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Mulheres

Entre a Lapidação e a Graça, uma Voz….

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Ela foi condenada. Sozinha ali, sem amparo e sem proteção, entregue à própria sorte e rejeitada por todos aqueles que a rodeavam. Naquele momento, não havia ninguém que a pudesse livrar, afinal não havia perdão para uma mulher apanhada em adultério. Lapidação era o seu castigo.

Aqueles homens que a rodeavam com pedras na mão, eram os mesmos que viviam escondidos atrás dos seus títulos de poder. Eram os fariseus, os chefes dos sacerdotes, os escribas, os entendedores da lei e que pouco tempo antes tinham tentado prender Jesus pelo facto do povo começar a considerar que Ele era o Cristo. Os mesmos que se indignaram assentados em cima do seu próprio orgulho, quando até os guardas que não o tinham prendido, afirmaram que “ninguém jamais falou da maneira como esse homem fala”. João 7:46

A história se repete. Hoje em dia não é apenas uma mulher adúltera à espera de ser apedrejada, mas somos nós, que por vezes andamos solitários, sedentos, rejeitados e condenados por aqueles que se assentam nos seus tronos de autoridade e orgulho a espera de atirar a primeira pedra.

A história dela poderia ser a história de cada um de nós. O que está por detrás das escolhas que fazemos? Dos medos que sentimos? Dos anseios da alma que nos levam a satisfazer os nossos impulsos?

O pecado dela é o nosso pecado, porque o adultério não é apenas o acto de trair o marido ou a esposa com outro alguém. O adultério é o impulso da alma, de preencher o vazio do coração, com algo ou alguém que não seja Aquele que no mesmo contexto promete ser a Luz do Mundo. O adultério é permitir que a carne e as entranhas da alma se entreguem ao que é pequeno, diante da grandeza do Senhor que promete intimidade plena com Ele. O adultério é todo o pecado que satisfaz a nossa carne e momentaneamente alivia o anseio, ou quem sabe  a dor…

Foi por isso que diante dos acusadores daquela mulher Jesus confrontou: “Se algum de vocês estiver sem pecado, seja o primeiro a atirar a pedra nela”. E foi assim que, um a um, eles se retiraram.

E ali estava ela, mas já não estava só. Humilhada, confrontada como nunca antes com a sua condição de pecadora e exposta ao horror de poder ser morta até que, de repente, a Voz que alcança a alma,  a preenche. A Doçura que envolve o coração, a convence. A Faca de dois gumes que divide alma e espírito a alcança, no momento em que o Senhor pergunta:

“- Mulher, onde estão eles, ninguém a condenou?

– Ninguém Senhor.

– Eu também não a condeno. Agora vá e não peque mais.”

O que isto tem a ver contigo? Tens ouvido a doçura desta voz? O que Ele te fala? Qual é a tua decisão?

Baseado no Evangelho de João, Capítulo 8.

Arlete Castro

Escritora

Mestre em Intervenção Terapêutica

A CEVADA DE RUTE

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“Deixa-me colher e juntar espigas por entre os molhos após os segadores.” (Rute 2:7)

Tenho pensado em Rute.

Aflorou no meu pensamento quando pensava na imensa vulnerabilidade dos migrantes.

Quando se dão crises socioeconómicas em algum lugar, seguem-se movimentos migratórios dos locais onde escasseia o alimento, o emprego, o dinheiro, as oportunidades, a paz, a segurança, etc, para locais onde estes são mais abundantes. Facilmente se conclui que, desde há milénios, os cereais são um forte atractivo e uma das principais bússolas destes movimentos populacionais.

Rute e Noemi chegaram a Belém no princípio da sega da cevada. Tinham viajado a pé, partindo de Moabe, terra natal de Rute.

A cevada foi um dos primeiros grãos cultivados no Crescente Fértil, estimando-se que tenha sido  domesticada em 8000 AC a partir do seu progenitor selvagem Hordeum spontaneum. Os registos arqueológicos dão conta do cultivo da cevada em 5000 AC no Egipto, em 2350 AC na Mesopotâmia, em 3000 AC no noroeste da Europa, e em 1500 AC na China.

