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Mulheres

Deus cuida dos detalhes

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Eu sou a Marta e quero contar-vos a história muito especial do meu filho Rodrigo. Tudo começou em 2007, quando casei com o Nuno. Dois anos depois, sentimos que seria altura de pensar em ter um filho, o que constituiria uma alegria para toda a família… E um tempo depois, aconteceu!

O teste do pezinho

O Rodrigo nasceu em 2011, de cesariana, e por isso eu tive de ficar mais uns dias no hospital. Saímos no 6º dia, e no 7º dia o Rodrigo fez o teste do pezinho. Todos os pais fazem porque é obrigatório, mas normalmente nunca mais nos lembramos dele… O problema foi quando, passados 10 dias, chegou a nossa casa uma carta a dizer que havia ligeiras alterações no rastreio alargado do pezinho e solicitaram-nos uma nova amostra de sangue. Isto, para uma mãe que acabou de ter um filho, significa milhões de dúvidas sobre a ideia de não ser normal. “Nunca ouvi falar disto, porque é que estão a pedir uma segunda amostra?” Passados mais 10 dias, eu recebi um telefonema do Hospital de Dia das doenças metabólicas, para fazer novas análises. Mais uma vez nos disseram que o segundo teste tinha vindo com anomalias, e que seria necessário fazer análises mais específicas e enviar para o Instituto Ricardo Jorge, no Porto, que era onde estavam os especialistas em doenças metabólicas. Teríamos que esperar um mês e meio pelos resultados.

Duas mutações

Quando os resultados chegaram, no dia 18 de Maio, o Rodrigo tinha 2 meses. Ele tinha duas mutações. Uma delas era o VLCAD, uma doença ligada à cadeia dos ácidos gordos, da cadeia muito longa. Sobre a segunda mutação, o resultado dizia que “não se encontrava descrita na literatura”, pelo que seria necessária nova análise… Esta nova análise foi realizada num ambiente super protegido para não haver qualquer risco de contaminação, e foram retiradas amostras de sangue a mim e ao bebé, na Faculdade de Ciências de Lisboa, e enviadas para a Holanda, onde estão os maiores especialistas em doenças metabólicas, para analisarem a segunda mutação. Foi então que os profissionais de saúde explicaram melhor o que se passava – se o Rodrigo tivesse apenas um gene com mutação, seria portador, tal como eu e o pai, o que é uma situação raríssima ou seja, ambos somos portadores de uma mutação e, por coincidência, os dois passámos a doença ao nosso filho (podia não ter acontecido, sequer).

O que significa?

A primeira mutação do gene do Rodrigo –VLCAD significa que a enzima não processa os ácidos gordos da cadeia muito longa. Quais as implicações disso? O nosso corpo precisa de energia para funcionar. Ora, se a enzima não consegue processar os ácidos gordos, o organismo não teria energia e era necessário fornecer-lhe essa energia. Na altura, os profissionais de saúde tinham muito pouca informação. Foi-nos facultado o protocolo da doença VLCAD, em inglês. Eu sentia um misto de angústia e anestesia, pela surpresa da situação, mas uma das coisas que não me saía da cabeça era que uma das consequências graves da doença poderia ser coma ou morte. Para uma mãe, com uma criança de dois meses nos braços, não é fácil ler isto. A questão é: se o corpo não consegue produzir energia a partir dos alimentos, vai tentar ir buscá-la aos músculos, aos órgãos, “consumindo” a estrutura destes, e atacando especialmente o coração, podendo então provocar o coma ou a morte súbita.

A alimentação

Era regra para o Rodrigo comer de 3 em 3 horas, incluindo à noite. Bem, há pais que conseguem dar um biberão aos bebés, mesmo com eles a dormir, ou quase… Mas não era o caso do Rodrigo. Ele não acordava, serrava os dentes, não queria beber, só queria dormir, e quando era mais crescido atirava o biberão fora, só para poder dormir. Podem imaginar o nosso desespero como pais, sabendo que o nosso filho tinha esta doença, e que ela não tem outro tratamento a não ser comer… O nosso corpo adquire energia através dos açúcares (que se consomem rapidamente), dos hidratos de carbono, e caso não existam estas fontes de energia, o corpo vai buscar às “reservas” de gordura, coisa que o Rodrigo não tem. O corpo do Rodrigo tinha pois, de ser constantemente “reabastecido” de energia, caso contrário, poderia entrar em descompensação.

Os resultados chegaram da Holanda. Confirmou-se que o Rodrigo tinha VLCAD, embora, graças a Deus, fosse uma variante “leve”. No entanto, a doença era grave, havia pouca informação e o que se sabia é que o bebé não podia deixar de comer, independentemente do sono ou das birras…

Eu orei tantas vezes a chorar: “Por favor, Deus, guarda o meu menino, se ele não comer”. Tenho a plena consciência que Deus o guardou muitas vezes, e que eu fazia de tudo para o manter acordado, mas por vezes ele passava o número de horas estabelecido, pois não acordava.

O Rodrigo hoje

O meu filho tem agora 9 anos, e quem olha para ele não vê qualquer indicação de doença. Contudo, o Rodrigo tem restrições e tem de saber viver com elas, apesar de ser apenas uma criança. Por exemplo, numa festa de aniversário, ele não pode comer batatas fritas, gomas, doces, chocolates “à vontade” como os seus amiguinhos. Pode apenas comer uma destes alimentos pontualmente, pois o seu organismo não os processa.

Hoje, a informação sobre a doença evoluiu e o Rodrigo já pode tomar o MCT Oil, que é a gordura que o corpo humano processaria para obter energia, e também algumas vitaminas. Este produto e um outro medicamento são caros mas são comparticipados pelo Estado, o que é uma bênção grande.

A graça de Deus!

Apesar de todos estes condicionalismos, eu consigo ver a graça de Deus em cada detalhe, o Seu cuidado, proteção e amor. Outras pessoas há com doenças, das quais os médicos não conseguem detetar as causas, não conseguem identificar os tratamentos, o que nunca aconteceu com o Rodrigo. Por exemplo, eu soube de um caso que só ao fim de 10 anos foi detectado que a pessoa tinha uma doença metabólica, com todas as consequências que daí advieram, infelizmente. Eu conheço bem a angústia de não saber o que o meu filho tem, para se tratar convenientemente, e por isso agradeço a Deus que a doença tenha sido logo detetada no Rodrigo, prevenindo situações graves. Sei que o papel dos pais é fundamental, nunca deixando passar as rotinas alimentares e as tomas dos medicamentos, mas mais do que tudo sei que Deus cuidará de cada detalhe, como até aqui, e é isso que sossega o meu coração. O Rodrigo até hoje é acompanhado pelas Unidades Metabólicas e pela Cardiologia, realizando Holters frequentes. É um menino saudável, apesar de tudo, que gosta de saltar e pular, correr e brincar, e isso é a graça de Deus visível na sua vida, na nossa vida!

