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Mulheres

Não Deixes De Agir! – Marta Correia

960 720 Aliança Evangélica Portuguesa

Já te aconteceu ires a uma loja e, quando chegas a casa, vês que te enganaram no troco? Como é que te sentiste? Enganada? Defraudada? Roubada?

Ainda no outro dia, paguei o bilhete do autocarro para ir de uma cidade para outra, aqui no Gana, e o senhor disse para eu me sentar que já me dava o troco. O autocarro saiu e, apesar de me terem dito que me iam dar o troco, não me deram. O motorista disse-me que ele não era responsável e, como um vidro que se despedaça… Senti-me roubada, defraudada, enganada.

Um amigo conduzia um carro num dos países africanos onde o abuso policial é uma realidade. Ainda que ele não fosse a conduzir a mais de 40km/h, a fotografia claramente editada pela polícia mostrava uma velocidade superior a 75km/h! Que injustiça!

Noutro país africano, uma menina é violada no meio da rua. Não obstante o facto de ter sido apresentada queixa, a polícia diz que não pode fazer nada porque não tem dinheiro para o combustível. No entanto, a casa onde o crime ocorreu encontra-se a apenas 50 metros de distância. Consegues entender a frustração desta menina, dos seus pais?

As estatísticas da Organização Mundial de Trabalho indicam haver mais de 40 milhões de pessoas em situação de exploração ou escravatura moderna.

Já imaginaste quão roubadas, defraudadas, enganadas, injustiçadas, frustradas essas pessoas se devem estar a sentir? Muitas delas encontram-se em completa escuridão, violadas, roubadas da dignidade humana, em cativeiro, algemadas e privadas de liberdade, forçadas a trabalhar de sol a sol sem salário ou a satisfazer mais de 30 homens por noite… E acontece à nossa volta.

Qual é, então, o nosso papel, a nossa responsabilidade perante tal opressão? Perante tamanha injustiça?

No tear das nossas vidas, o Artesão fia cada momento da nossa história através do encontro dos fios horizontais e verticais. Se os fios horizontais são as nossas características pessoais, já os fios verticais são as características de Deus: compaixão, bondade, fidelidade, graça, justiça, entre outras.

Se retirarmos um dos fios verticais, por exemplo a justiça, o tecido vai ficar imperfeito. Da mesma forma, a nossa vida ficaria imperfeita sem justiça para connosco e para os outros à nossa volta.

Quando pensamos em pobreza, rapidamente pensamos em fome, doenças, sem-abrigo, analfabetismo, água suja e falta de educação, mas apenas uma minoria iria relacionar pobreza com violência sexual, trabalho forçado, detenção ilegal, roubo de terras, agressão, abuso policial e opressão a que os mais pobres estão sujeitos.

Conheci a Elsa* num abrigo de crianças. Ela foi vendida pelo pai quando tinha 4 anos e resgatada dos seus traficantes após mais de 10 anos de abusos. Quando, em tribunal e perante os seus opressores a Elsa teve que relatar o que lhe tinha sucedido, o advogado de defesa alegava que ela estava a mentir. Foi assim que, aquela menina, com lágrimas a correrem pela face e de pulso cerrado (onde guardava uma pequena moeda), corajosamente ergueu a sua voz e respondeu ao juiz que estava a dizer a verdade.

Estivemos ao seu lado durante todo este processo por forma a restaurar o seu tear, especialmente o fio da justiça e esperança de restauração de uma vida quebrantada.

Continuamos a lutar para que a sentença contra os transgressores seja pesada e sirva de exemplo para deter outros na mesma comunidade de cometerem crimes idênticos.

Estudos confirmam que a maioria das pessoas pobres vive fora da proteção da lei. De facto, os sistemas de justiça no mundo em desenvolvimento tornam os pobres mais pobres e menos seguros. É como se o mundo de repente descobrisse que os hospitais tornam as pessoas pobres mais doentes.

“O desafio é ver a violência pelo que é e acabar com a impunidade que permite que continue a ocorrer.” Gary Haugen, fundador do International Justice Mission

Num país em desenvolvimento, é comum ter que lutar com maior avidez quando se é pobre, porque os pobres raramente têm acesso à justiça se não pagarem à polícia, aos tribunais, entre outros.

Qual é a nossa responsabilidade perante tal situação? Encontrei a resposta na Bíblia, em Provérbios 31:8-9: “Ergue a voz e julga com justiça; defende os direitos dos pobres e dos necessitados”.

Ainda que a violência contra os mais pobres, ainda que mais proeminente nos países em desenvolvimento, não obsta que a mesma possa estar a acontecer na casa do teu vizinho, no rio Tejo com os apanhadores de amêijoa, no semáforo da tua rua onde crianças te imploram uma moeda, na internet onde a criança raptada das praias do algarve está a ser explorada sexualmente na “darkweb”, numa rua onde a prostituta (uma menina recrutada para trabalhar num restaurante) viu os seus sonhos despedaçados quando lhe disseram que precisava de vender o corpo para recuperar a sua liberdade…

Se fechares os teus olhos, será que te consegues abstrair destes abusos?

Nunca é tarde demais! Abre os teus olhos e age. Pergunta à pessoa se precisa de ajuda, chama a polícia e certifica-te de que a polícia actua, investe o teu tempo… Porque a arma mais forte que os traficantes e os abusadores têm é o nosso silêncio.

Certa vez um homem foi convidado para ir a um banquete. Tinha de levar vinho de palma (uma espécie de vinho que parece água) mas, como não tinha dinheiro para comprar vinho de palma, pensou que ninguém notaria se ele levasse água em vez de vinho de palma. Quando juntaram todo o vinho de palma que todos tinham levado e começaram a servir o vinho de palma, sabia a água… Todos tinham levado água a contar que o vizinho ia levar o vinho de palma e que aquela pequena garrafa de água não iria fazer diferença.

Tal como no convite para o banquete, tu és convidado a agir com justiça. A tua “pequena garrafa de água” vai fazer toda a diferença. Os teus donativos, as tuas orações, a tua colaboração com associações de apoio à vítima, com organizações internacionais na luta contra o tráfico como o International Justice Mission, A21 ou Operation Mobilization, entre outras, pode fazer a diferença.

 

Na minha experiência profissional, enquanto advogada na luta contra o tráfico humano, tenho visto que posso alterar o rumo de injustiça na vida de indivíduos e comunidades privadas deste fio vertical da justiça tão essencial nas nossas vidas!

A Elsa e outros sobreviventes são a prova de que os seus abusadores são condenados e punidos.

Não compactues com a opressão. Ergue a tua voz.

Uma estrela-do-mar, de cada vez… faz a diferença!

*  Elsa – nome fictício.

 

 

Marta Correia
Advogada

Um Sopro De Vida – Sara Ramalho Pereira

960 640 Aliança Evangélica Portuguesa

A importância da relação com Deus na vida de uma mulher

E foi ali, à beira das águas cálidas do outro lado do Atlântico, numa areia branca e suave, que eu e Deus nos sentámos a falar!

Aquela viagem, que tinha sido a resposta a um desafio de amigas: “Vamos?” – “Vamos!”,  tornou-se num tempo de regeneração e de encontro com Deus e comigo!

Com uma vida repleta de prazos para cumprir, tarefas para completar, filhos para cuidar, agendas para conciliar, a possibilidade de, por uns dias, tudo ficar para trás e simplesmente ir, pareceu-me uma lufada de ar fresco num momento de exaustão iminente!

