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Mulheres

Ambiente de Natal

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Ambiente de Natal

Naquele dia, a cidade estremeceu com a notícia! Um homem deveras perturbado, conseguira arrastar toda a gente numa onda de indignação. Por aqui e por ali, havia muitas conversas inquietas, impregnadas de agitação e incómodo!

Na verdade, o dia deveria ter sido de celebração, de festa. Era um momento único e especial para toda a humanidade. Tratava-se do primeiro Natal. Contudo, não foi reconhecido e é descrito assim: “E o rei Herodes, ouvindo isto, perturbou-se, e toda Jerusalém com ele.” (Mateus 2:3)

Uns anos mais tarde, um outro homem promove também uma alteração no ambiente de uma cidade. Chama-se Filipe e está em Samaria. Ali ele proclama o evangelho, acontecem autênticos milagres e o resultado é este: “E havia grande alegria naquela cidade.” (Atos 8:8) Um povo em festa!

De igual modo, e ainda hoje, em cada um de nós habitam possibilidades de criar ambientes, seja na nossa casa, no nosso local de trabalho ou até na localidade onde vivemos. E que tipo de atmosfera emocional e espiritual promovemos?

O facto de ser tempo de Natal, por si só, não será suficiente para ditar um clima agradável ao nosso redor. Precisamos de nos assegurar que acima do aroma do bacalhau ou da carne assada, ou dos fritos polvilhados de canela, a fragrância de Cristo se espalha pelo ar, em cada olhar, palavra, gesto. Que para além das luzes que piscam nas gambiarras, a luz de Cristo, clara e pura, é a luminosidade que conduz cada passo.

Neste Natal, conheço famílias em luto. Há outras com o peso de dívidas por pagar. Algumas a tentar refazer-se de um desmoronamento na relação familiar. Outras a saborear uma casa ou um carro novo, ou deliciadas no sorriso do anúncio de um casamento para breve ou de uma nova gravidez.

Sejam quais forem as circunstâncias, precisamos de um Filipe – alguém que conhece a Deus, que é portador da mensagem do Seu amor, que faz borbulhar uma alegria pura no ambiente em que está, onde o poder de Deus tem espaço para se manifestar. Quem poderá “ser” Filipe?

Tu e eu, podemos sê-lo neste Natal, pela Sua graça, seja qual for a ementa, a beleza e delicadeza dos enfeites que decoram a mesa e a sala, o número de pessoas, a dimensão da casa. Para tal, bastará seguirmos o conselho do apóstolo Paulo: “E andai em amor, como também Cristo vos amou, e se entregou a si mesmo por nós, em oferta e sacrifício a Deus, em cheiro suave.” (Efésios 5:2)

Para todas, um Feliz Natal!

Bertina Tomé
Psicóloga, Especialista em Psicologia Clínica e da Saúde, e em Psicologia Comunitária

A Hospitalidade – Lurdes Lima Capucho

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A Hospitalidade

Abri cuidadosamente a toalha bordada sobre a mesa da sala. Depois alisei e ajustei. Decorei-a com um jarro de flores frescas e velas decorativas. Da cozinha, fui trazendo os pratinhos com aperitivos diversos e depois o arroz-doce polvilhado de canela que preparara na noite anterior. Também uma canja quente, acabada de fazer, aguardava os convidados.

Pouco depois, ela chegou do cabeleireiro. Vinha linda, com um penteado que lhe dava um ar ainda mais atraente e distinto e combinava bem com o seu sorriso. No ar havia a excitação própria de um dia especial.

No quarto esperava-a o seu vestido de noiva, de cetim, tule e rendas. Fora eu a fazê-lo e, também por isso, tinha agora um gosto especial em vê-la na elegância que marcava um dia memorável. Vestiu-se e acabou de se aprumar, ficando especialmente atraente. Pouco depois começaram a chegar familiares e amigos, convidados para o seu casamento, em momentos de reencontro e de muita alegria. Uma vez que os seus pais residiam longe dali, escolhera a minha casa como o lugar de onde sairia como noiva para a cerimónia nupcial na igreja. Já tivera esse prazer com duas outras noivas, a quem fizera  igualmente os vestidos.

Esta tem sido uma forma de praticar a hospitalidade, entre outras. Tanto o meu marido como eu temos um grande prazer em receber pessoas na nossa casa e providenciar-lhes uma refeição e um tempo agradável de convívio.

Durante anos, enquanto fui solteira, servi a Deus longe da minha família e foi uma bênção ter junto de mim famílias que me “adoptaram”, recebendo-me frequentemente em suas casas e proporcionando-me um ambiente acolhedor. Hoje, é um privilégio fazer com outros aquilo que fizeram comigo. Recordo-me, especialmente, de uma família numerosa que tantas vezes me recebeu. Mesmo com limitações económicas, tinham sempre um café, um sorriso e uma bolacha para oferecer.

Embora nos empenhemos em oferecer o nosso melhor, não temos a preocupação de possuir algo muito especial para, então, ser hospitaleiros. Não é necessário ter um queijo caro, a melhor fruta ou mesmo a casa “num brinco”. Se estivermos à espera disso, deixaremos passar muitas oportunidades ou talvez nunca cheguemos a receber alguém. Por isso, quando convidamos sempre partimos do princípio de que o importante são as pessoas, não é a casa. Procuramos que cada visitante se sinta à vontade e confortável, saboreando um ambiente de família, seja para uma refeição seja mesmo para passar uns dias.

A conclusão a que temos chegado é a de que, para além de sermos bênção para outros, nós próprios somos abençoados.  “Não vos esqueçais da hospitalidade, porque por ela alguns, não o sabendo, hospedaram anjos.” (Hebreus 13:2) Essas palavras vêem-me à mente quando recordo o convite que, a certa altura, fizemos a duas amigas para virem almoçar a nossa casa. Tanto uma como outra têm familiares a residir muito longe daqui e pensámos que seria uma excelente oportunidade de promover momentos de convívio, com sabor a família. Na véspera do dia combinado, percebi que não estávamos num momento economicamente favorável. Sugeri ao meu marido que cancelássemos o convite. Contudo, ele não sentia que o devêssemos fazer e concordei com ele. Então fui ao frigorífico em busca de uma ideia para a ementa. Tinha peixe cozido, já desfiado. Massada de peixe seria a única possibilidade.

No dia seguinte elas vieram estar connosco, alegremente. Ainda hoje comentam aquela massada de peixe, tão saborosa que lhes ficou na memória, sem que imaginassem então que fora o único recurso.

À despedida, uma delas, para nossa surpresa, deu-nos uma oferta em dinheiro. Sentira-se impelida a fazê-lo e acreditava que fora Deus a dirigi-la nesse sentido. Comovidos, acabámos por contar-lhes toda a história daquela refeição.