Com este meu testemunho, quero expressar a enorme gratidão que eu tenho para com Deus e a serenidade que tenho dentro de mim pela certeza de que, seja qual for o problema, podemos colocar sempre aos pés de Deus e Ele, na Sua infinita misericórdia, nos ouvirá e resolverá, caso seja essa a Sua vontade. Para Ele nada é impossível.

Marta Aleixo

Assistente executiva

Apaixonada pelo Maestro

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Levantei-me sem dores, com a energia normal de quem bebe café e sai de casa em pulgas para ver o tão esperado concerto de música clássica.

Mas percorri todo o parque da Gulbenkian, depois de subir e descer escadas do metro, comboio e sei lá mais o quê, tudo para chegar minutos antes e entrar naquela sala ainda agitada de pessoas mascaradas à procura do seu lugar regrado por distância.

Não admira que me sinta ainda entusiasmada mas já com a cabeça um pouco a andar à roda. Oiço a apresentadora explicar que a obra se divide em vários actos e os primeiros são de estórias infantis, desenhadas na sua composição com muito detalhe, que nos daria a oportunidade de ouvir algo complexo e difícil de uma forma simples e bela. Fico ainda mais curiosa e sinto o calor do pequeno sprint que fiz perdida à volta daquele edifício. Apagam as luzes e abrem as cortinas por trás dos músicos. Uma janela para o lago do parque, que cenário! O maestro entra, formoso e famoso e não se ouve um suspiro. Vai começar…

Lembro-me que nos dois primeiros actos a minha pele esteve sempre arrepiada mas o meu cérebro não conseguia assimilar… Estava ainda a despir-se do que se passava lá fora. A semana fora intensa e era preciso deixar tudo à porta mas entrou rápido demais e a melodia acompanhava aquele despir das roupas molhadas e pensamentos ensopados, como se estivesse farta deles e tivesse pressa de começar outra vez.

Sinto a cabeça dormente, foi rápido demais para uma pessoa que está a recuperar de uma exaustão neurológica e psicológica. Mas agora estava ali, e despida já estava, mesmo assim.

Então chegou o terceiro acto. Comecei a reconhecer a linguagem dos instrumentos, entendi o diálogo tumultuoso da “Bela e o Monstro” que depois se torna príncipe entoado já por cordas de harpa e acaba tão vigoroso que há uma pausa silenciosa seguida de um aplauso esplendoroso. E eu já estava no filme… Entrei no 4º acto como se vivesse uma cena da Jane Austen… Sentia a nostalgia de algo fantasiado no meio de uma beleza surreal que invadiu os meus ouvidos, enquanto me distraía a ver os patos lá fora a dançar no lago ao som daquela composição. Já não sei bem em que parte limpei a cara molhada mas recordo-me da brisa que me invadiu o peito, porque por um lado estava feliz demais e não sabia conter todo ar que estava lá dentro, mas ao mesmo tempo tinha uma saudade avassaladora do que ainda não vivi.

Como se aquele momento me profetizasse o futuro, uma simples melodia, antecipava em mim a certeza de que esta frágil capa um dia se rasga e revela um coração cheio, com cicatrizes e estrias de tanto esticar e encolher, mas cheio de amor para dar e vender. Um coração livre que celebra a vida com um aplauso emocionado, de pé e sorriso nos lábios por cada acto tocado, cada solo, por cada instrumento mais afinado da nota mais triste à mais saltitante, vivida na mente d’Aquele que dirige a orquestra e de lágrimas nos olhos, tal como eu, se vira para receber o meu aplauso, enquanto eu me prostro porque não sei mais o que fazer para lhe agradecer dirigir esta obra magnífica que Ele diz ser eu mas que foi criada por Ele. Obrigada Maestro.

“Pois possuiste os meus rins; entreteceste-me no ventre de minha mãe. Eu te louvarei, porque de um modo terrível e tão maravilhoso fui formado; maravilhosas são as tuas obras, e a minha alma o sabe muito bem. Os meus ossos não te foram encobertos, quando, no oculto, fui formado e entretecido, como nas profundezas da terra. Os teus olhos viram o meu corpo ainda informe, e no teu livro todas estas coisas foram escritas; as quais iam sendo, dia a dia, formadas, quando nem ainda uma delas havia. E quão preciosos me são, ó Deus, os teus pensamentos! Quão grandes são as somas deles!”

“O Senhor teu Deus veio para viver no meio de ti. Ele é um poderoso Salvador e far-te-á vencer; terá grande prazer em ti; amar-te-á e não mais te acusará. Ouço um alegre cântico que traduz a própria alegria que o Senhor sente em ti.”

Raquel Costa

Formada em Serviço Social, fundadora do projecto www.worshiphouses.org e Líder de Louvor na Igreja CCVA Alverca

Recordações de um tempo sombrio

1048 730 Aliança Evangélica Portuguesa

A encomenda é volumosa e pesada. Acabou de ser entregue, pelos Correios, no seu local de trabalho.

Ao sair, ela chama um táxi, para poder transportar aquela grande caixa para casa.

Foi enviada pela mãe e pela irmã, que vivem longe e não estão consigo há meses por causa da pandemia.

Abre-a e delicia-se só de olhar. São várias refeições cozinhadas – aquelas comidas que ela mais gosta, em diferentes caixas bem acondicionadas. E tem ainda o seu bolo de laranja favorito, uma torta, queijo, marmelada… Também um jogo de lençóis térmicos, de que precisava. Ah, e um envelope branco. Abre, e dentro encontra uma nota de 10 euros, com a indicação de que é para pagar o táxi de que terá precisado para levar a encomenda para casa.

Aconteceu há dias com uma amiga minha e é uma daquelas recordações confortantes que irão ficar, deste tempo diferente e difícil.

E dou comigo a pensar: que memórias irão ficar deste tempo de confinamento? O que é que cada um de nós poderá fazer para criar boas recordações, apesar de tudo?

Numa altura de provação na vida de Paulo, em que esteve preso, não em casa por confinamento mas numa autêntica prisão por anunciar o evangelho, Onesíforo foi um sopro de ânimo e suporte. Escrevendo a Timóteo, Paulo lembra esse apoio tão confortante, e que aconteceu muitas vezes:

“O Senhor conceda misericórdia à casa de Onesíforo, porque muitas vezes me recreou, e não se envergonhou das minhas cadeias.” (II Timóteo 1:16)

Um provérbio antigo, lembra-nos que a angústia gera irmãos. Diz assim: “Em todo o tempo ama o amigo e para a hora da angústia nasce o irmão.” (Provérbios 17:17)

Neste tempo aflitivo no nosso país, e também por todo o mundo, marcado por ansiedade, tristeza, doença, luto, solidão, que possamos buscar de Deus recursos espirituais, afectivos, materiais e partilhar uns com os outros, no cumprimento do seu mandamento: “Amai-vos uns aos outros como eu vos amei.” (João 13:34) E que, no futuro, este ano possa ser lembrado como um tempo de grande união e entreajuda em que, por isso, nos tornámos mais fortes.