Sem dúvida que terá sido o ato mais egoísta que vivenciei mas, de facto, foi profundamente reparador!

Quando me sentei no avião, com 8 horas de viagem pela frente, senti um profundo descanso. Naquelas horas eu teria a possibilidade de fazer coisas para as quais não tinha tido tempo nos dois últimos anos! Ler!! Levei dois livros, um deles o “Aromas da Manhã”, que devorei com todo o apetite de quem não comia há vários dias!!

Só a possibilidade de fazer uma coisa tão simples como ler sem ser interrompida por choros, telefonemas ou pela sensação de culpa de estar a “perder tempo” essencial para outras coisas, trouxe-me uma sensação de prazer que me invadiu de uma profunda gratidão a Deus e ao meu marido por me terem permitido viver aquela experiência de uma forma tranquila.

E assim fomos, eu e Deus, numa viagem até ao outro lado do mundo!!

É curioso pensar que também Jesus, em diversas situações da sua vida, sentiu a necessidade de se afastar! Sempre que Ele tinha de tomar uma decisão ou estava a passar por um momento difícil, Ele retirava-se para um lugar reservado com o propósito de orar, tal como vemos em Lucas 22:39-45.

Noutra ocasião, Jesus sentiu-se tão pressionado pela multidão que O seguia que teve necessidade de se afastar para continuar a cumprir o Seu propósito que era ensinar!

Também nós temos as nossas próprias multidões que, por vezes, são os colegas de trabalho, os filhos, a família, os problemas, entre outros!

É importante, desde logo, ter a capacidade de reconhecer que multidões é que “apertam” a nossa vida pois só quando reconhecemos quais são os nossos problemas é que teremos a capacidade de os solucionar!

Depois importa tomar uma atitude e essa atitude deverá ser, numa primeira linha, algum afastamento dessas multidões!

Quando nos afastamos das multidões que nos rodeiam, as coisas passam a ter uma dimensão menor, a distância dá-nos uma perspetiva diferente do que nos rodeia e ajuda-nos a ver mais para além do que está diante de nós!

 

Por último, não devemos perder os nossos objetivos de vista, para podermos prosseguir com eles mas já de uma forma mais forte e com uma nova atitude!

Há alturas, nas nossas vidas, que temos que reconhecer que somos incapazes de fazer tudo aquilo a que nos dispomos a fazer e temos que reconhecer a necessidade de nos afastarmos um pouco e nos recolhermos para estar com Deus.

Desde a criação do mundo que Deus quis estar com o homem e com a mulher e por isso, em Génesis, vemos que Deus tinha um relacionamento diário e pessoal com Adão e Eva mas o pecado afastou-nos desse relacionamento.

Ainda assim, Deus não desistiu de nós e enviou Jesus para morrer na cruz do Calvário e restaurar o nosso relacionamento com Ele!

No tempo em que vivemos, em muitas situações os relacionamentos são efémeros, fugazes. Importa apenas o aqui e o agora, viver o momento. Ninguém se predispõe a dar mais do que recebe e apenas tem em vista o que pode ser bom e benéfico para si próprio. A essência do relacionamento que Deus quer ter connosco vai além disso, porque Ele amou o mundo de tal maneira que enviou Jesus para morrer por nós na cruz, João 3:16.

E este ato tão altruísta só prova a imensa e profunda vontade de Deus em ter um relacionamento connosco.

Para podermos ter um relacionamento com Deus, temos que tirar tempo para estar com Ele, procurar ler e meditar na Bíblia e, sobretudo, orar para podermos falar com Ele e termos a plena confiança que Ele estará sempre disponível para ouvir, responder e enxugar as nossas lágrimas. Isso vai-nos ajudar a ser mulheres mais fortes, seguras e confiantes de que são amadas e respeitadas e que não dependem de outros mas sim de Deus!

Creio que nós mulheres, na generalidade, gostamos de viver todos os relacionamentos, de forma mais romântica, mais floreada. Queremos conversar, passear, queremos amar e sentirmo-nos amadas, ter uma relação de companheirismo. Vivemos tudo de forma muito intensa e, por vezes, há situações em que a não correspondência das nossas exigências se traduz num sentimento de frustração porque os outros, em determinado momento, não vão conseguir estar à altura das nossas expectativas.

Com Deus é diferente! Nunca será Ele a desapontar-nos. Talvez seremos sempre nós que não seremos capazes de manter o relacionamento com Ele na mesma medida que Ele o mantém connosco! Porque relacionamento implica correspondência, afinidades, convivência, implica um envolvimento diário e Deus está sempre disponível para nós e recetivo a dar-nos o Seu colo!

Este colo de Deus evoca-me a memória de um momento nesta viagem que fiz a Cuba, em que passeei por aquela praia de areia branca, com o mar a banhar a areia e as palmeiras ao fundo a contornarem o areal, tudo tal como num postal, e quase que consigo ouvir recitar o famoso poema:

“Pegadas na areia

Uma noite eu tive um sonho.

Sonhei que estava a passear na praia com o meu Senhor
e através do Céu, passavam cenas da minha vida.

Para cada cena que se passava, percebi que eram deixados
dois pares de pegadas na areia;
Um era meu e o outro do Senhor.

Quando a última cena da minha vida passou
Diante de nós, olhei para trás, para as pegadas
Na areia e notei que muitas vezes, no caminho da
Minha vida havia apenas um par de pegadas na areia.

Notei também, que isso aconteceu nos momentos
Mais difíceis e angustiosos do meu viver.

Isso entristeceu-me deveras, e perguntei
Então ao Senhor.
“- Senhor, Tu me disseste que, uma vez
que eu resolvi Te seguir, Tu andarias sempre
comigo, todo o caminho mas, notei que
durante as maiores tribulações do meu viver
havia na areia dos caminhos da vida,
apenas um par de pegadas. Não compreendo
porque nas horas que mais necessitava de Ti,
Tu me deixaste.”

O Senhor me respondeu:
“- Meu precioso filho. Eu te amo e
jamais te deixaria nas horas da tua prova
e do teu sofrimento.
Quando viste na areia, apenas um par
de pegadas, foi exatamente aí que EU,
nos braços…Te carreguei.”

O poema Pegadas na Areia foi escrito em 1964 por Margaret Fishback

 

 

Sara Ramalho Pereira
Advogada

Sonhos Geram Sonhos – Lídia Ferreira

960 639 Aliança Evangélica Portuguesa

Sonhar

É atrever-se a olhar para fora, para além do óbvio, do conhecido
É atrever-se a considerar possível o impossível,
É aguardar o futuro com expectativa,
É ser perseverante na adversidade.

 

É bom sonhar!

Mas nem todos conseguem olhar para o futuro por janelas de esperança.

Alguns estão presos a circunstâncias que acreditam ser determinantes e finais, senhoras do seu passado, algozes do seu presente e roubadoras do seu futuro.

Encontram-se eles próprios fechados no desespero de ter falhado, na frustração de não ter conseguido, na revolta de se sentirem defraudados ou até no desgosto de nem terem tentado.

Não reconhecem em si a capacidade de sonhar e desconfiam de quem diz que sonha. Sem horizontes, caminham pelos dias e pelos anos sempre da mesma forma, correndo o risco de desenvolver uma estabilidade mórbida.

 

Não sonhar é passar pela vida sem viver.