Na verdade, Deus presenteia-nos com um leque diverso de bênçãos quando somos hospitaleiros. Concluo, lembrando o conselho bíblico:

“ E não vos esqueçais da beneficência e comunicação, porque com tais sacrifícios Deus se agrada.” (Hebreus 13:16)

Lurdes Lima Capucho
Evangelista

A Caminhada – Cristina Frade

960 461 Aliança Evangélica Portuguesa

Uma escolha pessoal no percurso de vida

Aqueles passeios matinais já faziam parte da nossa rotina familiar durante as férias na praia. A baixa-mar durante a manhã convidava-nos a percorrer o extenso areal, levando-nos a contemplar a beleza do abraço entre o céu e o mar, lá no fundo, na linha quase etérea do horizonte.

Os mais novos aproveitavam aqueles passeios para se aventurarem nas suas descobertas e criações marinhas. Com a água a formar pequenas lagoas, era um regalo vê-los construir aquários, apanhar peixinhos e algas, caçar “monstros marinhos”, como um pequeno polvo que não se deixou apanhar por mais que tenham sido as artes utilizadas.

Numa dessas caminhadas, a assentar os pés firmemente na areia húmida, tive a consciência de como é muito mais fácil caminhar na areia fresca e compacta do que na tórrida areia seca, cujos grãos parecem querer engolir-nos as pernas em cada passo esforçado. Dei comigo a pensar como a nossa caminhada pela vida também é assente no terreno que escolhemos trilhar.

Claro que a companhia que nos incentiva a dar um passo mais além é fundamental para não desistirmos quando vemos a imensidão do areal qua ainda temos de percorrer.

Mas, independentemente da companhia, estou em crer que a nossa decisão sobre a escolha de um ou outro terreno tem um papel ainda mais decisivo nos frutos da nossa vida.

Certa vez Jesus reiterou esta verdade referindo-se à edificação da nossa vida sobre o terreno firme da rocha ou sobre a instabilidade da areia. E a diferença fundamental entre um e outro é precisamente o conhecimento da Palavra de Deus e a sua aplicação à nossa caminhada. (Mateus 7; 24-29)

Essa escolha resultará em bênção para a nossa vida, alegrará o coração de Deus e contribuirá, sem dúvida, para o crescimento do Seu Reino.

É verdade que há momentos em que parece não ser fácil discernir entre o caminho certo e o errado, entre o que conduz à bênção e o que leva à destruição, tanto mais quando olhamos à nossa volta e a mensagem que ouvimos é a de que tudo é legítimo, tudo é relativo, cada indivíduo tem direito a fazer as suas escolhas, não podendo ser criticado desde que não prejudique terceiros.

 

A Bíblia afirma que tudo é lícito mas nem tudo convém. Os estudiosos das Ciências Sociais, por exemplo, referem que na análise social os valores devem ser relativizados pelas práticas – se o aborto é uma prática clandestina, então vamos solucionar o problema, legitimando-o através da criação de um instrumento que faça parecer que quem o pratica não está a cometer um atentado contra Deus, contra o seu próximo e contra si mesmo. Para ser clara, o que se faz é melhorar as condições de saúde e de higiene em que o ato é realizado mas não se atua no sentido de evitá-lo, evidenciando que tal prática é condenável pelo Autor da Vida e que traz um peso atroz sobre quem o faz.

As práticas e caminhos condenáveis pela Palavra de Deus são diversos e não são reprovados por um capricho de Deus mas porque Ele, sendo Todo-Poderoso, vê o que nós não conseguimos ver, não discernindo muitas vezes as consequências dos nossos atos, e porque, tal qual um grande construtor, o nosso Criador tem instruções para o funcionamento e manutenção da nossa vida, as quais, se cumpridas, resultarão em bênção e prosperidade da nossa vida. Por outro lado, o não cumprimento dessas regras iliba o construtor de qualquer mau resultado.

Para terminar, quero partilhar consigo a minha visão sobre esta matéria e aquilo que é o resultado da minha caminhada em terreno firme, tendo por fundamento a Palavra de Deus. Quero dizer-lhe que em todos nós existe um desejo imenso de liberdade mas creia que essa liberdade só é plenamente vivida quando nos encontramos no lugar e no propósito para o qual fomos criados. Só na medida em que conhecemos melhor Aquele que nos criou e buscamos o Seu propósito para a nossa vida é que teremos a certeza plena da nossa realização.

Se sente esta necessidade íntima de se sentir plenamente realizado(a), e se ainda não o fez, experimente colocar-se no propósito de Deus para a sua vida, busque a Sua vontade através da oração e do conhecimento da Sua Palavra. Fazendo isto, encontrará, por certo, o caminho firme e estável que deve trilhar, onde encontrará paz e direção para a sua vida. Faça isto perseverando, aguardando a resposta suave e amorosa de Deus.

“Entrega o teu caminho ao Senhor, confia Nele e Ele tudo fará.” (Salmo 37:5)

 

Cristina Frade
Socióloga

Viver a viuvez – Dois testemunhos

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Cada dia é vivido com o Seu amparo

Olho pelo retrovisor e vejo o carro da polícia com as luzes acesas. Estaciono e, com surpresa, ouço que ia a conduzir acima do limite de velocidade.  Respondo que tenho em casa o marido doente e nunca sei como o irei encontrar. Quase como quem pede desculpa, com sensibilidade o polícia deseja as melhoras do meu marido e vai-se embora.

Este momento retrata um pouco do meu percurso diário de ansiedade com hospitalizações onde passei muitas 24 horas ao lado do meu marido, durante os 5 anos que Deus nos ajudou a atravessar.

 “Missão cumprida” foi o que senti quando, aceitando a oferta do meu filho para ir viver com ele e a sua família, fechei a porta daquele apartamento definitivamente.  Sozinha no caminho da viuvez, começava a nova lição de vida, que só se inicia e aprende quando chega o dia da separação e, para sempre, a “minha casa” deixou de existir.

“Em tudo dai graças.” (I Tessalonicenses 5:16) Este fora, até ali, um versículo difícil de entender. Contudo, sentada ao lado do meu filho naquelas 5 horas de viagem, dei graças a Deus pela presença do meu David, tão necessária naquele tempo de solidão.

A disciplina desta última classe da vida tem sido vencida com a ajuda do Supremo Professor. Cada dia é vivido com o Seu amparo, que Ele vai preenchendo com novas oportunidades e inundando o meu coração com motivos para agradecer. 

Neste percurso de mudanças de cidade, tenho encontrado igrejas onde me tem sido dada oportunidade de participação em actividades, onde ganhei muitos amigos. A minha máquina de costura está a ser útil no departamento de missão da igreja onde senhoras se reúnem para costurar para a missão em África. 

Deus devolveu-me o sabor da “minha casa”, neste quarto onde um novo mundo vem ter comigo. Pelo telefone e pelo computador “visito” amigos em necessidade, dando e recebendo conforto. 

Guardo comigo uma caixa cheia de bilhetinhos de amor, oferecidos pelo meu marido ao longo dos 55 anos do nosso casamento, com gratidão pelo grande homem que Deus pôs na minha vida.