Bertina Coias Tomé
Psicóloga, Especialista em Psicologia Clínica e da Saúde e Psicologia Comunitária

Aviva-nos!

1052 699 Aliança Evangélica Portuguesa

Nos últimos quase 5 anos, tenho vivido numa casa com lareira. Sempre gostei imenso de ver uma lareira na sala, e mais ainda de sentir a sua companhia nos dias frios de Inverno. Contudo, durante todos estes anos nesta casa, apenas acendemos a lareira duas ou três vezes, e acabámos por desistir, pois revelou-se inútil nos seus propósitos.

Qual a utilidade de uma lareira apagada? Ela esteve sempre lá, imponente, ocupando um bom espaço da nossa sala, condicionando a decoração e a disposição dos móveis, mas apagada…

A razão de não usarmos esta lareira é óbvia: gastava imensa lenha e não aquecia o espaço, pois não tinha recuperador de calor. Colocávamos a lenha, e o fogo devorava a madeira antes que pudéssemos sentir o ambiente acolhedor do seu calor. Só nos aquecia se nos colocássemos quase dentro dela.

Bem, perante estas razões e aproveitando o facto de a casa estar a ser remodelada, decidimos destruir a lareira e colocar uma salamandra no seu lugar, aliás noutro lugar da sala, mais estratégico.

Durante quase 5 anos olhei para esta lareira, frustrada, porque, apesar de gostar de ter lareira, esta especificamente não me dava o que eu precisava. Algo que me podia ser muito útil, estava a ser um verdadeiro estorvo.

Dei comigo a pensar na lareira, e imediatamente veio um versículo à minha mente: “Aviva, Senhor a Tua obra, no decorrer dos anos…”. Encontra-se no livro do Profeta Habacuque 3:2. Quantas vezes tentámos acender a lareira e avivar o fogo de forma a que nos aquecesse, mas sem êxito. Sim, o fogo ateava e queimava a lenha muito rapidamente, mas não havia combustível que aguentasse um serão em família.

Sabemos que, na Palavra de Deus, o fogo é um símbolo do Espírito Santo. O Espírito Santo é uma Pessoa, é Deus, como o Pai e o Filho. E da mesma forma que uma lareira tem de ser bem construída para acolher e manter o fogo aceso durante várias horas de forma consistente, assim também nós fomos criados para acolher e manter aceso o fogo do Espírito Santos nas nossas vidas. De que serve sermos ateados esporadicamente, se logo o fogo se apaga por falta de combustível?

A oração do profeta revela um desejo ardente e urgente de ver em operação o trabalho de Deus na sua vida e na vida do seu povo, do povo que ele representava diante de Deus. Mas não um trabalho pontual, fugaz, limitado. O profeta desejava que algo mudasse de forma radical. Num mundo longe de Deus, desobediente à Suas Leis, ignorante da Sua misericórdia, Habacuque faz esta oração depois de ouvir da parte de Deus algumas declarações que o despertaram.

E o que isso tem a ver connosco? Muito! Tudo! Também eu me vejo a viver num mundo longe de Deus, tantas lareiras aparentemente úteis, mas apagadas. Mas há esperança. Podemos ser mais do que lareiras sem calor; podemos dar ouvidos ao Espírito Santo, o fogo de Deus que deseja arder em nós, tornar-nos úteis enquanto aquecemos outros, e o ambiente à nossa volta, não de forma pontual, mas de forma consistente; não de vez em quando, mas a cada dia.

Mas como fazer isto? O Espírito Santo habita em nós desde o dia em que convidamos Jesus, o Filho, para ser o nosso Senhor e Salvador, Aquele que nos pode perdoar os pecados. Depois é nutrir um relacionamento íntimo com Deus, o Pai. Passa por entregar-Lhe todas as áreas da nossa vida e ficarmos completamente rendidos a Ele. Aí, o Espírito Santo encontra liberdade para atear o Seu fogo em nós. Ao contrário de uma lareira, cuja lenha eventualmente acaba, o Espírito Santo jamais se extingue; o Seu poder é ilimitado. Primeiro, Ele transforma a nossa vida, queima o que não presta, e depois Ele aviva em nós a Sua obra, para que outros ao nosso redor sejam também ateados pelo seu fogo, pelo Seu poder!

E neste tempo de incertezas, e medos, que o fogo do Espírito Santo te dê coragem, ousadia e virtude para acenderes outras vidas com este calor de Deus. No ano de 2020 não pudemos, como igreja, levar a cabo as muitas atividades normais: conferências, retiros, cultos de avivamento… Eram momentos em que muitos eram cheios, avivados, as suas baterias recarregadas. Mas sem esses momentos, como manter o fogo do Espírito Santo em nós? Entramos na mesmice da rotina dos cultos, sem nada que nos ateie? Não! Este é o tempo de clamarmos a Deus: Aviva, Senhor a Tua Obra! Aviva o desejo de Te conhecer, ó Deus! Aviva o meu amor pelos outros, ó Deus! Aviva-me…

Afinal, a minha lareira teve uma utilidade: ela foi objeto desta parábola para me despertar e orar como Habacuque: “Aviva, Senhor a Tua Obra, do decorrer dos anos…”

Rute Lopes

Serve a Deus, com o seu marido, Pr. Samuel Lopes, na igreja Assembleia de Deus em Vila Chã.

Andanças

960 539 Aliança Evangélica Portuguesa

O sol é persistente e mesmo no rigor do inverno ele teima em brilhar. O mais típico nesta estação, pelo menos neste lado do mundo, é que as chuvas encharquem a terra, as nuvens carregadas escureçam o céu e o vento gelado seja uma constante. Contudo, neste ano, apesar do frio intenso, o sol continua a brilhar. As noites são enluaradas e as estrelas visíveis desenham no céu pontos de luz como para lembrar que há mais para além da paisagem que temos. Elas aproximam de nós o universo e nem se quer percebemos.

Ao pensar neste quadro desenhado não por mãos humanas, ou pelo fruto de um acaso qualquer, mas por um Deus soberano que reina e a quem amamos, rendo-me à confiança de que se o jardim é tão belo e perfeito, as nossas vidas são incomparavelmente mais preciosas em Suas mãos.

Ele nos fez mulheres e a nossa natureza vem em ciclos.