Uma leitura simples do texto Bíblico apresenta-nos os sonhos de diversos sonhadores através dos tempos.

Desde logo, o sonho Divino de relacionar-se em amor com alguém Seu semelhante, sonho que O moveu num ato criador de acordo com a Sua imagem e semelhança, gerando alguém criado por si e a quem fez portador do Seu espírito. Com este alguém  vivia o sonho de passear, relacionar-se e de viver todos os dias. [1]

Mas, o sonho foi testado e a relação interrompida. Contudo, o predador dos sonhos não conseguiu os seus intentos. E, de um movimento criador, Deus passou a um ato redentor, do qual falou muitas vezes e de muitas maneiras, revelando o que viria a acontecer. Ele não permitiria que o sonho morresse, nem que para isso tivesse de se tornar Homem e dar a Sua Vida. Nem que o tivesse de fazer, outra vez, com as Suas próprias mãos: mãos que antes se cruzaram sobre o pó e agora se abriam numa cruz; mãos que com sangue escreveram salvação e desenharam de novo a ponte da relação.

E o homem renasceu, novamente gerado e capacitado a encontrar-se em relação íntima com Deus no virar de cada dia.

 

Os sonhos morrem quando o sonhador os deixa morrer.

Mais adiante o texto Bíblico relata um jovem que sonhou para si um futuro de sucesso e de influência acima do comum. Partilhou o sonho com o seu círculo mais íntimo: aqueles que deveriam acreditar em primeira mão, incentivar e acalentar a partilha. Contou-lhes que um dia estaria em lugares de destaque, tomaria decisões que influenciariam a vida de muitos. Era um sonho ousado, porque se sobrelevava aos comuns ideais do círculo íntimo e representava ameaça de concorrência: Aquele que era o menor sonhava ser o maior! 

Esse foi o início da luta pelo sonho. Sonhar não é tarefa simples. Acalentar o sonho requer coragem de guerreiro. Enquanto acreditava na veracidade do que vira e na interpretação que lhe dera, o jovem teve também de aguentar as consequências da partilha. Inveja, ciúme, descrédito, amargura, ódio, separação, ditaram as circunstâncias através das quais teve de guardar o sonho.

 

É responsabilidade de quem sonha, saber guardar o sonho.

O círculo íntimo procurou enterrar o sonho, na esperança de o matar. Cavaram um buraco e colocaram nele o sonhador:

– “Aí nas profundezas desse buraco podes sonhar à vontade. Nada vai acontecer. Um “animal feroz” comerá o teu sonho!”

Grandes sonhos sofrem ameaças ferozes, parecendo que vêm, inevitavelmente, incluídas no “pacote” do sonho. E no fim daquele dia de desilusão, o sol pôs-se sobre a esperança de viver para ver o sonho! No entanto, na escuridão da noite campesina, ao som das ameaças desconhecidas das trevas, não restava mais nada a não ser o sonho. Era bom rever como possibilidade aquilo que parecia agora longínquo e impossível.

 

Em circunstâncias inóspitas é o sonho que alimenta a vida.

Muitos Sois e Luas passariam até que o jovem visse a realização do seu sonho.

A distância temporal entre o momento do sonho e o da sua realização pode ser maior ou menor, mas é sempre desafiante. Exige confiança no material sonhado, tenacidade perante as ameaças de “morte ao sonho” e diligência nas ações da espera. Porque a vida do sonhador não é um vazio e a espera também o não é.

A viagem do sonhador deste relato foi sinuosa e cheia de perigos, aparentemente aumentando a distância da sua realização ou até gritando a sua impossibilidade. Aquele que sonhara ser o maior foi, afinal, o menor, o escravo, o servo, o prisioneiro.

Numa situação de vulnerabilidade, tentaram trair o sonho. Foi necessário um caminho de coragem, de sabedoria e de fidelidade para o preservar: coragem para dizer não ao prazer fácil que lhe era oferecido; sabedoria para acreditar que posições confortáveis também poderiam ser inimigas do sonho, que o hoje está distante do amanhã e que o futuro é comprometido com uma decisão do presente; fidelidade para honrar os compromissos e manter o carácter.

 

A consistência de carácter preserva o sonho.

Numa perfeita resposta de injustiça, o sonhador foi vítima de difamação e de mentira. E, assim, tentaram aprisionar o sonho. Mas mesmo na prisão, quando todas as vozes gritavam “Esquece! Ninguém se lembra de ti. Vê quão distante estás do teu sonho. Desiste!”, o sonhador acalentou a esperança da liberdade e a certeza da validade de Quem lhe dera a capacidade de sonhar.

 

Mesmo os sonhos que estão presos gritam por liberdade.

E foi, novamente, pela fidelidade e autenticidade que o marcavam que se distinguiu na adversidade.

A capacidade de sonhar está ao alcance de todos, em qualquer circunstância. Alguns limitam-se a si mesmos pela incredulidade, pela ausência de esperança, pela fragilidade de carácter e pela fraca persistência. Mas todos podem sonhar!  

Os sonhos podem ser grandes ou pequenos, podem ser pessoais ou de valor comunitário, mas todos precisam de ser guardados.

O desejo e a esperança estão na base do sonho. Há predadores de sonhos que, por inveja ou por medo, se esforçam para matar aquilo que o sonhador deseja e espera, impedindo que o sonho nasça. Esses predadores aparecem sobretudo quando os sonhos dos outros parecem maiores do que os seus.

Manter o sonho vivo (apesar de tudo) exige a tenacidade do guerreiro, a força do sábio e a persistência da fé.

Na história do jovem sonhador apareceram também contributos, em momentos cruciais, que estimularam a esperança e acalentaram o desejo. Deus envia, nos momentos certos, guardas de sonhos que mesmo sem saberem contribuem para o processo da sua realização, ainda que através do seu  próprio sonho. E o sonho do jovem aconteceu pelo sonho de um rei. [2]

 

Sonhos geram sonhos.

E durante a concretização desse sonho ousado, o jovem esteve em lugares de governo e salvou a vida de muitos com a sabedoria, a prudência e a humildade que foram marcas na sua vida de sonhador.

Na vida, como na história, há momentos em que apetece sonhar e momentos em que apetece desistir de sonhar. Há sonhos soterrados pela desilusão, pela traição e pelo desafio da realidade muitas vezes dura e contraditória do sonho. Não faz mal fechar os olhos, esquecer o que por eles entra e,

retirando camada a camada, mesmo que doa , abri-los de novo… Para voltar a sonhar!

  1. Génesis 2,3
  2. Genesis 38,39

 

 

Lídia Ferreira
Counsellor, Formadora

 

Portas Que Se Abrem – Carmina Coias

1280 784 Aliança Evangélica Portuguesa

Chá de limão e torradas ou um bolinho, num lanche agradável. Ou comida quente, numa refeição mais substancial. Em volta da mesa, muitos foram os momentos em que recebemos pessoas em nossa casa e partilhámos o nosso tempo com elas. Ou apenas encontros para aconselhamento e oração. De facto, a porta de nossa casa sempre fez parte do nosso ministério, onde quer que vivemos. Por ela entraram amigos, alguns carentes de ajuda, por quem orámos e vimos a vitória acontecer nas suas vidas. Foram situações em que Deus nos deu a oportunidade de O servir sem sair de casa.

Lembro-me de uma jovem que chegou tão abatida à nossa porta, com uma situação que só mesmo o Senhor poderia resolver. Hoje ela é uma mulher muito feliz. O milagre de que precisava aconteceu.