A cevada, Hordeum vulgare, foi a principal “planta do pão” dos hebreus, gregos e romanos e também de grande parte da Europa até ao século XVI. Actualmente, representa a quarta maior colheita de grãos do mundo (depois do trigo, o arroz e o milho).

Rute e Noemi estavam em luto. Rute, do marido. Noemi, do marido e dos filhos.

E a história começa assim: “E sucedeu que, nos dias em que os juízes julgavam, houve uma fome na terra”.

Não é certo, mas levanta-se a hipótese de ter sido Samuel o seu escritor, por volta do ano 1322 AC.

Falava de fome.

Pois bem, foi este o motivo que levou Elimeleque, efrateu, natural de Belém de Judá, a “peregrinar nos campos de Moabe”. Consigo foram a esposa, Noemi, e os seus filhos, Malom e Quiliom.

Moabe ficava do outro lado do Mar Morto. Terra montanhosa. Povo em frequente conflito com Israel. A língua talvez não fosse muito diferente. A religião, ao contrário da de Israel, era politeísta.

A família procurou saciar a fome no campo deste povo estrangeiro.

Assentaram.

O marido de Noemi não mais regressou ao país natal. Noemi enviuvou.

Os filhos cresceram e casaram com mulheres da terra que os acolhera, as moabitas Rute e Orfa.

Depois, também estes morreram. Sobraram três mulheres, cada uma com a(s) sua(s) perda(s). Aqueciam-se em conjunto, em torno da fogueira desolada do luto.

Mulheres, em tempo de homens. Viúvas, em tempo em que eram votadas ao desprezo. Uma das quais desfilhada. Como (sobre)viver daqui para a frente?

Adaptável a um espectro climático mais amplo do que qualquer outro cereal, a cevada possui variedades em áreas temperadas, subárcticas ou subtropicais. Embora o crescimento se dê melhor em estações de pelo menos noventa dias, é capaz de crescer e amadurecer num período mais curto do que qualquer outro cereal.

Corriam rumores de que em Belém havia alimento outra vez. Esta notícia foi uma brisa de alento para Noemi.

As três mulheres levantaram-se e começaram a caminhar. Para Noemi seria um regresso. Agora seria a vez de Rute e Orfa serem estrangeiras do outro lado do Mar Morto.

Davam passos iguais uns aos outros quando, num instante, Noemi se deteve. Olhou para as mãos. Já tinha perdido quase todos, quase tudo. Abriu as mãos. Completamente. Não quis agarrar, não quis reter. Quis libertar, desenlaçar quem também tinha perdido muito. As suas noras.

“Ide, voltai cada uma à casa de sua mãe; e o Senhor use convosco de benevolência, como vós usastes com os defuntos e comigo. O Senhor vos dê que acheis descanso cada uma em casa de seu marido.”, disse.

Noemi beijou-as. Levantaram a voz do sofrimento e choraram juntas.

Achando que nada tinha para lhes oferecer e que nada havia para esperar, insistiu com as noras para que seguissem o caminho da casa materna.

Choraram outra vez, sonoramente, juntas.

Orfa despediu-se e foi. Rute, porém, apegou-se a Noemi. “Eis que voltou tua cunhada ao seu povo e aos seus deuses: volta tu também após a tua cunhada”, reiterou Noemi.

Foi então que Rute declarou, férrea, irredutível: “Não me instes para que te deixe e me afaste de ao pé de ti: porque aonde quer que tu fores irei eu, e onde quer que pousares à noite ali pousarei eu; o teu povo é o meu povo, o teu Deus é o meu Deus; onde quer que morreres morrerei eu, e ali serei sepultada: faça-me assim o Senhor, e outro tanto, se outra coisa que não seja a morte me separar de ti”.

E foram.