No princípio eram os lacinhos que enfeitavam o cabelo, o vestidinho rodado, os sapatinhos a combinar… Criança ainda, o nosso mundo era repleto de ilusões, emoções que iam nos moldando, transformando as nossas vidas, enquanto o corpo desajeitado ia mudando aos poucos, sem a gente perceber, porque afinal o sonho era crescer…

Até que, de repente, temos que lidar com a menina que somos num corpo que começa a sangrar, e se moldar… E a adolescência vem e traz muitas ondas com ela. Medos, inseguranças quanto ao futuro, paixões, e desejos entranhados que assustam, ao mesmo tempo que impulsionam e nos fazem fazer escolhas que nesta altura não sabemos, mas que podem marcar a nossa história para sempre…

Crescemos. E crescer envolve decisões, conflitos e emoções que vamos aprendendo a lidar, e a menina vai dando lugar à mulher, com todo o potencial para o qual foi criada. A juventude esbanja a sua alegria, através de um sorriso, de uma maquilhagem bem feita, de um cabelo arranjado, mas principalmente dos caminhos que escolhemos, dos sonhos que concretizamos, dos medos que vencemos… Aqui escolhemos a carreira, as amizades se solidificam, escolhemos o amado, entregamos o corpo, o coração e os anos que virão a alguém que se torna um connosco. Geramos filhos, dividimos os nossos corpos e as entranhas do nosso ser com alguém que vai encher a nossa vida, no princípio de choros, brincadeiras, gracinhas e risos… E para sempre de um vínculo de alma que nos faz perpetuar e testemunhar…

Outras não. Por opção, porque não deu, porque não foi como queria ou porque não era o caminho, escolhem andar sozinhas, são valorosas, apoiam, sustentam… Cheias de  graça, caminham, são plenas e vão…

E a maturidade vem. Com ela alguns cabelos brancos, a menopausa, a certeza de muitas conquistas e alguns sonhos deixados atrás, outros ainda por concretizar. O corpo não perde o vigor, mas pede calma, abranda, mostra que precisa de mais tempo…  O ninho começa a esvaziar-se, e é tempo de preencher espaços, renovar a esperança e continuar a caminhar. E a mulher arranja o cabelo, retoca a maquilhagem, escolhe um novo batom e vai…

Até que a velhice vem, com ela talvez a solidão, as saudades de um tempo que se foi, as lágrimas pelas perdas, pelas vitórias, pela vida… O sorriso cansado, os cabelos branquinhos e a face enrugada, como se nela estivesse desenhada a história de cada emoção.

Mas como a vida é uma caminhada, a estrada é longa, por vezes larga e cheia de encanto, outras estreita, cheia de obstáculos, repleta de atalhos que seduzem… Para muitas mulheres, cada ciclo da vida foi antes de mais um fardo, ao invés de encanto.  Quantas foram deixadas de lado, não conseguiram viver, foram maltratadas, abusadas, sofreram…

Porém, como o sol que teima em brilhar mesmo no rigor do inverno, Deus nos capacita a perseverar. Em alguma etapa deste nosso ciclo de vida, somos confrontadas com a melhor escolha que podemos fazer. Jesus, o Salvador, é Aquele que se propõe andar connosco, quer seja uma caminhada alegre ou nem por isso. Quer estejamos rodeadas por outros ou solitárias. Quer não entendamos as mudanças ou não saibamos caminhar… Ele anda connosco e nos ensina a servir, compreender e, principalmente, amar…

Ele ama, e porque podemos ter esta confiança, O abraçamos e vamos… e enquanto andamos lado a lado com Ele, oramos assim:

“Jesus, capacita-me a influenciar esta geração. Geração perdida em valores passageiros, efémeros e que não renovam a esperança.

Ensina-me a ser um exemplo ao gravar as verdades da Tua lei e andar com elas enquanto, eu falo, ando, olho e acompanho…

Ajuda-me a ouvir-Te sempre, de tal forma que a geração que aí vem saiba Te ouvir também e tenha coragem de seguir a Tua voz, mesmo que este mundo de tantos barulhos tente convencer que os seus sons são ideais e um alvo a alcançar.

Leva-me a confiar em Ti como o Pastor. E, mesmo em meio ao desespero de não saber para onde ir nem como dirigir, eu possa ter o privilégio de Te ver amparar, acudir e proteger esta geração perdida. Filhos gerados do ventre, dos relacionamentos, da vida, mas que precisam de Ti.

Capacita-me a escolher-Te a Ti, ó REI. E que através da minha escolha eu possa ser exemplo para aqueles que aqui estão e para os que virão. E que possa pagar o preço desta Esperança que transcende e vai além do bem estar tão esperado, mas que é eterno a partir de agora e vai além, muito além do temporal.

Jesus, obrigada por me trazer de volta a esperança. E que nessas andanças eu possa brilhar o Teu brilho, cantar o Teu canto e acreditar a cada dia que só em Ti há solução. Que eu saiba mostrar ao mundo que anda tão confuso que Tu não és religião, mas amizade, companhia e direcção… o melhor Caminho, o único Deus e a Vida que andamos à procura…

Arlete Castro

Escritora

Mestre em Intervenção Terapêutica

PORQUE FICAMOS DEPRIMIDOS NO NATAL?

960 640 Aliança Evangélica Portuguesa

“Por causa das ternas misericórdias de nosso Deus, do alto nos visitará o sol nascente para brilhar sobre aqueles que estão vivendo nas trevas e na sombra da morte, e guiar nossos pés no caminho da paz.” Lucas 1:78,79

O Natal é tradicionalmente um período de muita euforia. As cidades ficam decoradas, as lojas enfeitam as suas vitrines, as férias estão chegando. Fala-se em presentes, ceias, festas de fim de ano, viagens. Neste ano de 2020, muitos destes planos serão frustrados pela pandemia. De qualquer forma, é justamente neste contexto festivo que muitas pessoas experimentam uma profunda tristeza podendo até desembocar em depressão. A alegria um tanto artificial do ambiente torna ainda mais aguda a sensação de desajuste e inadequação que muitos carregam no peito. Estar triste no meio de tanta euforia reforça o sentimento de inadequação e rejeição. A solidão acentua-se mais. Há três motivos principais para este fenómeno tão paradoxal.

Em primeiro lugar, Natal é uma festa de família que evoca em nós lembranças ambivalentes. Os acontecimentos positivos que marcaram a nossa infância neste período festivo geram em nós uma saudade do tempo que passou. A família espalhou-se, alguns morreram, outros desentenderam-se. A dor da perda faz-se presente e envolve-nos. Gostaríamos de poder voltar atrás e reviver aqueles momentos tão deleitosos. A magia do Natal, vista pelos olhos da criança, desvaneceu-se. O sonho acabou! Neste momento, podemos escolher entre dois caminhos: um caminho de vida ao usufruir destes tesouros do passado que abrigamos em nós, ou um caminho de morte ao remoer as perdas e focalizar as faltas. A expectativa de festas familiares harmoniosas é reforçada pelos meios de comunicação e só serve para ressaltar os desajustes existentes na maioria das famílias. Cada família em particular parece destoar do mito alimentado por todos, e as suas mazelas aparecem de forma mais acentuada. A comparação da família real e imperfeita com o ideal apregoado despeja em cada coração um sentimento de frustração e vergonha. Em vez de aproveitar esta constatação para promover reencontros e reconciliações, muitos se entreguem ao desânimo e à murmuração. É fácil cair na armadilha de se considerar vítima de pessoas ingratas em vez de perceber que as relações familiares são o que fizemos delas e que somos responsáveis pelos desentendimentos não resolvidos. A depressão é alimentada pela autocomiseração enquanto uma atitude construtiva poderia mobilizar os recursos existentes em cada família para promover uma aproximação e uma maior qualidade relacional entre os seus membros.

