos em que apetece desistir de sonhar. Há sonhos soterrados pela desilusão, pela traição e pelo desafio da realidade muitas vezes dura e contraditória do sonho. Não faz mal fechar os olhos, esquecer o que por eles entra e,

retirando camada a camada, mesmo que doa , abri-los de novo… Para voltar a sonhar!

  1. Génesis 2,3
  2. Genesis 38,39

 

 

Lídia Ferreira
Counsellor, Formadora

 

Portas Que Se Abrem – Carmina Coias

1280 784 Aliança Evangélica Portuguesa

Chá de limão e torradas ou um bolinho, num lanche agradável. Ou comida quente, numa refeição mais substancial. Em volta da mesa, muitos foram os momentos em que recebemos pessoas em nossa casa e partilhámos o nosso tempo com elas. Ou apenas encontros para aconselhamento e oração. De facto, a porta de nossa casa sempre fez parte do nosso ministério, onde quer que vivemos. Por ela entraram amigos, alguns carentes de ajuda, por quem orámos e vimos a vitória acontecer nas suas vidas. Foram situações em que Deus nos deu a oportunidade de O servir sem sair de casa.

Lembro-me de uma jovem que chegou tão abatida à nossa porta, com uma situação que só mesmo o Senhor poderia resolver. Hoje ela é uma mulher muito feliz. O milagre de que precisava aconteceu.

Em Timor, onde fomos missionários, a nossa porta abriu-se várias vezes para deixar entrar pessoas que vinham entregar-se a Jesus. Diziam elas: “Queremos a mesma alegria que vemos nos nossos vizinhos que são crentes.”

Por vezes, há pessoas que dizem: “Estive em sua casa uns dias” e eu tenho que confessar que não me lembro. Contudo, fico feliz, pois foram muitos os que nos abençoaram com a sua estadia ou visita.

Nem sempre vimos possibilidades de ajudar todos os que nos procuravam, mas aprendemos que somos apenas servos, e podemos confortar com oração, guardando a certeza e a esperança na da resposta com Deus.

Pela nossa porta também entraram “anjos” que Deus enviou quando deles precisámos. Lembro-me, em particular, de um casal de missionários australianos, reformados, que nos visitaram em Timor, numa altura de luto pelo falecimento do nosso filho. Rostos desconhecidos mas impregnados de amor, que nos trouxeram a esperança de voltar a ser pais, quando era uma impossibilidade médica em Portugal. Uns meses depois, abriram as portas de sua casa, em Melbourne, onde eu seria operada e veria assim recuperada a possibilidade de engravidar de novo. Tivemos mais dois filhos!

Em 1999, quando visitei Portugal, o pastor José Neves levou-me à rua onde viveu a minha mãe. Essa é outra porta de que sinto muitas saudades. Quando parámos em frente, por um momento desejei o impossível: que o seu rosto querido surgisse abrindo a porta, como aconteceu tantas vezes. Contudo, na ausência dessas portas, Deus continua a dar-me outras “portas de oportunidades” para dar e receber conforto e ajuda.

Houve muito que se perdeu como o correr da vida, mas a fidelidade do Senhor permanece imutável, continuando a abrir “portas que ninguém pode fechar.”

 

Carmina Coias
Missionária Aposentada

Estações – Ana Mary Baizán

960 639 Aliança Evangélica Portuguesa

Há pouco tempo, observando as constantes mudanças de temperatura e a incerteza do clima na nossa localidade de residência, comentava com uma das minhas filhas a dificuldade que sentíamos quando tentávamos selecionar as peças de roupas que iríamos usar no dia seguinte.

O normal e tradicional é fazermos uma espécie de limpeza seletiva no fim de cada estação, quase um “ritual”, eliminando as peças que já não iremos usar durante os próximos tempos por se mostrarem inadequadas para enfrentar as novas temperaturas e condições que se apresentam. Nesse momento, nem sequer sabíamos o que devia ficar no nosso armário e quais peças deviam seguir o caminho para o nosso lugar de arrecadação no sótão da casa.

Isto fez-me pensar que, às vezes, este sentimento e impressão de confusão pode vir até nós no que se refere às estações e tempos que se desenrolam nas nossas vidas.