Carmina Coias
Missionária Aposentada

 

Deus convida-nos a dar um passo mais

Foi em Agosto de 1996, que tudo aconteceu. Um acidente vascular cerebral veio pôr fim a um casamento de vinte e quatro anos, interrompendo bruscamente o nosso projecto de vida pessoal e familiar. A tristeza, a saudade, a insegurança e os medos, minaram os meus dias e senti o meu mundo a desabar… 

Dois filhos com a vida em construção, uma empresa em fase de grandes dificuldades e uma carreira profissional a manter, eram então as minhas grandes frentes de luta a par de um objectivo que o meu coração impunha e me fazia mover: conseguir honrar os meus compromissos por forma a dignificar o nome do homem, que tanto amávamos, tanto lutou por nós, tantos sucessos alcançou e que agora, havia partido de forma tão súbita.  Injustiça? Não sei, muitas vezes invejei a sua sorte, pois acredito que desfruta da vida numa dimensão grandiosa e feliz! 

Se todas estas responsabilidades me pressionavam e oprimiam, também me impediam a entrega a um luto desmedido. Era preciso arregaçar as mangas, tomar decisões, procurar soluções e estratégias, bem como reunir os recursos ainda existentes, sem margem para  desistências ou desnorteios. 

Foi então que constatei que era tanto, mas tanto, o que ainda me restava. O meu coração encheu-se de gratidão e a alegria de viver renascia em cada dia:  pela provisão de Deus à minha vida, pelos familiares e amigos que Deus usou como anjos acampados ao meu redor, pelas promessas de Deus, pelo alento e orientação que, em cada dia, emanavam da Sua Palavra e que, até hoje, têm sustentado e norteado a minha vida. 

Decorrido este tempo aprendi o valor de uma fé experimentada, aprendi como Deus nos convida sempre a dar um passo mais, a olhar com verdade a nossa vida e a apresentá-la, genuinamente, diante dos Seus olhos. Constatei que a Sua presença é real e permanente e que nada conseguimos apenas pela força do nosso braço, mas pela sua graça em nós – A caminhada é possível, a Deus toda a glória! 

“Nós pomos a esperança no Senhor; é Ele quem nos ajuda e protege!” (Salmos 33:20)

Ana Maria Machado Inácio

Prendas Reveladas – Bertina Coias Tomé

960 637 Aliança Evangélica Portuguesa

“Então, não desembrulhas?”

“Ah, pois, está bem. Querem que desembrulhe agora?”

“Sim, é para vermos!”

Retiro cuidadosamente a fita e o papel colorido, perante os seus olhares curiosos. E aí está a prenda que me foi amavelmente oferecida por alguém e que desperta sorrisos e comentários prazenteiros.

Esta situação tem acontecido diversas vezes. Porque não me desembaraço do papel de imediato, e revelo o que ganhei? Habitualmente não chego a explicar o motivo mas é ainda evidência de um hábito que trago comigo dos tempos de Macau. Lá, entre a população chinesa e macaense, não se abre um presente logo após ter sido recebido. Fazê-lo é sinal de grande indelicadeza. Agradece-se e coloca-se o embrulho colorido junto dos outros, num local definido para tal. Só depois de os convidados se terem retirado, concluída a festa, se procede à abertura das prendas, apenas no seio da família chegada. Subjaz a esta prática um importante sentido de respeito: evitar circunstâncias de algum embaraço para aquelas pessoas que, por limitações económicas, tenham oferecido algo mais modesto que, de outro modo, se veriam expostas perante os demais convidados.

Aquilo que oferecemos a Deus é, frequente e inevitavelmente, desembrulhado diante dos homens. Temos o exemplo da mulher que derramou sobre Jesus um unguento de nardo puro. Como uma oferta que era, ela não falou em preço. Contudo, houve logo quem fizesse as contas: valeria uns 300 dinheiros, por certo. Uma prenda cara demais, comentou alguém (João 12:4,5).  E Jesus interveio de imediato: “Deixa-a; para o dia da minha preparação para a sepultura o guardou (João 12:7).

Noutra ocasião, junto à arca do tesouro, era possível observar aquilo que cada um ia lançando como oferta a Deus. Havia pessoas de condição abastada que ofertavam grandes quantias. A meio daquele fluxo de gente vem uma viúva de condição muito modesta que deita duas moedas que valiam cinco réis. Tão pouco, diria alguém. Prenda desembrulhada.

Jesus assegurou aos seus discípulos que aquela mulher dera mais que todos. Ficou logo claro que o critério de avaliação de Jesus era outro. E explicou: “… da sua pobreza deitou tudo o que tinha, todo o seu sustento.” (Marcos 12:44). Daí o valor.

Muito do que oferecemos a Deus poderá ser “à moda chinesa”, isto é, discretamente, sendo só Ele a conhecer o conteúdo. A mão esquerda não saberá o que ofereceu a mão direita.

Outras vezes, contudo, não há como evitar que se torne conhecido aquilo que fazemos para Deus, que lhe oferecemos em louvor e em adoração, em serviço para Ele e em favor de outros. São os nossos vasos de alabastro e as nossas moedas de cobre.

Qual será a atitude de outros quando observam a prenda desembrulhada?

Ao longo da sua vida, Moody ofereceu ao Senhor um intenso trabalho de evangelismo. Certa vez, ao observá-lo, uma senhora acabou por criticar: “Sr. Moody, não gosto da maneira como faz o evangelismo.” Em resposta, Moody disse-lhe: “Eu também nem sempre o aprecio necessariamente. Diga-me, como é que a senhora faz?” “Oh, eu não faço evangelismo.”, foi a resposta. “Bem,” disse Moody, “eu gosto mais da maneira como eu o faço do que da maneira que a senhora não o faz.”

O olhar de Deus sobre a nossa vida é o mais importante de tudo. Ele observa as nossas dádivas como mais ninguém saberia fazer. Atribui-lhes o real valor, por vezes tão distante daquele que os homens lhe reconhecem. Talvez muito maior. Por vezes, muito menor.

Algumas ofertas chegar-lhe-ão em segredo. Serão a Suas Mãos, apenas elas, a revelar. Exemplo disso temos na oração, no jejum ou na dádiva referidas por Jesus em S. Mateus 6:1-6.

Outras serão, inevitavelmente, desembrulhadas diante dos homens. Contudo, não deixemos de oferecer por esse motivo. Não percamos de vista que o destinatário é, igualmente, Ele. Maior que qualquer crítica, incompreensão ou o silêncio enigmático de outros, contará a graça de podermos ofertar-lhe alguma coisa, de saber que O servimos e de aí depositarmos todas as nossas expectativas.

Ofereçamos-Lhe o melhor que tivermos, que soubermos, que formos. Coloquemos o nosso presente, humildemente, nas Suas mãos, feridas por amor a nós. E saibamos deleitar-nos no Seu sorriso.