Em segundo lugar, o Natal anuncia o fim do ano. O reveillon é também acompanhado de festejos um tanto exacerbados, como se o ser humano quisesse encobrir com músicas barulhentas os lamentos do seu coração. A quantidade de superstições e simpatias, próprias desta época, revela o sentimento de insegurança que se quer abafar. A euforia proporcionada pelo champagne tenta se sobrepor à angústia diante da nossa finitude. A contagem simbólica de mais um ano que passou nos remete à nossa própria morte. Somos obrigados a encarar uma realidade da qual tentamos fugir desesperadamente. Queremos viver como se fôssemos imortais. Escondemos os pacientes terminais em UTI e negamos todos os sinais de envelhecimento. Corremos atrás do tempo enchendo a nossa agenda de atividades que nos mantém ocupados para não sentir o dia passar.

Em vez de maquilhar as nossas emoções através de mecanismos de defesa que desencadeiam a depressão ou diversas somatizações, deveríamos aproveitar esta crise para fazer um balanço do ano que passou e traçar novos planos para o ano que se inicia.  Para isso, precisamos de silêncio, de quietude interior, de honestidade e aceitação. A verdade só pode ser encarada diante de um olhar compreensivo. A verdade sem amor é devastadora enquanto que a verdade com amor liberta. Quando Jesus disse: “conhecereis a verdade e a verdade vós libertará”, Ele não estava apenas a falar de Si mesmo mas também da verdade acerca de nós mesmos. Para aprender com os nossos erros e corrigi-los, devemos primeiro reconhecê-los. Avaliar o ano que passou é também a oportunidade de desenvolver um espírito de gratidão por todas as manifestações do amor de Deus em nossas vidas. É tempo de celebrar as realizações, os frutos, os presentes que desembrulhamos ao longo do ano. Assim como Deus parou no sétimo dia para desfrutar da sua criação, nós também somos chamados a parar e a honrar a Deus valorizando o que conquistámos graças a Ele.

Finalmente, e principalmente, Natal é o aniversário do nascimento de Jesus, Emanuel, “Deus conosco”. Esta comemoração reabre a ferida provocada pela queda e reaviva a saudade do paraíso. Deus precisou de enviar o Seu filho para nos abrir o caminho da reconciliação com Ele. Este amor constrange-nos e coloca-nos frente a frente com a nossa rebeldia e ingratidão. Reconhecer a nossa desobediência é um processo sofrido. O amor de Deus só alcança os corações quebrantados e receptivos a Ele. Receber essa demonstração de carinho incondicional e imerecido não é fácil. Queremos garantir-nos através de boas ações e somos desarmados pela criança na manjedoura. O despojamento de Deus contrasta com a nossa ambição. Enquanto Deus abre mão da Sua glória para se fazer como o mais humilde dos homens, nós aspiramos o sucesso e o poder. O caminho escolhido por Jesus é estreito. Seguí-l’O significa abrir mão das nossas aspirações megalomaníacas, requer despojamento e humildade.

Ao identificar a nossa sombra, podemos, como Judas, deixar-nos corroer pelo remorso e iniciar um processo de autodestruição como forma de autopunição. Ou então podemos, como Pedro, lançar-nos aos pés do Senhor para adorá-lo e clamar pelo seu perdão. Mais uma vez, estamos diante de uma encruzilhada onde devemos escolher entre a morte e a vida. A depressão é um caminho de morte lenta que revela a falta de perdão. Muitas vezes nos sentimos incapazes de sair sozinhos desse abismo onde nos mesmos nos enfiámos. Davi experimentou esse drama e expressou esse sentimento de impotência, mas ele testemunhou também a sua libertação. No Salmo 40:1 e 2, ele declara que, ao clamar por socorro e esperar em Deus, foi tirado de um poço de perdição e colocado em pé sobre uma rocha. O socorro pode vir através de alguém. Você pode ter que recorrer à terapia ou até a medicação para sair da crise mas cabe a si escolher entre afundar-se na depressão ou aproveitar a crise para crescer, amadurecer e traçar novos objetivos para sua vida.    

Isabelle Ludovico

Psicóloga clínica

isabelle@ludovicosilva.com.br    

ALIMENTAÇÃO E CONFINAMENTO

626 417 Aliança Evangélica Portuguesa

Como seria se pudesse manter um corpo saudável durante o confinamento?

Neste período delicado de isolamento social, muitas pessoas aproveitaram para comer melhor e pensar mais na saúde. Por outro lado, no confinamento geram-se também momentos aborrecidos e episódios de ansiedade, o que por vezes nos leva a comer mais e de forma menos saudável.

De acordo com um estudo da Direção-Geral da Saúde (DGS), realizado em parceria com o Instituto de Saúde Ambiental da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, denominado REACT-COVID, cerca de 45% dos inquiridos indica ter mudado hábitos alimentares, com quase 42% a admitirem ter sido para pior.

É um fato que a pandemia mudou a nossa vida e a nossa rotina, inclusive alimentar. O frigorífico próximo com comida sempre ao alcance e os horários irregulares de trabalho, são convites para uma alimentação mais desregrada, mas não precisa de ser assim.

Aqui estão 7 sugestões que podem ajudar a estarmos em paz com a comida e com o nosso corpo durante o confinamento. Podem ser inseridas na sua vida aos poucos, sempre respeitando o seu próprio tempo.

1 . Crie uma rotina que respeite o seu corpo

Os horários podem ser diferentes com a pandemia, mas mesmo assim é importante que se tenha uma rotina alimentar. As nossas células funcionam em ciclos (dia/noite, jejum/comida, acordar/dormir) e precisamos de respeitar esses ciclos para que o nosso sistema de defesa funcione bem e faça os reparos necessários a cada dia. Adaptar a sua rotina alimentar aos seus novos horários durante o confinamento é essencial para promover a sua saúde.

2. Não faça dietas puramente restritivas

Este tipo de dieta desequilibrada pode aumentar o seu stress, criando um ciclo vicioso que pode levar ao ganho de peso futuro e à compulsão alimentar. Crie hábitos alimentares saudáveis e não uma lista de restrições.

3. Cozinhe mais alimentos frescos de forma prática.

Talvez seja a hora de aprender a cozinhar alimentos saudáveis, frescos de uma maneira prática e que funcione para si. Eu entendo que pode ser difícil “engolir” isso, mas acreditem que cozinhar não precisa de ser uma tarefa chata. Precisamos de reaprender a gostar dos alimentos como eles são e a vê-los como uma dádiva. Existem várias maneiras de simplificar a preparação dos alimentos e mantê-los saborosos. Planear as refeições com antecedência ou cozinhar a dobrar e em seguida congelar uma parte, são alguns exemplos que podem ajudar a facilitar o dia-a-dia na cozinha. Tenha em mente esta verdade: para comer bem é preciso cozinhar de forma prática, não se iluda. Abrace este desafio.