Em Timor, onde fomos missionários, a nossa porta abriu-se várias vezes para deixar entrar pessoas que vinham entregar-se a Jesus. Diziam elas: “Queremos a mesma alegria que vemos nos nossos vizinhos que são crentes.”

Por vezes, há pessoas que dizem: “Estive em sua casa uns dias” e eu tenho que confessar que não me lembro. Contudo, fico feliz, pois foram muitos os que nos abençoaram com a sua estadia ou visita.

Nem sempre vimos possibilidades de ajudar todos os que nos procuravam, mas aprendemos que somos apenas servos, e podemos confortar com oração, guardando a certeza e a esperança na da resposta com Deus.

Pela nossa porta também entraram “anjos” que Deus enviou quando deles precisámos. Lembro-me, em particular, de um casal de missionários australianos, reformados, que nos visitaram em Timor, numa altura de luto pelo falecimento do nosso filho. Rostos desconhecidos mas impregnados de amor, que nos trouxeram a esperança de voltar a ser pais, quando era uma impossibilidade médica em Portugal. Uns meses depois, abriram as portas de sua casa, em Melbourne, onde eu seria operada e veria assim recuperada a possibilidade de engravidar de novo. Tivemos mais dois filhos!

Em 1999, quando visitei Portugal, o pastor José Neves levou-me à rua onde viveu a minha mãe. Essa é outra porta de que sinto muitas saudades. Quando parámos em frente, por um momento desejei o impossível: que o seu rosto querido surgisse abrindo a porta, como aconteceu tantas vezes. Contudo, na ausência dessas portas, Deus continua a dar-me outras “portas de oportunidades” para dar e receber conforto e ajuda.

Houve muito que se perdeu como o correr da vida, mas a fidelidade do Senhor permanece imutável, continuando a abrir “portas que ninguém pode fechar.”

 

Carmina Coias
Missionária Aposentada

Estações – Ana Mary Baizán

960 639 Aliança Evangélica Portuguesa

Há pouco tempo, observando as constantes mudanças de temperatura e a incerteza do clima na nossa localidade de residência, comentava com uma das minhas filhas a dificuldade que sentíamos quando tentávamos selecionar as peças de roupas que iríamos usar no dia seguinte.

O normal e tradicional é fazermos uma espécie de limpeza seletiva no fim de cada estação, quase um “ritual”, eliminando as peças que já não iremos usar durante os próximos tempos por se mostrarem inadequadas para enfrentar as novas temperaturas e condições que se apresentam. Nesse momento, nem sequer sabíamos o que devia ficar no nosso armário e quais peças deviam seguir o caminho para o nosso lugar de arrecadação no sótão da casa.

Isto fez-me pensar que, às vezes, este sentimento e impressão de confusão pode vir até nós no que se refere às estações e tempos que se desenrolam nas nossas vidas.

Toda esta conversa entre nós duas, trouxe-me à memória uma frase do irmão Swindoll que afirma “como erramos ao caminhar às cegas e numa mesma rotina através de uma vida de estações em mudança, sem descobrir respostas para os novos mistérios e aprender como cantar novas melodias! Estações são designadas para nos aprofundar e instruir na sabedoria e caminhos do nosso Deus”.

No mundo natural, cada estação requer uma determinada maneira ou rotina de vestir e até de agir nas nossas vidas quotidianas, porque as circunstâncias inerentes a essa estação, assim nos obrigam ou influenciam. Não posso pretender passar pela estação de inverno vestida com um simples fato de banho ou querer desfrutar do verão caminhando de cachecol e casacos quentes.

Na Bíblia, encontramos analogias e até narrativas que nos falam da importância de estarmos vestidos, ou seja, “prontos” para viver a situação que se avizinha.

Não posso colocar em mim um fato de treino e um avental para assistir a um casamento ou cerimónia formal, mas estarei fantasticamente vestida e “pronta” para um dia de limpezas em casa.

A função a realizar determinará a minha roupa e outros requisitos pertinentes para levar a cabo com sucesso essa tarefa designada para esses dias.

É muito interessante, por exemplo, observamos o facto de existir uma “troca de vestes” durante toda a vida de José, quando passava de uma estação para outra. De Filho a escravo, de escravo a prisioneiro, de prisioneiro a palácio… Sabemos que Deus tinha um plano para a sua vida e que o fez passar por cada estação com o propósito de o conduzir e capacitar para ser o instrumento de livramento para o Seu povo.

Este tema leva-me a recordar o dia em que efetivamente eu arrecadei a toga que costumava usar aquando das minhas diligências em Tribunal. Nesse dia, tive a clara noção de que “essa peça de roupa” já não iria fazer parte do meu armário na nova estação que Deus preparara para mim…

Deus é um Deus de tempos, de “kairos” e não falamos de tempo cronológico mas falamos de tempos no sentido de estações.

O Livro de Eclesiastes lembra-nos que existe um tempo para todas as coisas mas quão difícil é compreendermos e discernirmos esses diferentes momentos nas nossas vidas sem a ajuda do Espírito Santo.

Da mesma maneira que a instabilidade climática termina por nos enganar na escolha das roupas, pois uma primeira olhadela pela janela ou a previsão meteorológica terminam por não acertar com o que realmente vai a acontecer durante o nosso dia, não serão as previsões humanas ou as nossas primeiras impressões que nos conduzem ao discernimento da estação que estamos a viver nas nossas vidas.

Quando falo de estações, refiro-me a estações nas variadas áreas em que somos mulheres, seja a nível pessoal, individual, no relacionamentos com os outros, na família onde estamos inseridas, como filhas, esposas, mães e, por fim, como membro do Corpo de Cristo.

Porque é que, por vezes, nos privamos da oportunidade de viver uma nova estação, seja em que área for, deixando que o medo do desconhecido e que a rotura de uma rotina à qual estamos habituadas e já ancoradas, movidas pelo conforto que isso nos traz, dominem as nossas escolhas?

Desde estas linhas, quero lembrar às leitoras de que, em Deus, há sempre muito mais do que nós esperamos ou alguma vez sonhámos.

Geralmente, quando Deus tem uma nova estação para as nossas vidas, o Espírito Santo começa a incomodar-nos trazendo um inquietação. Não falo de falta de contentamento porque nós devemos de saber estar satisfeitas em Cristo no que se refere a alimento espiritual e salvação, mas estou a apontar para um “desconforto”.

Lembremos Daniel, quando “discerniu pelos livros” que o tempo de as assolações de Israel tinha findado; esse entendimento levou-o a orar e agir de maneira diferente, pois ficou “incomodado”.

Reparem no episódio em que Pedro e André são desafiados por Jesus, com uma simples frase: “Vinde a pós mim e eu vos farei pescadores de homens”. Quando uma nova estação nasce na nossa vida, abre-se instantaneamente uma oportunidade de transformações.

Da mesma maneira que o cenário muda quando cada estação aparece – as cores, as paisagens, as condições – aprendamos a discernir os tempos e a ouvir a voz de Deus, quando observemos que o “cenário da nossa vida” também está a sofrer mudanças.

Nenhuma estação é mais necessária do que outra, pois cada uma delas foi estipulada pelo nosso sábio e soberano Deus e adjudicou funções próprias a cada uma com a finalidade de criar um equilíbrio e uma sucessão natural e necessária na natureza. Afinal, quando a Palavra diz que Deus viu que tudo era bom, o que nos é dito é que tudo tinha uma utilidade para alcançar um fim.