“De todos os vossos dons oferecereis toda a oferta alçada do Senhor: do melhor deles, a sua santa parte. (…) como a novidade da eira e como novidade do lagar.” Números 18:29,30

 

 

Bertina Coias Tomé
Psicóloga, Especialista em Psicologia Clínica e da Saúde e Psicologia Comunitária

“E viveram felizes para sempre…” – Alina Carvalho Carreiro

960 640 Aliança Evangélica Portuguesa

Esta frase, tão comum no final dos contos de fadas, traz em si a expectativa de coisas boas e perfeitas para a vida de casados: harmonia constante, nada de lutas financeiras ou emocionais, muita saúde e alguns filhos para alegrar a casa!

Ao casar-me, era isso o que eu desejava… Mas tenho que reconhecer que, actualmente, essa frase tem para mim um significado bem diferente…

De todas aquelas condições por mim sonhadas, a única que vejo preenchida, após tantos anos de casamento, é a que se refere ao meu marido, Vanderli, companheiro sempre presente em todas as situações.

Quanto à vida tranquila, sem lutas ou pressões, a saúde perfeita, os recursos materiais sempre disponíveis… Ora, isso não faz parte do mundo real, em que cada desafio deve se constituir nas oportunidades necessárias ao nosso crescimento e consequente fortalecimento. E se já seguimos o exemplo do salmista, que disse ao Senhor Deus: “Nas Tuas mãos estão os meus dias…” (Salmo 31:15), então não há que temer, pois a cada luta vêm-nos as forças que nos permitem sair vitoriosas.

Mas, e quanto aos filhos? Não é isso o que se espera, que um casal complete a sua felicidade gerando e criando filhos, por meio dos quais venha a perpetuar a sua família?

Para nós, esta foi uma decisão natural. Habituados a viver em famílias numerosas (Vanderli tem dez irmãos, e eu tenho cinco), não nos poderíamos imaginar sem crianças à volta.

Por isso, à medida que o tempo passava, saímos em busca das soluções para o aparente problema da infertilidade. Foram muitos exames, tratamentos diversos, consultas com especialistas, na expectativa de um bom resultado. Em todo o tempo, o Vanderli esteve comigo, apoiando-me e também submetendo-se ao processo, quando necessário. Mas nada acontecia que indicasse a solução do problema.

Para mim, o mais difícil nesse período foi entender o que Deus realmente queria. Embora uma criança fosse muito desejada, custava-me pensar que eu poderia estar a insistir em algo que não fizesse parte dos propósitos de Deus para a minha vida. Às vezes retraía-me diante de uma nova tarefa, porque considerava: “E se eu engravidar? Como vou dar conta deste novo trabalho?”

Por outro lado, deparávamo-nos com as cobranças contínuas: “E então, quando chega essa criança?” Algumas vezes a intenção era boa, de pessoas preocupadas em que estivéssemos a deixar passar o momento ideal para criar os filhos. Outras vezes, éramos feridos por comentários menos bondosos. E o tempo passava… e nada acontecia…

Após uns quinze anos de casados, fui a uma consulta ginecológica de rotina, num hospital muito conceituado. O médico que me atendeu, então, insistiu em que eu marcasse uma consulta na nova Unidade de Esterilidade, para uma avaliação.

Concordei, e compareci àquela consulta, munida de todos os exames e laudos recebidos, ao longo de todo o tempo em que tentara engravidar. A médica, muito atenciosa, conferiu as informações e explicou: “Realmente, você tem seguido o caminho certo, para engravidar. Porém, se vier tratar-se connosco, deverá voltar a fazer estes exames, através do nosso Centro Médico, para conferirmos se há alguma alteração”.

Pedi-lhe um tempo para pensar e fui para casa. Passei uma semana orando e conversando com o Vanderli sobre o assunto. Sobretudo, desejávamos que a paz do Senhor acalmasse os nossos corações, com a decisão que viéssemos a tomar. E foi assim que retornei à médica resolvida a não seguir adiante com o novo tratamento.

Contudo, houve uma condição que coloquei perante o Senhor, caso Ele me mostrasse que não deveria continuar a tentar engravidar: eu desejava sentir-me realizada, completa, independentemente dessa privação dos filhos. Que eu nunca me entristecesse com a alegria daquelas que geram e criam seus filhos, que eu não me considerasse diminuída por não ser mãe, que eu não limitasse o meu afeto pelas crianças, pelo facto de não ter um filho meu… E que soubesse aproveitar todas as oportunidades decorrentes dessa condição, tanto para testemunhar como para empregar o meu esforço e energia no Seu serviço.

E como no plano de Deus não há falhas, e a Sua vontade é boa, agradável e perfeita (Romanos 12.2), eu tenho experimentado alegrias a cada dia, ao depositar diante do Senhor os meus sonhos, expectativas e realizações. O ministério que Ele me tem permitido desenvolver, ao lado do Vanderli, trouxe-nos tantos “filhos e netos”, que de maneira alguma nos sentimos sós!

Portanto, deixo-lhe um desafio. Aprenda a orar como Davi: “Tu és o meu Deus, outro bem não possuo senão a Ti somente” (Salmo 16:2). Deus é o Bem maior. Esta convicção a ajudará a superar as eventuais perdas da vida – a doença inesperada, o marido que se vai, o dinheiro que é pouco, os filhos que não apoiam, o emprego que falhou e o mais que possa pensar. Quando o maior afeto do seu coração for o Senhor, ainda que tudo se venha a perder, o Senhor nunca lhe será tirado. Dele você receberá a vida abundante, que fará com que os seus dias sejam plenos de significado (João 10.10).

O apóstolo Paulo enumerou uma série de situações que, embora graves e desgastantes, são incapazes de nos afastar do amor de Deus, revelado em Cristo Jesus, o nosso amado Salvador: “Porque estou certo de que nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as potestades, nem o presente, nem o porvir, nem a altura, nem a profundidade, nem alguma outra criatura nos poderá separar do amor de Deus, que está em Cristo Jesus nosso Senhor” (Romanos 8.38,39).

E nessa confiança, envolvidos pelo imenso amor de Deus, o Vanderli e eu temos vivido “felizes para sempre…”

 

 

Alina Carvalho Carreiro
Professora de Educação Cristã e de Música

O poder de Deus aperfeiçoa-se na tua fraqueza – Celeste Farinha

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Quando fui convidada a escrever este artigo, a minha resposta imediata, mas graças a Deus silenciosa, foi: não. Poucos minutos depois, recebi uma mensagem do meu local de trabalho a informar-me que daí a cinco dias eu teria uma formação para dar nos escritórios centrais a um grupo de colegas, na sua maioria desconhecidos. O foco das palestras fora construído a pensar na função e nos desafios com que nos deparamos no dia-a-dia, no nosso local de trabalho. Reclamei: “Pensam que eu não tenho problemas suficientes”? Orei: “Senhor, sou tua filha, sirvo-te fielmente e estou com tantas situações a atribular-me e agora ainda tenho que ir falar de coisas das quais me sinto vazia.” Senti-me subcarregada, frágil e cansada tinha até vontade de chorar, e foi aqui que o Senhor me deu o tema para este artigo e eu nem tinha como dizer não.