Toda esta conversa entre nós duas, trouxe-me à memória uma frase do irmão Swindoll que afirma “como erramos ao caminhar às cegas e numa mesma rotina através de uma vida de estações em mudança, sem descobrir respostas para os novos mistérios e aprender como cantar novas melodias! Estações são designadas para nos aprofundar e instruir na sabedoria e caminhos do nosso Deus”.

No mundo natural, cada estação requer uma determinada maneira ou rotina de vestir e até de agir nas nossas vidas quotidianas, porque as circunstâncias inerentes a essa estação, assim nos obrigam ou influenciam. Não posso pretender passar pela estação de inverno vestida com um simples fato de banho ou querer desfrutar do verão caminhando de cachecol e casacos quentes.

Na Bíblia, encontramos analogias e até narrativas que nos falam da importância de estarmos vestidos, ou seja, “prontos” para viver a situação que se avizinha.

Não posso colocar em mim um fato de treino e um avental para assistir a um casamento ou cerimónia formal, mas estarei fantasticamente vestida e “pronta” para um dia de limpezas em casa.

A função a realizar determinará a minha roupa e outros requisitos pertinentes para levar a cabo com sucesso essa tarefa designada para esses dias.

É muito interessante, por exemplo, observamos o facto de existir uma “troca de vestes” durante toda a vida de José, quando passava de uma estação para outra. De Filho a escravo, de escravo a prisioneiro, de prisioneiro a palácio… Sabemos que Deus tinha um plano para a sua vida e que o fez passar por cada estação com o propósito de o conduzir e capacitar para ser o instrumento de livramento para o Seu povo.

Este tema leva-me a recordar o dia em que efetivamente eu arrecadei a toga que costumava usar aquando das minhas diligências em Tribunal. Nesse dia, tive a clara noção de que “essa peça de roupa” já não iria fazer parte do meu armário na nova estação que Deus preparara para mim…

Deus é um Deus de tempos, de “kairos” e não falamos de tempo cronológico mas falamos de tempos no sentido de estações.

O Livro de Eclesiastes lembra-nos que existe um tempo para todas as coisas mas quão difícil é compreendermos e discernirmos esses diferentes momentos nas nossas vidas sem a ajuda do Espírito Santo.

Da mesma maneira que a instabilidade climática termina por nos enganar na escolha das roupas, pois uma primeira olhadela pela janela ou a previsão meteorológica terminam por não acertar com o que realmente vai a acontecer durante o nosso dia, não serão as previsões humanas ou as nossas primeiras impressões que nos conduzem ao discernimento da estação que estamos a viver nas nossas vidas.

Quando falo de estações, refiro-me a estações nas variadas áreas em que somos mulheres, seja a nível pessoal, individual, no relacionamentos com os outros, na família onde estamos inseridas, como filhas, esposas, mães e, por fim, como membro do Corpo de Cristo.

Porque é que, por vezes, nos privamos da oportunidade de viver uma nova estação, seja em que área for, deixando que o medo do desconhecido e que a rotura de uma rotina à qual estamos habituadas e já ancoradas, movidas pelo conforto que isso nos traz, dominem as nossas escolhas?

Desde estas linhas, quero lembrar às leitoras de que, em Deus, há sempre muito mais do que nós esperamos ou alguma vez sonhámos.

Geralmente, quando Deus tem uma nova estação para as nossas vidas, o Espírito Santo começa a incomodar-nos trazendo um inquietação. Não falo de falta de contentamento porque nós devemos de saber estar satisfeitas em Cristo no que se refere a alimento espiritual e salvação, mas estou a apontar para um “desconforto”.

Lembremos Daniel, quando “discerniu pelos livros” que o tempo de as assolações de Israel tinha findado; esse entendimento levou-o a orar e agir de maneira diferente, pois ficou “incomodado”.

Reparem no episódio em que Pedro e André são desafiados por Jesus, com uma simples frase: “Vinde a pós mim e eu vos farei pescadores de homens”. Quando uma nova estação nasce na nossa vida, abre-se instantaneamente uma oportunidade de transformações.

Da mesma maneira que o cenário muda quando cada estação aparece – as cores, as paisagens, as condições – aprendamos a discernir os tempos e a ouvir a voz de Deus, quando observemos que o “cenário da nossa vida” também está a sofrer mudanças.