4. Reconhece e acolhe o comer emocional.

Já ouviu algo assim: “A verdade vos libertará”? Pois é. As emoções são parte da vida e controlá-las racionalmente não costuma ser um caminho eficaz. É preciso saber geri-las. Negá-las racionalmente não vai funcionar a longo prazo. É verdade que muitas vezes comemos para nos sentirmos mais felizes e faz parte. Porém, existem outras coisas que podem ajudar-nos a sentirmo-nos melhores e cada pessoa pode descobrir a sua maneira de auto-cuidar-se.

Seja verdadeiro(a) consigo mesmo(a). Admita a sua dificuldade em gerir a raiva, a frustração, a indisciplina. Reconhecer vai ajudar-lo(a) a achar soluções, a procurar ajuda e a encontrar uma vida cheia de emoções e sentimentos com mais bem-estar.

5. Atividade física

O exercício físico liberta algumas substâncias ligadas ao nosso bem estar que são chamadas  endorfinas. Numa situação de isolamento social, o nosso bem-estar é algo que é muito bem-vindo, principalmente nos dias em que não nos apetece treinar. Geralmente, esses são os dias em que mais precisamos de gerar bem-estar na nossa vida. Procure uma atividade física que possa fazer regularmente, mesmo que mude o tipo de atividade de tempos em tempos.

6. Dormir ajuda a ter um corpo saudável

Dormir cerca de 6 a 8 horas ajuda a controlar o apetite. Quando dormimos pouco, produzimos mais grelina, que é uma hormona responsável pela sensação de fome. Além disso, quando dormimos bem, produzimos mais leptina, que ajuda a aumentar a nossa saciedade. Assim, uma boa noite de sono ajuda-nos a sentirmos menos fome durante o dia e também a estarmos mais satisfeitos(as) com o tamanho das doses que consumimos durante as refeições.

7. É sede ou fome?

Já senti fome pouco tempo depois de ter feito uma refeição e ter saído da mesa satisfeito? Isso não tem a ver com gula nem com compulsão alimentar, e acontece por uma confusão do hipotálamo, a zona do cérebro responsável por controlar algumas funções orgânicas e sensações relacionadas à fome/saciedade. As sensações de sede e de fome podem provocar essa desordem no hipotálamo pelo facto de que uma das maneiras de o organismo conseguir água é através dos alimentos (que contêm água). Desse modo, o cérebro confunde os impulsos de sede e fome, como se precisasse comer para saciar a sede.

O ideal é que tenha o hábito de beber água mesmo sem sentir sede, pois a sede já é um sinal de que o corpo está desidratado. E, se sentir fome pouco tempo após alimentar-se, tome um copo de água e espere alguns minutos antes de comer novamente.

Segundo a Organização Mundial da Saúde, a alimentação é uma das ferramentas mais eficazes e disponíveis para promover a saúde. Os alimentos não servem apenas para nos fornecer energia e levar-nos a engordar ou a emagrecer. Eles possuem nutrientes que regulam o sistema de defesa, a produção de hormonas e que podem inclusive modular a expressão de genes associados a doenças como a obesidade, o cancro, o diabetes tipo 2 e as doenças inflamatórias intestinais.

Assim, vamos olhar para a alimentação como uma aliada e não como algo que “temos que fazer” para ter saúde durante o confinamento. Essa atitude de reconhecimento e de acolhimento traz mais leveza ao dia-a-dia e ajuda-nos a melhorar o nosso comportamento alimentar.

Para mais informações, consulte o relatório “REACT-COVID: Inquérito sobre alimentação e atividade física em contexto de contenção social“.

Patricia França

@patriciafranca.nutri

Mestre em Nutrição e Health Coach

O molotov, eu e Deus!

660 490 Aliança Evangélica Portuguesa

Um dia quis fazer um pudim molotov e pedi a receita a uma amiga. Ela disse-me que não era fácil de fazer porque implicava seguir à risca um processo e se, em algum dos momentos, tal não acontecesse, eu não conseguiria fazê-lo! Requeria, sobretudo, tempo e paciência! E também me disse para não desistir, mesmo se desabasse porque isso em algum momento poderia acontecer, pois nem sempre a receita é seguida e é preciso muita experiência para se fazer um bom molotov!

Pensei para mim mesma que afinal o molotov era como tudo o resto na vida! Um processo

que requer tempo, dedicação, empenho, disponibilidade e paciência!

A primeira coisa que uma pessoa quer saber quando tem em mãos um processo judicial é quanto tempo é que ele vai demorar e a resposta é sempre a mesma: não sabemos! Porque há coisas que não se sabe quanto tempo irão levar. Precisamos de ter paciência e esperar.

Já David, no Salmo 40, nos diz que esperou com paciência no Senhor até que Ele se inclinou e ouviu o seu clamor! Nem tudo pode ser aqui e agora! It takes time!

Vivemos na era do instantâneo, do ultra rápido! Tudo para que o tempo seja aproveitado ao mais ínfimo detalhe, mas nem sempre as coisas são assim, às vezes não correm bem à primeira e é nessas alturas que temos que ver Deus no processo!

O melhor que podemos desfrutar na vida requer tempo: contemplar o mar, fazer uma viagem, degustar uma boa refeição com amigos e família, não é algo instantâneo. Há até um provérbio popular que nos diz que “depressa e bem não há quem”!

Em Marcos 8:22 e seguintes, temos relatado um episódio de cura que, ao contrário de tantas outras, não foi instantânea e, aparentemente, não foi bem-sucedida à primeira! Estranho? Talvez! Curioso? Muito! Este episódio de cura parece ter várias fases.

Começou logo por trazerem o cego a Jesus. Ele está no início porque quer que nós nos cheguemos a Ele. Está à espera que sejamos nós a dar o primeiro passo porque Ele não se impõe. Ele deseja estar connosco se nós assim o desejarmos. E quando nós queremos, Ele entra no processo. Tudo começa quando Jesus entra no processo da nossa vida. Contudo, para permitirmos que Ele entre, temos que abrir mão do controlo da nossa vida e confiar Nele!

Esta é sempre a parte mais difícil de se fazer! Confiar! Quando pensamos em confiança vêm-me logo à mente as dinâmicas relacionadas com este tema nas formações ministradas sobre vários temas! A dinâmica de nós termos que nos lançar de costas confiando que nos irão agarrar! Contudo, na dinâmica as coisas correm sempre bem porque vemos que os nossos colegas estão atrás de nós e estão preparados para nos agarrar e aí torna-se mais fácil confiar! Contudo, na nossa vida nem sempre vemos alguém atrás de nós para nos segurar e isso causa medo e inquietação!