Podes perguntar: como podes Deus desafiar-me para uma nova estação, à medida que passa o tempo, se Ele sabe que as minhas forças cada vez são menos, as minhas capacidades ficam mais limitadas e o tempo é mais curto?

Quero dizer-te que como tudo o que Deus faz novo, quando Ele nos conduz num novo tempo, sempre será para melhorar o existente ou para redirecionar-nos na Sua grande comissão.

Como costuma dizer um grande amigo meu, “Menos é mais”. Quantidade não é qualidade e vice-versa.

Por vezes, as novas estações trazem uma grande oportunidade de definir as nossas prioridades e de focarmos as nossas forças e habilidades na defesa e proteção dessas prioridades.

Há poucos dias, conversava com uma jovem, mãe de primeira viagem, cujo maior desafio na actualidade era conciliar o seu papel de esposa, mãe, profissional e parte do corpo. Alguém que, durante a estação passada, tinha tido todo o tempo para servir na Igreja, para investir em relacionamentos e amizades, para dedicar-se a outras áreas com uma maior intensidade mas agora interrogava-se acerca do seu desempenho nas variadas funções e da frustração por não continuar a viver na mesma rotina, numa outra estação que vem requerer novas rotinas e novos desafios e, sobretudo, responsabilidades.

Deus conhece a estação que estamos a viver, pois foi Ele que nos levou até ela, mesmo podendo tratar-se de um deserto; isto aconteceu com o próprio Jesus, quando foi guiado pelo Espirito até o deserto para ser tentado.

Qual é o nosso maior desafio ao passar pelas estações da nossa vida senão permanecer fiel a Deus e obediente à Sua palavra, não perdendo de vista o alvo principal de trazermos glória a Seu nome, seja qual for o tempo que está estipulado sobre nós?

Nas Suas mãos estão os nossos tempos, e Ele é que sabe se devo permanecer mais um bocadinho na minha atual “paisagem” ou se devo transitar para a nova que Ele já preparou de antemão.

Voltando à conversa com que iniciei este pequeno texto, a minha filha e eu chegámos à conclusão de que, devido ao estado confuso da meteorologia, terminaríamos por deixar peças nos nossos armários que iriam ficar lá pela nossa incerteza (…e se vou precisar disto…é melhor preservar…) mas que só ocupariam lugar e impediriam a melhor acomodação das outras que seguramente precisaríamos de usar.

Quando se trata de estações de Deus na nossa vida, não tenhas medo de desfazeres-te de “peças de roupas”, pensando que irás precisar delas; devemos renunciar a tudo o que nos rouba forças e concentração para desenvolver o que Deus traz para nós na nova estação.

Para finalizar, gostaria de meditar no facto de que o plano de Deus para nossa vida é algo dinâmico e não estático. O que quero dizer com isto? Deus tem um plano de salvação para nós e isso não muda efetivamente, mas a maneira em como iremos refletir e revelar a Glória do nosso Deus, é algo dinâmico e que pode mudar ao longo da nossa caminhada aqui na Terra.

Muitos ancorados no velho chavão de que “tudo o que é de Deus, permanece assim até ao fim”, insistem em viver todas as estações das suas vidas, “vestidos” com as mesmas roupas e desenvolvendo a sua missão da mesma maneira, boicotando-se a si próprios e privando-se da oportunidade de ver Deus refletido neles através da multiforme graça de Deus.

Os tempos mudam e precisamos de os discernir com a ajuda do Espírito Santo. Isto, tira-nos da zona de conforto à qual estamos habituados e nos transporta para uma caminhada contínua à procura do plano individual e específico de Deus para nós, onde andamos guiados pelo Espírito Santo e totalmente dependentes do seu auxílio e indicações.

Aprendamos a discernir os tempos com ajuda do nosso “paracletos”, o Espírito Santo, aceitemos as estações de Deus para nós e o desafio de tirar as peças de roupas que não iremos precisar para caminhar confortavelmente e sem embaraços no tempo que estamos a viver.

 

Ana Mary Baizán
Advogada
Evangelista na AD Almada

Por Uma Europa Livre – Elsa Correia Pereira

960 500 Aliança Evangélica Portuguesa

Realizou-se entre os dias 20 a 24 de Maio de 2019 em Pescara, Itália, a conferência Bridge 2019 da EFN (European Freedom Network).

Esta rede de organizações evangélicas existe para a ajudar a igreja na Europa a trabalhar unida e de forma efetiva para prevenir e combater o tráfico de seres humanos e a exploração comercial de mulheres, homens e crianças, e procurar a restauração completa das vítimas.

Com 164 participantes, representando cerca de 20 nações da Europa, e não só, esta 5ª Conferência da EFN englobou muitos workshops e seminários, palestras e discussões de grupo, abordando variadíssimos temas como:

  • O TSH (Tráfico de Seres Humanos) entre os refugiados
  • A cultura da etnia cigana (ROMA) e a vulnerabilidade ao TSH
  • A utilização das tecnologias para aliciar vítimas para TSH, abuso e comércio sexual.
  • Vários modelos de abordagem legal da prostituição na Europa (modelo nórdico, prostituição ilegal ou prostituição tolerada).
  • Dinâmica da adição sexual
  • Parcerias com entidades públicas para combate ao TSH
  • Inciativas de awareness, advocacy e fundraising para combate ao TSH
  • A necessidade de pesquisa e parcerias académicas para melhor combater o TSH, a exploração sexual e a pornografia.
  • O alcance das mulheres vítimas de exploração sexual nas ruas/clubes.
  • Cuidar e reintegrar as vítimas: casa abrigo, emprego, formação.
  • Advocacy junto dos poderes políticos e autoridades governamentais.
  • Características de uma abordagem abolicionista.

Houve ainda tempo para discussão de pontos de abordagem e trabalho comuns, por áreas da Europa (Península Ibérica, Norte da Europa, Leste Europeu, Sul da Europa, etc.) ou por pontos de interesse como pesquisa, oração, envolvimento das igrejas, entre outros.

Quando penso no TSH, na prostituição e na pornografia (e todas as outras formas que possa tomar o comércio sexual ou humano) e penso como são temas tão difíceis, lembro-me de João 9:6-7. Às vezes, para que algumas pessoas sejam curadas, é necessário que sujemos as mãos. Não que façamos o que elas fazem, mas que, como Jesus, encontremos estratégias para chegar onde elas estão, e trabalhemos para que elas vejam o amor de Deus.

No episódio bíblico referido, Jesus cuspiu na terra e com a saliva fez lodo e untou os olhos do cego. E penso que nós precisamos de perceber que, antes de vir a cura, nós precisamos de “sujar” as mãos, de entrar nas trevas e deixar brilhar a nossa luz. Brilhar onde já há luz, entre as 4 paredes da igreja, é mais fácil e confortável, mas não é, definitivamente, o propósito de ser luz.

Sim, são temas difíceis, mas alguém tem de falar sobre eles. Alguém terá de alertar as gerações mais novas para os perigos que correm, alguém terá de resgatar os/as que já caíram neles, alguém terá de ajudá-los(as) a começar outra vez. Vamos a isso? Por uma Europa livre de Tráfico de Seres Humanos.