Nenhuma estação é mais necessária do que outra, pois cada uma delas foi estipulada pelo nosso sábio e soberano Deus e adjudicou funções próprias a cada uma com a finalidade de criar um equilíbrio e uma sucessão natural e necessária na natureza. Afinal, quando a Palavra diz que Deus viu que tudo era bom, o que nos é dito é que tudo tinha uma utilidade para alcançar um fim.

Podes perguntar: como podes Deus desafiar-me para uma nova estação, à medida que passa o tempo, se Ele sabe que as minhas forças cada vez são menos, as minhas capacidades ficam mais limitadas e o tempo é mais curto?

Quero dizer-te que como tudo o que Deus faz novo, quando Ele nos conduz num novo tempo, sempre será para melhorar o existente ou para redirecionar-nos na Sua grande comissão.

Como costuma dizer um grande amigo meu, “Menos é mais”. Quantidade não é qualidade e vice-versa.

Por vezes, as novas estações trazem uma grande oportunidade de definir as nossas prioridades e de focarmos as nossas forças e habilidades na defesa e proteção dessas prioridades.

Há poucos dias, conversava com uma jovem, mãe de primeira viagem, cujo maior desafio na actualidade era conciliar o seu papel de esposa, mãe, profissional e parte do corpo. Alguém que, durante a estação passada, tinha tido todo o tempo para servir na Igreja, para investir em relacionamentos e amizades, para dedicar-se a outras áreas com uma maior intensidade mas agora interrogava-se acerca do seu desempenho nas variadas funções e da frustração por não continuar a viver na mesma rotina, numa outra estação que vem requerer novas rotinas e novos desafios e, sobretudo, responsabilidades.

Deus conhece a estação que estamos a viver, pois foi Ele que nos levou até ela, mesmo podendo tratar-se de um deserto; isto aconteceu com o próprio Jesus, quando foi guiado pelo Espirito até o deserto para ser tentado.

Qual é o nosso maior desafio ao passar pelas estações da nossa vida senão permanecer fiel a Deus e obediente à Sua palavra, não perdendo de vista o alvo principal de trazermos glória a Seu nome, seja qual for o tempo que está estipulado sobre nós?

Nas Suas mãos estão os nossos tempos, e Ele é que sabe se devo permanecer mais um bocadinho na minha atual “paisagem” ou se devo transitar para a nova que Ele já preparou de antemão.

Voltando à conversa com que iniciei este pequeno texto, a minha filha e eu chegámos à conclusão de que, devido ao estado confuso da meteorologia, terminaríamos por deixar peças nos nossos armários que iriam ficar lá pela nossa incerteza (…e se vou precisar disto…é melhor preservar…) mas que só ocupariam lugar e impediriam a melhor acomodação das outras que seguramente precisaríamos de usar.

Quando se trata de estações de Deus na nossa vida, não tenhas medo de desfazeres-te de “peças de roupas”, pensando que irás precisar delas; devemos renunciar a tudo o que nos rouba forças e concentração para desenvolver o que Deus traz para nós na nova estação.

Para finalizar, gostaria de meditar no facto de que o plano de Deus para nossa vida é algo dinâmico e não estático. O que quero dizer com isto? Deus tem um plano de salvação para nós e isso não muda efetivamente, mas a maneira em como iremos refletir e revelar a Glória do nosso Deus, é algo dinâmico e que pode mudar ao longo da nossa caminhada aqui na Terra.

Muitos ancorados no velho chavão de que “tudo o que é de Deus, permanece assim até ao fim”, insistem em viver todas as estações das suas vidas, “vestidos” com as mesmas roupas e desenvolvendo a sua missão da mesma maneira, boicotando-se a si próprios e privando-se da oportunidade de ver Deus refletido neles através da multiforme graça de Deus.

Os tempos mudam e precisamos de os discernir com a ajuda do Espírito Santo. Isto, tira-nos da zona de conforto à qual estamos habituados e nos transporta para uma caminhada contínua à procura do plano individual e específico de Deus para nós, onde andamos guiados pelo Espírito Santo e totalmente dependentes do seu auxílio e indicações.

Aprendamos a discernir os tempos com ajuda do nosso “paracletos”, o Espírito Santo, aceitemos as estações de Deus para nós e o desafio de tirar as peças de roupas que não iremos precisar para caminhar confortavelmente e sem embaraços no tempo que estamos a viver.

 

Ana Mary Baizán
Advogada
Evangelista na AD Almada

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