Eu senti que estava a ser o terreno fértil para o Senhor fazer algumas mudanças em mim antes que eu fosse tentar ajudar alguém. Provérbios 24:10 diz que se eu me mostrar frouxa no dia da angústia, a minha força será pequena.

Às vezes, como cristãos, achamos que não temos que passar por problemas e reclamamos contra Deus, e ainda somos ousados ao ponto de, quando um irmão nosso está a passar dificuldade, pensar que provavelmente ele não estará a ser fiel a Deus. Quando a nossa primeira filha faleceu, uma senhora crente veio visitar-me e a determinada altura perguntou-me se eu podia confidenciar-lhe aonde foi que eu pequei para que Deus me fizesse aquilo.

Os cristãos devem sofrer ou estar isentos de problemas? Se eu tivesse todo o dinheiro do mundo, será que eu poderia fazer os problemas desaparecer? A verdade é que vivemos num mundo caído e sempre teremos problemas. Todos enfrentamos problemas. A boa notícia é que o nosso Deus é maior que os nossos problemas. Uma coisa que descobri é que quando eu não estou a tratar de problemas meus, eu estou a tentar resolver os de outra pessoa.

Jesus foi perfeito e sem pecado mas, pelo facto de ter vindo viver num mundo caído, Ele enfrentou uma série de desafios com os quais teve que lidar. A notícia fantástica é que Jesus conquistou e superou todos os problemas que podemos imaginar (João 16:33). Gosto de chamar desafios aos problemas, sinto-me mais corajosa para os enfrentar, e são realmente desafios. Jesus não estava imune aos problemas e desafios da vida. Ele foi tentado, testado, acusado, traído.

Há um provérbio Indiano que diz que águas calmas não produzem bons marinheiros. Aceitar os desafios, sabendo que maior é o que está em nós do que aquele que está no mundo, fortalece-nos. Quando eu olho para trás e vejo como o Senhor, ao longo destes anos, agiu e tem agido na minha vida em situações tão difíceis, eu sinto-me privilegiada e mais forte. Sinto-me importante, uma personagem principal no filme real desta vida, e sei que a história sempre acaba bem.

Existem crentes modernos que procuram uma vida cristã livre de problemas. Jesus, os apóstolos e, mais tarde, os discípulos ensinaram que a enfase é aceitar as tribulações em harmonia e confiança com o Nosso Senhor.

Sempre que somos capazes de colocar o Senhor como o nosso companheiro número um nos grandes desafios, eles vão produzir crescimento e fortalecimento espiritual.
Hoje, nas mensagens que recebo diariamente no WhatsApp, estava uma que dizia: “Nunca deixes de acreditar em dias melhores, porque milagres acontecem todos os dias.” É claro que isto é bonito de ler e não tenho qualquer dúvida que me foi enviada cheia de amor, mas olhemos só o que diz a palavra de Deus: “Meus irmãos, tende por motivo de toda a alegria o passardes por várias provações.” (Tiago 1:2) É verdade, mesmo. o Senhor dá-nos paz, dá-nos crescimento e deixa-nos ver o Seu poder a agir em nós. Neste momento, um sem-número de situações veio à minha mente em que o Senhor me deixou passar por situações muito complicadas e me mostrou resultados tão lindos e edificantes.

“E não somente isto, mas também nos gloriamos nas tribulações, sabendo que a tribulação produz paciência e a paciência a experiência; e a experiência a esperança e a esperança não traz confusão, porque o amor de Deus está derramado no nosso coração pelo Espírito Santo que nos foi dado.” (Romanos 5:3-5) Algumas versões dizem que as tribulações produzem perseverança e a perseverança produz carácter. Deus quer moldar o nosso carácter para sermos mais como o Seu Filho.

Há uns anos atrás, quando o meu marido e eu preparávamos as coisas para irmos para o campo missionário na Namíbia, eu comecei a ler algumas coisas sobre o país e li acerca das “Black Mamba” que proliferavam no Norte. Senti calafrios, porque íamos exatamente para o Norte e levávamos as nossas filhas ainda tão pequeninas e iríamos viver numa caravana. Orei, manifestando os meus medos ao Senhor. Naquela altura usávamos uma ajuda para o nosso devocional “O nosso Pão Diário”. O assunto naquele dia tinha a ver com segurança em Jesus. No rodapé do devocional estava escrito o seguinte pensamento: “Segurança não é viver na ausência do perigo, mas no meio do perigo com a presença de Deus.” Imediatamente, eu traduzi para mim: segurança não é viver onde não há cobras, mas no meio das cobras com a presença de Deus. Isto foi tão real. Cheguei a ver algumas no nosso quintal, mas nunca fomos atingidos.

Problemas sempre os teremos mas precisamos de aprender a viver os problemas com a presença de Deus. Será bastante proveitoso também aprendermos com os que enfrentaram a vida com coragem e saíram vitoriosos.

David suportou a fúria de um rei, ataques dos inimigos, o roubo da família. É visível a angústia emocional em alguns Salmos que escreveu. Contudo, nada disso destruiu a seu relacionamento com Deus. No Salmo 27:1 ele revela que a sua força vem de Deus e por isso ele não tem medo de nada.

Job sofreu tanto, e não sabia porque é que aquilo lhe estava a acontecer. (Job 3:3, 11). Mesmo assim, ele manteve-se íntegro e fiel ao Senhor. Augusto Cury, no seu livro “Treinando a emoção para ser feliz” escreveu algo espetacular: “Ser feliz não é ter uma vida perfeita; ser feliz é reconhecer que vale a pena viver, apesar de tantos desafios, perdas e frustrações; ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas e tornar-se o autor da própria história.”

Estamos cá para um propósito que vale a pena. Ninguém chegou a este mundo por engano. Podemos não ter chegado da forma que Deus queria mas a Palavra de Deus diz-nos que antes de sermos formados Ele já nos amava. (Salmo 139).

O nosso Senhor providenciou muitas ajudas para enfrentarmos com coragem os desafios atuais. Precisamos de estar alerta, olhar como foi que outros corajosos servos de Deus antes de nós já venceram e fizeram impacto no nosso mundo. Podemos imitá-los e podemos depois dizer como o apóstolo Paulo: Somos derrubados mas não destruídos. Não desistimos e seremos renovados. (2 Coríntios 4:9,16)

 

Celeste Farinha
Auxiliar de Acção Médica

Perda, Perdão e Liberdade – Lídia Pereira

960 720 Aliança Evangélica Portuguesa

Na caixa do correio, uma notificação do Tribunal da cidade. Sem perceber o porquê e, muito menos, o para quê do meu nome como destinatária, foi com surpresa que verifiquei tratar-se do assunto que transformara, havia bastante tempo, um prometedor fim de tarde de verão em grande tristeza.