No entanto, Jesus está lá sempre, é preciso ter fé e confiar! Então quando nós vamos até Jesus, Ele entra no processo da nossa vida, mas não fica por aqui. Numa segunda fase, Jesus envolve-se no processo da nossa vida e muitas vezes Ele faz isso usando métodos pouco ortodoxos, tal como o fez com o homem cego, em que colocou saliva nos seus olhos e lhe perguntou o que é que ele via! Aqui foi necessário o homem cego também se envolver no processo e estar predisposto a aceitar uma abordagem diferente, um método inovador, estranho, mas ele quis! É importante que estejamos receptivos àquilo que Deus quer fazer nas nossas vidas ainda que envolva uma nova e diferente abordagem!

Face à resposta do homem cego, parece que as coisas não correram lá muito bem porque ele via os homens como árvores que andavam! Às vezes, parece que as coisas não ficam logo resolvidas à primeira na nossa vida! Contudo, independentemente de procurar saber os porquês devemos estar envolvidos no processo e aguardar o seu fim e não sermos precipitados abandonando o processo antes de estar concluído. Se aquele homem tivesse desistido do processo a meio teria ficado melhor do que estava inicialmente, porque pelo menos nesta fase já via qualquer coisa, mas pior do que poderia ficar no fim do processo.

A Bíblia fala de um outro homem que passou por um processo que não foi instantâneo: Naamã! O processo de Naamã até parecia ser bastante simples para outros mas não para ele. Ter que mergulhar 7 vezes no rio Jordão que, segundo o parecer dele, era um rio sujo comparado com outros rios? E 7 vezes, ainda por cima? Não poderia ser apenas uma?

Isto leva-nos a pensar que um processo não tem que decorrer da forma como nós idealizamos mas sim da maneira que Deus quer. Se Lhe damos o controlo então temos que confiar que Ele tem o melhor para nós!

E, voltando ao episódio do homem cego, como Jesus ainda não tinha terminado Ele volta a colocar as mãos no homem cego e só à segunda tentativa a situação fica resolvida! Parece que Jesus não fez alguma coisa bem à primeira! Eu creio que até esta abordagem foi uma forma de nos mostrar que tudo é um processo e que Deus está em todas as fases desse mesmo processo!

Numa terceira fase ele toca novamente no homem cego. Ele envolve-se no processo. Fica a fazer parte dele. Quer estar presente, quer saber o resultado. Jesus nunca desiste. Ele fica até ao fim do processo! “E agora o que é que vês?” Agora, sim, o homem que era cego já via!

Ele é o primeiro a chegar e fica à nossa espera e o último a partir. Ele é o alfa e o ómega! O princípio e o fim! O primeiro e o derradeiro!

Jesus quer fazer parte do processo da nossa vida! Se Ele estiver convosco do princípio até ao fim teremos a certeza de que tudo correrá bem mas se, em algum momento, o colocarmos fora do nosso processo, da nossa vida também temos a certeza de que, tal como o molotov, a nossa vida irá desabar, sem dúvida alguma.

Coloca Deus em tudo o que fizeres e encontra-l’O-ás em tudo o que te acontece!

 

Sara Ramalho Pereira

Advogada

NO TEMPO CERTO…

2560 1536 Aliança Evangélica Portuguesa

Escreve o sábio no livro de Eclesiastes (3:1,2): “Tudo tem o seu tempo determinado e há tempo para todo o propósito debaixo do céu. Há tempo de nascer e tempo de morrer; tempo de plantar e tempo de arrancar o que se plantou…”

Estou, neste momento, debaixo de um castanheiro. É Outubro e os ouriços começaram a abrir, libertando o seu fruto para a terra. Há dias que andamos a apanhar castanhas e, este ano, são boas! Não posso deixar de pensar no ciclo anual destes castanheiros. Os da Quinta da Bela-Vista têm dezenas de anos e não passam despercebidos. São, como aliás as outras árvores de fruto também, um bom lembrete das estações da nossa própria vida.

Há tantas lições que podemos tirar da natureza. O Salmo 19 recorda-nos que Deus se revela a nós através da Sua Criação, bem como da Sua Palavra. Acredito que, tal como quando meditamos nas Escrituras, se estivermos atentos aos ritmos próprios do mundo natural, conheceremos melhor a vontade de Deus para as nossas vidas.

No entanto, aquilo que me apanhou enquanto eu apanhava mãos cheias de castanhas, foi algo particular. É que se eu tivesse querido “colhê-las” há uns meses, teria ficado bem frustrada. As árvores até poderiam estar cheias de folhagem – ótimas para fazermos um piquenique à sua sombra – mas não se encontraria nenhuma castanha. Se eu tivesse tentado arrancá-las há umas semanas, quando as comecei a vislumbrar dentro dos ouriços, ter-me-ia picado toda. Mesmo que conseguisse tirar uma ou outra, elas não estariam ainda amadurecidas e não teriam valor.

Hoje, de joelhos no chão, eu apanho castanhas em quantidade. Estão sempre a cair e eu só tenho de estender o braço para alcançar mais algumas. É o tempo certo, o tempo determinado para a castanha. É o tempo da colheita e, como estas árvores já têm uma certa idade e os seus ramos se estendem em todas as direções, a colheita é abundante. Graças a ela, muitos se saciarão.

Não sou bióloga e, portanto, não devo arriscar muito na comparação. Contudo, daquilo que vou observando, entre uma colheita e outra há todo um tempo, um curso, um crescendo. Em breve, as folhas mudarão de cor e logo começarão a cair até que o castanheiro fique completamente despido. Parecerá mais vulnerável mas, na realidade, está cheio de reservas. É por isso que no inverno a árvore consegue fazer face a uma boa poda. E a poda vai ajudar a eliminar os ramos doentes ou infrutíferos, vai deixar que a luz e o ar entrem no interior da copa e vai potenciar o vigor da planta. A poda é sempre dolorosa, implica corte, separação… Mas é tão necessária para que haja fruto na estação própria. E, efetivamente, esta aparente hibernação da árvore, nua e amputada, é sempre prelúdio para uma época de crescimento, de florescimento e de amadurecimento.

Como mulheres deste milénio, sentimos que temos que estar sempre em modo de produção, não é? Temos que estar sempre a dar fruto, se não no lar, no emprego ou noutras atividades em que nos metemos (ou nos metem a nós). O tempo passa a correr e parece que nenhuma estação da nossa vida é dedicada apenas a uma coisa. Somos mulheres e até nos orgulhamos de sermos multitasking (capazes de fazer várias tarefas ao mesmo tempo).

Não tenho dúvidas acerca da nossa capacidade sobre-natural. Vejo à minha volta tantos exemplos de coragem, força e resiliência verdadeiramente inspiradores de mulheres comuns, que todos os dias vão à luta apesar de circunstâncias adversas; que se desdobram para que não falte nada aos seus; que talvez andem de joelhos em casa, mas que quando saem pela porta fora, caminham erguidas.

A vida também é feita de momentos menos bons, tempos de luto, de choro, de ausência de abraços, de perda (Ecles. 3:2-8); tempos como o que vivemos hoje. Mas saibamos reconhecer que também esses não são tempos perdidos ou estéreis. Nas podas, até o que é deitado fora pode servir para nutrir a terra e a tornar mais rica. O que cada uma de nós deve procurar responder é: Quem sou eu realmente? Onde tenho firmado as minhas raízes? Em que estação da vida estou? Que frutos posso eu oferecer?