Tempo e passos. Algumas pausas. Finalmente, chegaram a Belém.

“Cheia parti e vazia cheguei”, disse Noemi.

E quis mudar de nome. “Não me chamem Agradável (significado de Noemi), chamem-me  Amarga (Mara)”, instou às suas conterrâneas saudosas. “Porque grande amargura me tem dado o Todo-Poderoso”.

Com maior resistência ao calor seco do que outros pequenos grãos, a cevada floresce em áreas próximas do deserto no Norte de África, onde é semeada principalmente no outono. As plantações semeadas na primavera são mais bem-sucedidas nas áreas mais frias e húmidas da Europa ocidental e da América do Norte.

Olharam em volta. Os campos, brancos. Um som de vento e fricção. A sega da cevada tinha começado.  As mãos rápidas dos ceifeiros tocavam harpa nas espigas. Colhiam e avançavam. Colhiam e avançavam.

O apelo do estômago vazio, um pensamento que lhe exigia ocupar-se, um sentimento de apego, um desejo de cuidar de Noemi foram as mãos que empurraram Rute para o campo.

Seguiu no encalce dos ceifeiros. Estes recebiam o salário ao fim de cada jornada de trabalho. Rute, não. Pediu a um dos segadores autorização para respigar. Quer isto dizer recolher as espigas e os grãos que escapassem às mãos dos segadores ou o que caísse no chão. E levava para casa. Fariam pão.

Ainda hoje, a farinha de cevada é utilizada para fazer pão de tipo ázimo (achatado) e papas, especialmente no Norte de África e em partes da Ásia, onde continua a ser um grão alimentar básico. Por conter pouco glúten, uma substância proteica elástica, a cevada não serve para fazer pão poroso (“insuflado”).

Actualmente, é utilizada principalmente como forragem verde e ração para o gado; como fonte de malte para bebidas alcoólicas, especialmente a cerveja; e ainda na produção de medicamentos; para além de ser componente de flocos e farinhas para panificação.

Boaz era o dono daquele campo. Pertencia à família e geração de Elimeleque, sogro de Rute.

Um servo deu conta do quanto Rute se esforçava dia após dia, do pouco descanso, e do cuidado que manifestava para com Noemi.

Um olhar de graça pousou em Rute.

“Que o Senhor recompense o teu feito. Que o Senhor, o Deus de Israel, sob cujas asas vieste buscar refúgio, te recompense ricamente”. Com estas palavras abençoou Boaz a Rute. E também com indicações aos seus servos para que favorecessem o trabalho desta estrangeira, a aproximassem das condições de trabalho dos jornaleiros e avolumassem o que esta recolhia e levava para casa.

Comentando com Noemi o sucedido, esta viu no agir de Boaz a mão providencial de Deus:

“Bendito seja ele no Senhor, que não tem deixado a sua beneficência nem para com os vivos nem para com os mortos”.

Um toque de graça humedeceu os olhos cansados de Noemi. Abriu-os e viu em Boaz um remidor. “Ele será restaurador da tua vida e consolador da tua velhice”, concordavam as conterrâneas.

Com efeito, a redenção chegaria. Da viuvez de Rute, no despertar de descendência aos que tinham partido, e colocando um neto no regaço de Noemi para esta cuidar.

De seu nome, Obede, viria a ser pai de Jessé, avô de David. Raiz de Jesus.

No campo científico, procura-se desenvolver variedades capazes de produzir sementes suficientes mesmo sob condições de elevada temperatura ou seca.

Afinal, como nasce um redentor na aridez do luto, na secura do deserto, no calor de uma terra estranha?

Eis que, de repente, Belém (Beit Lechem) volta a significar “Casa do Pão”.

Bibliografia:

– Livro de Rute (in Bíblia Sagrada)

– Encyclopaedia Britannica (www.britannica.com/plant/barley-cereal)

Abigail Ribeiro

Médica Psiquiatra

A arte no propósito divino

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O meu nome é Vânia Magalhães e sou formada na área das artes plásticas e banda desenhada/ilustração.