Estacionara o automóvel, por poucos minutos. Terminara a minha missão de apoio aos netos deixando-os em casa dos pais e voltara, feliz, depois das despedidas feitas de sorrisos e beijos. Assim acontecia, em cada tarde com as novidades que me contavam e a alegria, sempre renovada, pelo encontro com a mãe que esperava os seus meninos com um abraço sem fim.

Ao regressar ao carro uma surpresa me aguardava: o vidro duma janela estilhaçado na rua e o desaparecimento da minha bolsa, a habitual mala das senhoras que tudo tem dentro.

“Não posso acreditar!” foram as minhas palavras, numa sensação mista de pesadelo ou sonho, de aflição e incredulidade pelo que acontecera em tão pouco tempo, proporcionado pela  minha lamentável  imprevidência de a ter deixado à vista.

… E veio a Polícia e alguns vizinhos, e o desapontamento dentro de mim era enorme, como se me sobrassem mãos para segurar o vazio das chaves de casa, do telemóvel, da carteira com os documentos bancários e de identificação e algum (bastante) dinheiro.

Caiu a noite. O automóvel foi deixado num local resguardado para poder ser objecto de perícia que pudesse detectar a presença de impressões digitais.

Como foi possível isto acontecer? Tantas vezes sabemos de acontecimentos destes  e de outros, incomparáveis na sua gravidade e consequências.  Tentando relativizar o meu desgosto, não podia deixar de me sentir invadida por alguém que, sem escrúpulos, se apoderou do que não lhe pertencia, causando-me tanto prejuízo.

Quem seria o ladrão? Fora hábil, rápido e astuto para conseguir os seus intentos numa rua com tanto trânsito! “Estas coisas são muito frequentes”, “não são apanhados”, “é melhor cancelar os cartões bancários” “não merecem perdão” – eram vozes desconhecidas que, ao invés de me confortarem, só aumentavam a minha sensação de perda.

Nas mãos que ficaram vazias naquele fim de tarde tinha, agora, a informação de que fora identificado e preso o autor do roubo que sofri e estava a ser convocada para me apresentar no seu julgamento. Finalmente a justiça puniria o causador dos prejuízos materiais elevados, já que os morais e emocionais não o poderiam ser.

No dia e hora marcados, ali estava perto da Sala de Audiência, observando, com muito respeito e maior curiosidade, todos os movimentos de funcionários que passavam, em passo rápido, carregando as suas pastas.

À minha chamada, dirigi-me à porta que se abrira: à sua direita, três vultos que vi sem olhar e, nos respectivos lugares, as restantes entidades que compõem um julgamento. Era uma sala pequena de que gostei, por não me sentir intimidada, muito diferente do que imaginara pelas imagens vistas em filmes.

Num pequeno púlpito fiquei em pé. Várias e insistentes perguntas me foram feitas para que descrevesse o que se passara mas uma, a que recordo com nitidez, foi a que, pedindo que me virasse para trás, dissesse se alguma vez vira aquele homem, ladeado por dois agentes da autoridade.

Senti um choque muito grande: um jovem magro, de olhos claros e vazios, rosto envelhecido, olhava-me com curiosidade, frágil e indefeso, num olhar que nunca  esquecerei!  Um misto de solidão e hábito, pobre e desvalido, tentando encontrar na memória desgastada alguma imagem de mim.

Deixara registadas impressões digitais no roubo que cometera. Com esse facto foi confrontado pela Juíza que presidia ao julgamento. Respondeu que não se lembrava desse acontecimento: voltara ao vício da droga depois de um tratamento e, quando isso acontecia, sempre se afundava mais.

À pergunta que me foi feita, se queria ser ressarcida do prejuízo que sofrera, fui invadida por um sentimento de grande compaixão por aquele pobre homem e pelas suas circunstâncias. Veio à minha mente o perdão que Jesus nos oferece quando falhamos e a certeza de uma nova vida quando, arrependidos, O recebemos como Senhor e Deus.

“Nada quero receber” – respondi. “Apenas, e se me for permitido, dizer a este jovem umas palavras: que fale com Deus na sua solidão, procure ajuda de alguém que o encaminhe nessa busca, e experimente ser uma nova criatura com a Sua ajuda, ciente do Seu Amor para com ele, pronto para o ajudar num novo recomeço.” O que lhe estava dizendo já vira acontecer noutras pessoas prisioneiras do mesmo drama. Estava a falar-lhe duma realidade e não duma utopia.

Pediu-me perdão, assim como ao tribunal, e agradeceu.

Pela Dra. Juíza foi aconselhado a lembrar-se, em algum momento da sua vida, das palavras sábias que ouvira. E acrescentou:

– “Está livre! Pode ir buscar as suas coisas (à prisão de onde fora trazido para o julgamento), porque está livre”.

Respirou-se um ar de alívio em toda a sala. A defensora oficiosa enxugou as lágrimas. Os polícias que o ladeavam afastaram-se e tive oportunidade de o cumprimentar.

“… não têm perdão…” ecoava na minha mente uma das frases ouvidas naquele anoitecer tão triste para mim…

No regresso à vida em liberdade, era imensa a minha gratidão pela oportunidade de  poder ter  reflectido  o  AMOR de DEUS na  minha vida e compreender, duma forma tão real,  o valor do perdão que  liberta da mágoa quem o oferece e, neste caso, deu liberdade à vida que o recebeu.

No meu coração e na minha mente, o eco das palavras do meu Salvador e amado Jesus quando ensinava como orar: “… e perdoa as nossas ofensas assim como nós perdoamos aos que nos têm ofendido!”

O sol brilhava, os meus passos tornaram-se mais leves, o amor tornou-se a nota dominante da música que tocava na minha alma e fiz uma das mais sinceras orações da minha vida: “Obrigada, Senhor”.

 

 

Lídia Pereira

Gestora de Recursos Humanos e Administrativos
Aposentada

A Minha Casa – Catarina Borrego

960 626 Aliança Evangélica Portuguesa

Organização. Uma palavra tão amada por uns e tão odiada por outros. Ela define a forma como se dispõe um sistema para atingir os resultados pretendidos. Eu sou uma pessoa organizada – ou gosto de pensar que sim. Desde as finanças, às férias, às refeições de cada dia, não há nada que escape às minhas intermináveis listas. Organizar a minha vida permite-me viver sem stress, sem grandes correrias por falta de tempo… Talvez se identifique comigo: a sua agenda é a sua melhor amiga; ou talvez ache que organização retira a espontaneidade do dia-a-dia e não é algo que faz parte da sua maneira de ser. Contudo, só por hoje, ouça o que tenho para lhe falar acerca de organização.

De todos os tipos de organização, sem dúvida que a da casa é a minha preferida. A nossa casa é o nosso refúgio, ao fim de um dia difícil no trabalho, é lugar de celebrações da família, é abrigo em dia de temporal… Mais do que quatro paredes – é um lar. As nossas casas muitas vezes refletem a nossa vida, sabia? Casas desorganizadas, vidas desorganizadas… Como é que está a sua “casa”?