É saudável que levantemos o pé do acelerador, de vez em quando, e abrandemos.  É crucial que encontremos espaço nas nossas vidas para nos aquietarmos. Desligarmos o nosso modo automático (e outras coisas talvez) e pararmos para refletir. Temos de cuidar de nós e, quem sabe, deixar que de nós cuidem também. O nosso Pai, melhor que ninguém, sabe como fazê-lo. Curiosamente, Jesus identificou-O como um agricultor, que nutre, que corta, que poda, que dá o crescimento. E a Si próprio como a videira, na qual nós temos de permanecer para dar fruto (Jo. 15:1ss).

Sabem que mais? Ao contrário do que se diz por aí, não temos de viver como se só tivéssemos esta vida. Como nos diz o autor do Eclesiastes, depois de ter afirmado que há um tempo certo e bom para quase tudo, “Deus pôs a eternidade no coração dos homens” (3:11). Devemos pois aprender a viver da perspetiva da eternidade e não com a urgência de quem só tem esta vida. Acredito que à medida que vamos vivendo dessa forma, vamos tendo mais tempo. Com o calendário da eternidade em mente, vamos apreciando melhor cada momento e cada estação na nossa vida e na vida dos outros. Deixamos de estar ansiosas, querendo passar o mais rapidamente para a fase ou para o patamar seguinte do nosso percurso pessoal ou profissional. Ficamos mais atentas à obra de Deus nas nossas vidas.

Na realidade, se como diz Paulo aos Filipenses, Deus aperfeiçoará a obra que em nós começou, então podemos descansar da nossa busca incessante de produtividade e perfeição. No que me toca, é bom saber que tenho a eternidade para me realizar e completar enquanto pessoa. Se fosse um alvo para esta vida apenas, estaria já muito atrasada…

Vem aí o inverno e os nossos castanheiros vão passar vários meses despidos. Ninguém espera que deem fruto ou sombra sequer. Por ora, basta que permaneçam bem enraizados na terra e com seus ramos estendidos para o céu.

 

Marta Pego e Pinto

Missionária de Agape Portugal. Vive com a família n’O Refúgio, Penafiel.

Depois do divórcio

960 640 Aliança Evangélica Portuguesa

Não foi o que desejou. Não fez parte dos seus alvos ou anseios. Contudo, o divórcio aconteceu. E essa é agora a realidade, por sua iniciativa ou vendo-se na necessidade de viver a decisão do seu ex-cônjuge, uma vez que para acontecer um casamento são precisas duas pessoas mas para acontecer um divórcio basta uma querer. E agora há que saber lidar com essa ruptura e com o início de uma nova etapa na vida.

Desgaste pessoal

O divórcio acaba por ser o culminar de um processo, formalizando um afastamento que foi sendo gradual, ao longo do tempo. Assim, habitualmente chega-se ao divórcio com algum (muito) desgaste e fadiga pessoal, de meses ou anos semeados de mal-entendidos, conflitos, uma comunicação frágil ou mesmo marcada por momentos de aspereza ou agressividade. Sentir cansaço e tristeza é normal pois representa sempre uma perda. Dê a si mesmo(a) o tempo para fazer o “luto” por um projecto afectivo que “morreu”.

Momentos com Deus

Agora, precisa de ver restaurada a sua estabilidade emocional e afectiva. Nesta fase, é natural haver muito ruído em torno de si (informações, opiniões e conselhos que poderão chegar a ser até contraditórios). Ofereça a si próprio(a) momentos de silêncio sereno, introspecção, oração e leitura a sós, buscando de Deus tudo o que Ele tenha para si. Ainda que se sinta um tanto perdido(a), sem conseguir discernir com clareza o caminho a seguir, procure essa proximidade com Ele. Da mesma forma como o pastor leva aos ombros a ovelha perdida, conduzindo-a ao lugar certo, Deus quer dar direcção aos seus passos, oferecendo-lhe o suporte de que precisa. Abra o seu íntimo à paz e ao conforto de Deus, sem oferecer resistência à Sua voz. Essa intimidade com Deus representa ensino e cura que agora lhe são essenciais.

A moldura humana

Contudo, não se entregue a um isolamento demasiado. Faça-se rodear de pessoas que o(a) amam profunda e incondicionalmente: familiares, amigos, crentes. Esse colo afectivo pode representar um apoio revigorante. Precisa muito de esse sentido de apego, de pertença e de valorização pessoal para prosseguir com a vida. E um olhar acolhedor, um ouvido atento, uma palavra sábia são preciosas expressões do amor de Deus, usando outros em seu favor.

A atitude

A Bíblia diz que a nossa vida pode ser contaminada pelas palavras que proferimos. Não deixe que a decepção sofrida faça de si uma pessoa amarga ou que faça das suas conversas um derramar constante de acusações e dor ao longo do tempo. Afinal, ninguém tem o direito de fazer de nós pessoas desagradáveis, a menos que nós o permitamos. De facto, esse mastigar contínuo de revolta e, até por vezes, algum desejo de vingança, não provém de Deus e criará uma atmosfera pessoal em si que não deixará espaço para o mover Dele na sua vida. Deixe que Deus lhe devolva a paz e as palavras saudáveis que Ele sabe dar, mesmo no meio da aflição.

Com a ajuda Dele, procure desenvolver em si uma atitude de respeito pela pessoa que saiu da sua vida, tendo presente que “cada um dará conta de si mesmo a Deus.” Afinal, um dos grandes desafios como cristãos é entender que não devemos encarar ou tratar os outros por aquilo que eles são mas por quem Deus é em nós.

Uma nova etapa

Mesmo que, em certos momentos, pareça ter-se sentido num beco ou num labirinto confuso, a verdade é que existe um caminho, ainda que não o veja com clareza. Sim, diante de si está um caminho a ser percorrido, com um sabor a novo. Vamos adiante? Li um princípio que faz sentido lembrar, a este propósito: “A diferença entre um turista e um peregrino é que o turista quer ver coisas novas e o peregrino quer tornar-se novo.” (Thomas Bucher, Secretário-Geral da Aliança Evangélica Europeia)

Nesse sentido, já todos fomos turistas e peregrinos. Agora numa etapa diferente da sua vida, poderá dar por si na tal procura de “coisas novas”, que serão úteis e que constituem alguma forma de refrigério para si. Contudo, assuma também um desafio maior, o do peregrino: tornar-se novo. Deixe que as recordações inúteis sejam limpas do seu íntimo, permitindo criar um espaço arejado, perfumado, onde Deus habita, onde novas amizades e oportunidades são acolhidas com gosto. Deixe que o perdão renove em si a esperança e a alegria de viver.

Bertina Coias Tomé
Psicóloga, Especialista em Psicologia Clínica e da Saúde e Psicologia Comunitária

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