Para mais informações sobre a EFN, consulte o site http://www.europeanfreedomnetwork.org/

 

 

Elsa Correia Pereira
Socióloga
Membro da EFN

Espelho Meu… Espelho Meu… Quem Sou Eu? – Sarah Catarino

960 638 Aliança Evangélica Portuguesa

Era uma vez…

Num reino muito distante, a vida era feliz. O rei era bom e amado, a rainha era bela e bondosa e a princesa era linda, com uma pele clara e os olhos e cabelos negros, que faziam ainda ressaltar mais o tom do seu rosto e por isso resolveram chamá-la Branca de Neve. A rainha morreu de doença súbita e o rei ficou triste e a menina ainda mais. Mas como o rei precisava de uma rainha, por fim, casou com uma mulher de beleza rara. Tinha tanto de bela como de má. Cada vez que olhava para a princesa, tinha um susto, porque Branca de Neve crescia e cada vez parecia mais bela. A beleza da jovem princesa provocava no coração mau da rainha, sentimentos de inveja e ódio. Para cúmulo da desgraça, o rei morreu e a rainha má ficou regente do reino. 

 

Conhece a história, não é? Ela tem feito a delícia das crianças em todas as gerações, publicada em diferentes formas, levada às telas do cinema e aos palcos de muitos teatros. Penso que um dos grandes sucessos deste conto infantil, tem a ver com a maneira como se quis mostrar que a nossa verdadeira identidade não está na aparência, mas no que somos.

Cada vez que pegamos num espelho, ou nos aproximamos de um para ver o nosso rosto, se estamos bem vestidas ou decentemente penteadas, ele devolve-nos uma imagem que nem sempre é a que gostaríamos mais…

Possivelmente terá sido a superfície da água que inspirou a fabricação do espelho. Pensa-se que os primeiros terão sido produzidos durante a civilização egípcia e eram feitos de cobre polido. Mais tarde usaram a prata polida até chegar aos nossos dias.

Muitas vezes, a nossa identidade, forma-se a partir do que os outros dizem que somos, do que nós pensamos que somos.

Embora que estes factores possam ser importantes, segundo a perspectiva da Palavra de Deus “o ser humano é uma criatura de Deus, com uma natureza desenhada por Deus para conscientemente demonstrar a Sua grandeza, a Sua beleza e o Seu valor”. É nisto que que está fundamentada a nossa identidade.

Disse que demonstramos quem Deus é de forma consciente, porque nos distinguimos das aranhas, que na sua beleza glorificam, mas não têm essa consciência.

Esta foi a natureza essencial na primeira criação em Adão. Esta é a natureza essencial na segunda criação em Cristo. Por outras palavras a minha identidade fundamental é que eu sou desenhada por Deus para demonstrar a identidade de Deus.

Veja na Bíblia o que isto significa. Génesis 1:27. “Deus criou o homem à sua imagem. À imagem de Deus o criou. Macho e fêmea os criou”.

Há muito debate sobre se fomos feitos à imagem espiritual, relacional ou moral de Deus. O mais importante é que as imagens são feitas… para ser imagens. Se colocares uma imagem da Sarah numa Tshirt, o teu objectivo é chamar a atenção para a imagem da Sarah, certo?

Então a grande pergunta a fazer é esta: Porque será que Deus criou 7 biliões da Sua imagem neste planeta? Porque é que Ele fez isso? Claro e óbvio: para chamar a atenção para Ele!  Foste feita à imagem de Deus, para mostrar Deus, para comunicar Deus. Este é o nosso significado. Esta é a nossa identidade. Temos uma natureza de imagem!

Deus estava apaixonadamente decidido a encher a terra com Ele mesmo, enchendo-a de imagens que apontassem para Ele. É por isso que existimos. A Bíblia coloca isto de maneira gloriosa em Isaías 43:7,” Trazei os meus filhos de longe e as minhas filhas da extremidade da terra, a todos os que são chamados pelo Meu Nome, os que criei para a minha glória, Eu os formei, sim, Eu os fiz”.

Mas todos sabemos o que aconteceu. Pecamos. Ou seja, tu tens dito, eu tenho dito, milhões têm dito a Deus: “Não. Não é isso que quero. Não Te quero como a minha identidade. Eu tenho a MINHA grandeza. Eu vou demonstrar a MINHA beleza e o MEU valor.”  E ao longo da história humana, esta resolução levou a que a imagem verdadeira ficasse desfocada, como a imagem que vemos num espelho de feira. Cabeças grandes, corpos pequenos. Pernas curtas, pescoço comprido…E o pior de tudo, não gostamos do que vemos. E pior ainda. Como não conseguimos melhor, habituamo-nos a viver assim. Desfocados, infelizes, perdidos e sem valor.

Mas Deus interfere na história da humanidade e envia o Seu amado Filho que nos reconcilia com Ele através da Sua morte. É como se a cruz de Jesus fosse uma ponte estendida sobre o vazio da humanidade para que pudéssemos outra vez ser feitos Sua imagem.

2 Coríntios 5:17 diz: “Sou uma nova criação em Cristo, o velho já passou, tudo se fez novo”. Ou seja, em Cristo eu posso recuperar a minha identidade perdida, uma imagem que pode outra vez demonstrar a grandeza e a beleza de Deus. Deus há-de ser visto. Deus é visto. Um grupo de gente que quer exaltar, amar, adorar e viver para Deus, serão neste mundo a imagem de Deus. Foi para isto que Deus nos chamou. Todo o novo Testamento nos diz: És novo! És novo! Deus recriou-te em Cristo para que tenhas uma natureza, uma identidade onde a Sua beleza, a Sua grandeza, o Seu valor sejam vistos.

Onde está o obstáculo para isto seja demonstrado na nossa vida?  É que quando eu entendo que fui feita para mostrar Deus, a Sua glória, beleza e valor, olho para dentro de mim e lá no fundo pergunto: mas eu não estou a conseguir isto…

Por que leva algum tempo para entender que não tem a ver com regras, com comportamento, com obediência cega a rituais e disciplinas, mas com algo tão maior e tão mais excelente e mais libertador. Tem a ver com o facto de que, para eu ser a completa imagem de Deus, tenho que estar em Cristo e Cristo tem que estar em mim. Não estou a falar de religião, nem de denominação, nem de teologia de igreja, estou a falar de algo que o apóstolo João descreve no seu capítulo 15: EU SOU A VIDEIRA, VÓS AS VARAS. Nele, em Cristo, não somos só troncos, somos varas de uma videira eterna e frutífera.

Para que se estabeleça uma identidade real em nós, têm de acontecer 3 coisas

  • A nossa percepção sobre nós próprias tem de mudar.
  • Temos de desenvolver uma nova forma de pensar que nos leve a uma mentalidade melhor, e
  • temos de aprender uma nova linguagem e praticá-la em todas as circunstâncias.

Não podemos voltar a cair numa percepção anterior, numa mentalidade anterior ou num nível de linguagem deficiente. A nossa nova identidade agora, em Cristo, actualiza tudo.

 

Espelho meu, quem sou eu?

Sou amada infinitamente por Deus, sou protegida, tenho o favor de Deus, sou escolhida por Ele para fazer coisas bonitas neste mundo, sou bela aos olhos de Deus porque estou em Cristo.