Hoje não lavo a louça. Fica para amanhã. Amanhã também é dia! Ninguém morre por eu não lavar a louça hoje. Conhece esta lenga-lenga? Vá lá, confesse – também já disse isto. Foi só uma vez. Ou duas. Todas nós já dissemos (e fizemos) isto – até aquelas que são donas de casa perfeitas: aquelas! Têm o chão tão bem lavado que parece um espelho. Sim. Todas.

Sinceramente, todos nós somos seres um pouco desorganizados, andamos muitas vezes no ritmo “deixa para amanhã, para quê fazer hoje?!”.

Eu não sou excepção, um dia não são dias. Porém, se a excepção é a regra na sua casa… Bem, então aí, alguma coisa não pode estar bem. A verdade é que, quer gostemos quer não, a nossa casa diz muito sobre nós mesmos. Casas desorganizadas, vidas desorganizadas.

Pronto, respire fundo. Eu sei que acabou de pensar no armário dos seus filhos. Tenha calma. Nada está perdido – basta começar. Um passo de cada vez, um dia de cada vez. Talvez a sua casa não esteja no seu melhor, talvez a sua vida não esteja no seu melhor, mas o que é importante é que vamos sempre a tempo de mudar. E mudar para melhor.

Eu sou muito organizada (ou gosto de pensar que sim): tento manter a casa funcional, faço listas para tudo e mais alguma coisa, tenho a minha agenda sempre à mão. No fundo, acredito que vivemos melhor, mais felizes, num mundo organizado.

Por exemplo, eu não passo horas à procura da lima das unhas, da última factura da água, ou de um gancho para pôr no cabelo das miúdas: cá em casa, tudo tem o seu sítio certo para estar guardado. E isto permite que o dia flua com mais facilidade, não perdemos tempo – que hoje em dia é tão precioso – porque a verdade, é que o dia passa demasiado a correr. Ou como diria Pitágoras “Com organização e tempo, acha-se o segredo de fazer tudo e bem feito”.

E depois, porque a nossa casa deve ser o nosso refúgio: o cantinho que desejamos encontrar no final de um dia difícil, onde podemos relaxar e estar com aqueles que mais amamos e que mais nos amam. E cuidar da nossa casa, no fundo, é cuidar da nossa família – é uma forma de mostrar o nosso amor por eles.

Como começar, pergunta? Muito fácil. Basta limpar e arrumar tudo no próximo sábado. Pois… Não é bem assim. O problema da organização é igual ao de fazer dieta: perder peso é fácil, o difícil é manter! Ser organizada é um processo e é, antes de mais, uma questão de atitude.

Por isso, vá com calma. Ninguém espera que seja uma super-heroína, e mude de um dia para o outro mas, para ser mais fácil, deixo aqui ideias para ajudar o processo:

10 Dicas Para Começar o Processo de Organização

  • Lixo não se organiza. Se está velho, estragado ou não usa – deite fora ou doe. Está apenas a ocupar espaço.
  • As caixas são nossas amigas. Divisórias para as gavetas, caixas para os sapatos, gavetas de plástico para a despensa: quanto mais dividido estiver um espaço, mais bem aproveitado é.
  • Entra novo, sai velho. Se comprou uns casacos novos, então está na altura de se desfazer dos antigos. E isto funciona para tudo: tupperwares, sapatos, revistas (com excepção do marido).
  • A minha agenda. Não confie apenas na sua memória. Agendar eventos, aniversários, viagens, permite-nos planear com antecedência.
  • A jarra da tia. Se não gosta da jarra, se não fica bem com a decoração, mas guarda por recordação de quem ofereceu: tire uma foto à jarra e a seguir pode doá-la. Nunca mais vai se esquecer da jarra. Nem da tia.
  • Faça a cama. Uma cama feita, é 70% do quarto arrumado.
  • Lave a colher. Eu sei. É só uma colher. Mas 1 colher demora 1 minuto a lavar. 20 colheres demoram… Muito mais tempo.
  • 2 horas para limpar a casa. No mínimo, por semana, reserve duas horas para limpar casa – limpar o pó, aspirar e lavar o chão, lavar wc e cozinha. Depois, no dia-a-dia é só manter, e assim nunca tem a casa muito suja.
  • Famílias unidas. Toda a família deve ajudar a manter a casa. Delegue tarefas. Cada um a cumprir a sua parte, facilita o todo.
  • Planeie o dia seguinte. Não custa nada: um papel, uma caneta, e escreva tudo o que tem para fazer no dia seguinte, incluindo o que vai fazer de jantar e levar para o lanche dos miúdos. Garanto-lhe que vai começar o dia seguinte com muito menos stress.

Um pequeno passo para si. Um grande passo para a harmonia no seu lar.

Comece hoje. Em primeiro lugar, por si – você merece, depois pela sua família – eles são terríveis, eu sei, mas não há ninguém que você ame mais, e em terceiro lugar por Aquele que tudo criou com ordem e perfeição – em tudo devemos dar a nossa excelência e o nosso melhor.

Contudo, existe uma outra casa… Pense comigo sobre o que a Bíblia fala acerca de uma “casa” muito especial: “Vocês não sabem que são santuário de Deus e que o Espírito de Deus habita em vocês? Se alguém destruir o santuário de Deus, Deus o destruirá; pois o santuário de Deus, que são vocês, é sagrado” 1Coríntios 3:16-17. Sim, somos a casa onde Deus habita. Quando Jesus morreu e ressuscitou, Ele abriu caminho para que todos possam ter contacto direto com Deus, em qualquer lugar. Quem aceita Jesus como salvador recebe o Espírito Santo, que faz morada dentro dele “Respondeu Jesus: Se alguém me ama, obedecerá à minha palavra. Meu Pai o amará, nós viremos a ele e faremos morada nele” João 14:23.

 

Deus já entrou na sua casa. Mas será que o deixou passar do corredor? Todas as divisões precisam de ser “arrumadas e limpas”. Deixe-O entrar, organizar…

Comece pelas fundações, na cave, e deixe que Deus lhe mostre onde a confiança começa. A sua Fé será o seu alicerce mais importante.

Suba as escadas e abra a porta da sala de estar, ao fim do corredor. Ajeite as almofadas, sente-se à lareira e disfrute da presença de Deus, onde Ele lhe poderá contar, através da Sua Palavra, tudo o que já fez no passado, desde a criação do mundo até Jesus. Com a Bíblia nas mãos, ponha os pés para cima do sofá e descubra quem Deus é.

Agora, no quarto, arranja as cortinas, coloca uma colcha bonita e limpa… Chegou o momento de uma conversa privada… Em que você fala, pede, agradece e Deus responde. É lugar de partilha. É lugar de oração.

Mais um pouco, e chegámos à cozinha. Deixe de petiscar à pressa.  Sente-se à mesa para desfrutar de uma mesa farta que Deus preparou para si: bênçãos, milagres, sonhos, novos projectos… Deus tem a refeição completa pronta para si.