 

Sarah Catarino
Oradora, escritora e fundadora da AGLOW em Portugal

Conciliação Entre A Vida Familiar E Profissional – Elsa Correia Pereira

960 577 Aliança Evangélica Portuguesa

Mulheres – vida familiar e profissional: um assunto que exige bom senso, sabedoria e direção de Deus. Há um tempo, li uma frase que penso transmitir bem aquilo que a sociedade exige da parte das mulheres nos dias de hoje: “Às mulheres, pede-se que trabalhem como se não tivessem filhos e que cuidem dos filhos como se não trabalhassem”. E, nesta frase, incluiria não só os filhos mas todos os aspetos da vida pessoal. Uma mulher tem de apresentar-se com uma boa imagem, bem disposta, pró-ativa, trabalhando de forma remunerada, para contribuir para o sustento da casa e da família, ou de forma voluntária, em projetos de intervenção comunitária. Esquecido fica o trabalho que ninguém vê: passar, lavar, poucas horas de sono, arrumar, entre outros. Apesar de alguma legislação e divulgação de boas práticas para permitir esta, por vezes tão difícil, conciliação, ainda repousa muito sobre os ombros da mulher a responsabilidade e o peso de se organizar para “fazer acontecer” o que é preciso, em casa, na família, no trabalho, no ministério.

As mulheres sempre foram multifacetadas. A mulher de Provérbios 31 é um exemplo disso. Assim, creio e acredito que, para além da mulher empreendedora e bem-sucedida que a sociedade requer, se a Bíblia nos apresenta a mulher de Provérbios 31, nós podemos trabalhar e preparar-nos para alcançar esta excelência. A mulher de Provérbios 31, para além de cuidar do marido, dos filhos e da casa, é empreendedora (costura e vende os seus produtos, v.24), sabe fazer bons negócios e não se dedica apenas a uma atividade (além de fiar, costurar, comprar e vender, também se dedica à agricultura, vs. 16, 19, 24), é talentosa e criativa (v. 22) e ainda tem tempo para estender a mão a quem precise (v. 20). Também gostaria de mencionar o exemplo de Lídia, vendedora de púrpura. Ela, apesar da sua atividade profissional, voluntariou-se para hospedar Paulo e os que com ele estavam, pois esforçava-se por servir a Deus (Atos 16).

Como diz a Palavra do Senhor, “há tempo para tudo debaixo do céu” (Eclesiastes 3). Há tempo para a família, para o trabalho, para a igreja, para o ministério. Há dias, semanas ou “estações” em que nos teremos de dedicar mais a um destes “setores” da nossa vida. É importante que saibamos gerir o nosso tempo, os nossos recursos e potenciar aquilo de que dispomos para tornar mais fácil a conciliação entre a vida familiar/pessoal e a vida profissional. Se temos ajuda, muito bem. Mas se não temos assim tanta ajuda, é importante organizar e simplificar.

Aqui ficam algumas dicas práticas para aproveitar melhor o tempo e conseguir gerir e realizar todas as tarefas que, provavelmente, terá de fazer (1):

 

Em termos de trabalho e organização pessoal:

  • Coloque limites (estabeleça horários, saiba dizer não)
  • Não adie (conforme diz o provérbio português: não deixes para amanhã o que podes fazer hoje)
  • Motive-se e inspire-se para que as tarefas lhe sejam mais fáceis
  • Cuide da sua apresentação em menos tempo (por exemplo, tenha no seu guarda-roupa peças que possibilitem várias combinações e possam ser utilizadas em várias ocasiões)
  • Potencie a sua rede de contactos (faça networking) – um amigo pode ser de grande ajuda em muitas ocasiões!
  • Delegue ou peça ajuda
  • Simplifique (isto significa muitas vezes abdicar do perfecionismo)
  • Faça listas de tarefas e organize a agenda
  • Defina prioridades
  • Reduza e organize a documentação que guarda
  • Crie um planeamento que funcione para si (utilize uma agenda, física ou digital)
  • Utilize bem o telefone (às vezes é preciso desligá-lo)
  • Calendarize
  • Tire partido dos instrumentos digitais
  • Passe menos tempo nas redes sociais/ TV
  • Selecione a informação a ler
  • Reduza o correio eletrónico (limpe a caixa de entrada, reencaminhe, utilize ou apague).

 

Em casa

  • Comece bem o dia, adiantando de véspera o que puder
  • Mobilize a sua família para ajudá-la nas tarefas domésticas
  • Crie rotinas (por exemplo: à segunda feira, vai ao supermercado, à terça coloca a roupa a lavar, à quarta passa a ferro, etc.)
  • Elimine tarefas desnecessárias (por exemplo, ir ao supermercado várias vezes – faça uma lista)
  • Liberte-se da acumulação (dê aquilo que já não usa)
  • Simplifique as refeições (faça um menu de refeições semanais, liste várias receitas para o mesmo ingrediente – exemplo: frango – assado, de caril, empadão de frango)
  • Tire partido da organização do frigorífico e da despensa
  • Engome menos roupa (compre tecidos que se amarrotam menos, escolha os programas de lavagem adequados, não sobrecarregue a máquina).

 

Cuide de si

  • Faça sestas para recarregar energias
  • Tenha hobbies que lhe permitam descontrair
  • Desenvolva hábitos saudáveis: exercício físico, alimentação adequada, formação
  • Conheça os seus dons e potencialidades – e focalize-se naquilo que melhor sabe fazer
  • Valorize a família

 

Lembre-se: o difícil é começar, mas o início é metade de toda a ação! (provérbio grego).

Por último, mas mais importante que tudo, busque a Deus. Mesmo nas pequenas tarefas e decisões do dia-a-dia, peça ajuda ao Espírito Santo. Sempre. Ele é o nosso melhor companheiro, amigo, ajudador, conselheiro. Considere também que é muito importante saber que há alguém a orar por si – pode ser o seu marido, um outro familiar, um conselheiro, o seu pastor, o seu grupo familiar. A oração de outros levanta-nos quando precisamos e mesmo sem sabermos. É Deus a agir em resposta ao pedido dos nossos amigos e irmãos. Por esta razão, é importante partilhar com alguém de confiança, as suas lutas, desafios, sonhos e indecisões

E quando lhe parecer que o trabalho nunca mais acaba, ou que é melhor desistir, pense que cada pequeno gesto que faz no dia-a-dia em prol da sua família, do seu trabalho, ou da sua comunidade, pode ser uma tarefa insignificante para muitos mas, na realidade, você está a construir algo maior, que pode ser o seu lar, o propósito que Deus tem para si, o seu ministério, contribuindo para um ambiente mais alegre e salutar à sua volta, onde quer que Deus a tenha plantado.

(1) Algumas destas ideias foram tiradas do livro Stop: 50 estratégias para mulheres sem tempo, de Ana Tápia.

 

Elsa Correia Pereira
Socióloga

Dias (in)úteis? – Bertina Coias Tomé

960 640 Aliança Evangélica Portuguesa

O texto bíblico transporta-nos, aqui e ali, a momentos grandiosos. Contudo, também nos traz dias pequenos, frágeis de recursos. Lembram-se de alguns?

É o raminho de oliveira preso no bico de uma pomba, nos tempos de Noé.

A nuvem do tamanho da mão de um homem, nos céus de Samaria, em tempo de seca.

Uma pedra que serve de almofada a um jovem fugitivo.

Um punhado de farinha numa casa modesta.

Um vale enorme, apenas cheio de ossos secos

Algum trigo a ser malhado, às escondidas, dentro de um lagar, por um homem apreensivo.

Um resto de azeite numa botija, nas mãos de uma viúva pobre e endividada.

Um pedaço de telha com que se raspam feridas e se alivia a comichão.

Pedras, pó, pedaços de madeira queimada – escombros de um templo outrora enorme e riquíssimo.

Frascos de perfume, carregados por mulheres, de madrugada, que se revelarão inúteis.

E a lista poderia continuar. Momentos desprovidos de qualquer sentido de sucesso ou mesmo de utilidade. Que não se conjugam com princípios de excelência ou de liderança da literatura actual. Onde não se descobre inspiração. Que, à partida, não representam convite nem oportunidade.

Contudo, pelo ano 519 a.C, Deus fala pelo profeta Zacarias, lançando uma pergunta surpreendente, que vem sacudir momentos como esses. Diz: “Quem despreza o dia das coisas pequenas?” (Zacarias 4:10)

Quem? Quando trabalhei no meio prisional, descobri ali dias que tinham tanto de longos como de pequenos. Longos, muito longos, em horas lentas e difíceis de passar, pela própria condição de reclusão. Por outro lado, pequenos de motivos de entusiasmo ou de objectivos. Eram dias frequentemente desprezados.

A verdade é que, mesmo vivendo em liberdade, é fácil descobrirmo-nos a percorrer dias de coisas pequenas e, assim, com tendência a desvalorizar. Há uns meses atrás, num grande evento para mulheres, alguém sugeriu: ”Recebe este dia como um presente de Deus para ti.” Gostei da ideia e anotei a frase.

Sabem o que sucedeu com cada um dos momentos referidos atrás?

O ramo de oliveira anunciou o fim das chuvas do dilúvio e o início de uma nova época para a humanidade.

A pequena nuvem era apenas a primeira de um grande “exército” que derramou chuva abundante sobre a terra, após um período de seca de mais de 3 anos.

Sobre aquela “almofada” desconfortável, Jacó viveu um dos momentos de maior proximidade do divino na sua vida.

Aquela pouca farinha transformou-se em abundância, pelo poder de Deus.

Naquele vale sombrio levantou-se um grande exército

O homem foi surpreendido pela notícia de que iria estar á frente do livramento do seu povo.

A viúva experimentou uma abundância extraordinária dentro de sua casa.

A saúde e a alegria foram restauradas e o pedaço de telha não mais foi preciso.

O templo foi reconstruído e nele habitou uma glória maior que a do anterior.

As mulheres foram surpreendidas pela ressurreição de Jesus.

Hoje pode ser um dia de “coisas pequenas”, para si ou para mim. Contudo, é o Deus grande que torna um dia grandioso! Não aquilo que temos ou que vislumbramos no nosso horizonte limitado.

Tal como, naquela prisão, reclusos conheceram o amor de Deus, nenhuma condição de vida é impedimento para a acção do Senhor, Todo-Poderoso, sobre as nossas vidas. Deixemos que o nosso olhar se eleve, hoje, acima das circunstâncias e, com essa certeza, desfrutemos de uma Páscoa Feliz!

 

Bertina Coias Tomé
Psicóloga, Especialista em Psicologia Clínica e da Saúde e Psicologia Comunitária

A Nossa História – Carmina Coias

960 720 Aliança Evangélica Portuguesa

Sempre gostei de biografias. É uma leitura onde se pode aprender tanto, vendo como as pessoas viveram e como enfrentaram os desafios que foram surgindo no seu percurso.

Vejo com muito interesse um programa televisivo aqui nos EUA, onde se procuram os antepassados de pessoas. Trata-se, geralmente, de gente famosa ou muito conhecida, sobre cuja história se faz uma investigação minuciosa. No fim, e com curiosidade e emoção, recebem um grande mapa detalhado da sua árvore genealógica, com nomes, datas de nascimento, de casamento e de óbito. Em muitos casos, a pesquisa chega aos escravos, com séculos pelo meio. Os nomes estão registados nos perfeitos arquivos americanos que guardam com detalhe a chegada dos emigrantes, de barco, vindos da Europa, de países nórdicos, da África e da Ásia, há muitos anos atrás.

Tenho pena de não ter tido oportunidade de saber mais sobre os meus ascendentes. Ainda assim, é interessante saber que tanto a minha família como a do meu marido são oriundas de Espanha, do lado do pai dele e do meu, e de Inglaterra pelo lado da mãe dele.

A Bíblia tem, em suas páginas, longas listas de genealogias.  É por elas que sabemos que Jesus foi da descendência de David. Trata-se sequências de nomes onde curiosamente, aqui e ali, se dá destaque a uma ou outra pessoa. Por exemplo, fala-se de Enoque, que edificou uma cidade (Génesis 4:17), de Jabal que ”foi o pai dos que habitam em tendas e têm gado” (Génesis 4:20) e do seu irmão Jubal, “pai de todos os que tocam harpa e órgão” (Génesis 4:21), de Tubalcaim como “mestre de toda a obra de cobre e ferro;” (Génesis 4:22), de um outro Enoque onde se refere o seu fim de vida terrena “E andou Enoque com Deus; e não apareceu mais, porquanto Deus para si o tomou.” (Génesis 5:24) e de Aná como alguém que fez uma descoberta importante: “achou as fontes termais no deserto, quando apascentava os jumentos de Zibeão, seu pai.” (Génesis 36:24)

Nos meus anos de criança e jovem, parecia ser tabu falar-se sobre o passado, talvez porque esse passado fora, e o próprio presente era, muito absorvente, marcado por inúmeras dificuldades e carências, que não era bom falar ou, sequer, lembrar. Contudo, este é um tema apaixonante para mim. Não passamos por este mundo por acaso e pode ser muito enriquecedor partilharmos a nossa história. O ser humano é o ponto alto da criação e são valiosos os planos do Criador quanto à nossa passagem por aqui.

Deixo um desafio a quem, como eu, esteja reformado e disponha de tempo de sobra. Seja num caderno ou num computador, escreva acerca do seu percurso de vida e daquilo que sabe sobre os seus antepassados. Relate com minúcia como era a vida naqueles tempos, como se fazia, o que se valorizava, que objectivos se procurava alcançar e de que forma. A simplicidade com que se era feliz ou a forma árdua como se procurava assegurar a subsistência poderá constituir um importante ensino para os mais novos, oferecendo-lhes também informação sobre os seus antecedentes familiares, as suas raízes. Eles irão apreciar muito essa leitura.

Conte também aos seus filhos e netos as muitas bênçãos de Deus, recebidas ao longo dos anos. Algumas delas terão acontecido (muito) antes deles terem nascido, em contextos sociais e culturais diferentes, mas que constituirão um contributo sólido que poderá robustecer a sua fé em Deus. Assim diz o salmista: “Uma geração contará à outra a grandiosidade dos teus feitos; eles anunciarão os teus atos poderosos.” (Salmo 145:4)

Sim, ao longo dos anos, não deveremos esquecer-nos de tudo aquilo que Deus nos fez ver, em muitas expressões do Seu amor por nós, em diversas circunstâncias, e transmitir às gerações seguintes, como Deus ordenou:

“Tão-somente guarda-te a ti mesmo, e guarda bem a tua alma, que não te esqueças daquelas coisas que os teus olhos têm visto, e não se apartem do teu coração todos os dias da tua vida; e as farás saber a teus filhos, e aos filhos de teus filhos.” (Deuteronómio 4:9).

 

 

Carmina Coias
Missionária Aposentada

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