E por fim, cheguem juntos ao telhado: veja tantas outras casas ao seu redor. Casas a perder de vista. Casas que precisam de “organização”. Casas que precisam de Jesus. Casas que precisam da sua ajuda para se tornarem um lar.

 

Catarina Borrego
Assistente Pastoral

Não Deixes De Agir! – Marta Correia

960 720 Aliança Evangélica Portuguesa

Já te aconteceu ires a uma loja e, quando chegas a casa, vês que te enganaram no troco? Como é que te sentiste? Enganada? Defraudada? Roubada?

Ainda no outro dia, paguei o bilhete do autocarro para ir de uma cidade para outra, aqui no Gana, e o senhor disse para eu me sentar que já me dava o troco. O autocarro saiu e, apesar de me terem dito que me iam dar o troco, não me deram. O motorista disse-me que ele não era responsável e, como um vidro que se despedaça… Senti-me roubada, defraudada, enganada.

Um amigo conduzia um carro num dos países africanos onde o abuso policial é uma realidade. Ainda que ele não fosse a conduzir a mais de 40km/h, a fotografia claramente editada pela polícia mostrava uma velocidade superior a 75km/h! Que injustiça!

Noutro país africano, uma menina é violada no meio da rua. Não obstante o facto de ter sido apresentada queixa, a polícia diz que não pode fazer nada porque não tem dinheiro para o combustível. No entanto, a casa onde o crime ocorreu encontra-se a apenas 50 metros de distância. Consegues entender a frustração desta menina, dos seus pais?

As estatísticas da Organização Mundial de Trabalho indicam haver mais de 40 milhões de pessoas em situação de exploração ou escravatura moderna.

Já imaginaste quão roubadas, defraudadas, enganadas, injustiçadas, frustradas essas pessoas se devem estar a sentir? Muitas delas encontram-se em completa escuridão, violadas, roubadas da dignidade humana, em cativeiro, algemadas e privadas de liberdade, forçadas a trabalhar de sol a sol sem salário ou a satisfazer mais de 30 homens por noite… E acontece à nossa volta.

Qual é, então, o nosso papel, a nossa responsabilidade perante tal opressão? Perante tamanha injustiça?

No tear das nossas vidas, o Artesão fia cada momento da nossa história através do encontro dos fios horizontais e verticais. Se os fios horizontais são as nossas características pessoais, já os fios verticais são as características de Deus: compaixão, bondade, fidelidade, graça, justiça, entre outras.

Se retirarmos um dos fios verticais, por exemplo a justiça, o tecido vai ficar imperfeito. Da mesma forma, a nossa vida ficaria imperfeita sem justiça para connosco e para os outros à nossa volta.

Quando pensamos em pobreza, rapidamente pensamos em fome, doenças, sem-abrigo, analfabetismo, água suja e falta de educação, mas apenas uma minoria iria relacionar pobreza com violência sexual, trabalho forçado, detenção ilegal, roubo de terras, agressão, abuso policial e opressão a que os mais pobres estão sujeitos.

Conheci a Elsa* num abrigo de crianças. Ela foi vendida pelo pai quando tinha 4 anos e resgatada dos seus traficantes após mais de 10 anos de abusos. Quando, em tribunal e perante os seus opressores a Elsa teve que relatar o que lhe tinha sucedido, o advogado de defesa alegava que ela estava a mentir. Foi assim que, aquela menina, com lágrimas a correrem pela face e de pulso cerrado (onde guardava uma pequena moeda), corajosamente ergueu a sua voz e respondeu ao juiz que estava a dizer a verdade.

Estivemos ao seu lado durante todo este processo por forma a restaurar o seu tear, especialmente o fio da justiça e esperança de restauração de uma vida quebrantada.

Continuamos a lutar para que a sentença contra os transgressores seja pesada e sirva de exemplo para deter outros na mesma comunidade de cometerem crimes idênticos.

Estudos confirmam que a maioria das pessoas pobres vive fora da proteção da lei. De facto, os sistemas de justiça no mundo em desenvolvimento tornam os pobres mais pobres e menos seguros. É como se o mundo de repente descobrisse que os hospitais tornam as pessoas pobres mais doentes.

“O desafio é ver a violência pelo que é e acabar com a impunidade que permite que continue a ocorrer.” Gary Haugen, fundador do International Justice Mission

Num país em desenvolvimento, é comum ter que lutar com maior avidez quando se é pobre, porque os pobres raramente têm acesso à justiça se não pagarem à polícia, aos tribunais, entre outros.

Qual é a nossa responsabilidade perante tal situação? Encontrei a resposta na Bíblia, em Provérbios 31:8-9: “Ergue a voz e julga com justiça; defende os direitos dos pobres e dos necessitados”.

Ainda que a violência contra os mais pobres, ainda que mais proeminente nos países em desenvolvimento, não obsta que a mesma possa estar a acontecer na casa do teu vizinho, no rio Tejo com os apanhadores de amêijoa, no semáforo da tua rua onde crianças te imploram uma moeda, na internet onde a criança raptada das praias do algarve está a ser explorada sexualmente na “darkweb”, numa rua onde a prostituta (uma menina recrutada para trabalhar num restaurante) viu os seus sonhos despedaçados quando lhe disseram que precisava de vender o corpo para recuperar a sua liberdade…

Se fechares os teus olhos, será que te consegues abstrair destes abusos?

Nunca é tarde demais! Abre os teus olhos e age. Pergunta à pessoa se precisa de ajuda, chama a polícia e certifica-te de que a polícia actua, investe o teu tempo… Porque a arma mais forte que os traficantes e os abusadores têm é o nosso silêncio.

Certa vez um homem foi convidado para ir a um banquete. Tinha de levar vinho de palma (uma espécie de vinho que parece água) mas, como não tinha dinheiro para comprar vinho de palma, pensou que ninguém notaria se ele levasse água em vez de vinho de palma. Quando juntaram todo o vinho de palma que todos tinham levado e começaram a servir o vinho de palma, sabia a água… Todos tinham levado água a contar que o vizinho ia levar o vinho de palma e que aquela pequena garrafa de água não iria fazer diferença.

Tal como no convite para o banquete, tu és convidado a agir com justiça. A tua “pequena garrafa de água” vai fazer toda a diferença. Os teus donativos, as tuas orações, a tua colaboração com associações de apoio à vítima, com organizações internacionais na luta contra o tráfico como o International Justice Mission, A21 ou Operation Mobilization, entre outras, pode fazer a diferença.

 

Na minha experiência profissional, enquanto advogada na luta contra o tráfico humano, tenho visto que posso alterar o rumo de injustiça na vida de indivíduos e comunidades privadas deste fio vertical da justiça tão essencial nas nossas vidas!

A Elsa e outros sobreviventes são a prova de que os seus abusadores são condenados e punidos.

Não compactues com a opressão. Ergue a tua voz.

Uma estrela-do-mar, de cada vez… faz a diferença!

*  Elsa – nome fictício.

 

 

Marta Correia
Advogada

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