Um convite

Em Novembro de 2019, recebi um convite inesperado de uma amiga para ir até à Guiné-Bissau, com a missão de pintar um mural, numa escola de uma aldeia missionária, construída pelo projeto missionário Semeadores de Alegria, da família Paulo e Jéssica Durão que atuam na Guiné-Bissau, com o foco de trabalhar com crianças e com um projeto de construção de uma aldeia missionária, da qual fazem parte uma escola, centro de saúde, recursos e infra-estruturas. No seu coração está este desejo de amar como Cristo: semeando paz, esperança e alegria.

Na verdade, essa minha amiga já tinha praticamente tudo planeado para ir até lá com a filha, para darem formação na área do ensino e havia também o tal mural para pintar, tarefa que inicialmente pensaram em fazê-lo.

Um dia ao cruzar-se comigo, essa minha amiga pensou: “A Vânia é que era boa para pintar”, e pronto, assim surgiu o convite. Eu nunca tinha tido o sonho missionário africano, mas depois de alguma hesitação, aceitei.

Um passo de fé

Nesse tempo, eu era voluntária na equipa do Desafio Jovem (Operação Josué) e por isso não tinha recursos para poder financiar a viagem, os materiais e outros recursos. E logo aí foi um passo de fé, mas como Deus deseja que primeiro coloquemos o pé, para que Ele coloque o chão, assim foi: a minha amiga teve a ideia de criar um fundo de doações para me suportar na viagem e esse foi o primeiro dos milagres que Deus tinha reservado.

Um anónimo decidiu doar um valor muito alto e que acabou por financiar praticamente quase toda a viagem, em conjunto com a generosidade de tantas outras pessoas a quem Deus despertou o coração. E lá fomos. Eu tinha o desejo de fazer algo grande e excelente, porque não é todos os dias que temos a oportunidade de pintar na Guiné!

Depois de aterrarmos e de termos tido um tempo de descanso, viajámos até à aldeia missionária e lá ficámos quase uma semana. A vida na aldeia é de um despojamento total, apesar dos missionários terem feito (e continuarem a fazer) um excelente trabalho no investimento de infraestruturas e recursos. Por conta disso, nós acabámos por ficar num alojamento lá na aldeia com muitas condições – eu gostaria de ter tido uma experiência mais radical, de ter mergulhado mais na cultura e no estilo de vida guineense mas, quem sabe, fica para uma próxima oportunidade!

Pintar um mural

Foram quatro dias a pintar em horário alargado: as pausas eram para comer e repousar e depois pincéis a funcionar! Acabei por fazer um mural muito maior do que o que tinha planeado, e ainda conseguimos fazer mais uma pequena pintura numa outra parede: foi realmente um projeto muito ousado para o tempo que tínhamos para o realizar, mas não podia ter sido de outra forma.

Das coisas que mais me marcaram, foi a capacidade de deslumbramento daqueles jovens e crianças que ficavam horas pendurados nas janelas da sala onde eu pintava, simplesmente para acompanhar o processo da pintura.

Muitas vezes, era já noite e eu com os holofotes ligados a tentar escapar aos mosquitos, e as crianças lá fora a observar cada traço do pincel, cada mistura de cor, num deslumbramento puro e genuíno. De cada vez, que surgia uma criança que ainda não tinha vindo espreitar, ouviam-se sons de encantamento e espanto que são universais em qualquer língua do mundo.

Desafiou-me a pensar que deste lado do mundo, no nosso mundo ocidental e tão evoluído, cada vez menos temos o desejo ou a capacidade de nos deslumbrarmos até com as coisas mais simples. O que ainda nos deslumbra?

Servir com a arte

Eu vivia um pouco desconetada do meu talento de pintar e desenhar, porque em mim sempre existiu o desejo de servir a Deus, porém eu achava que servir a Deus através da Arte era uma espécie de “serviço menor”. Servir a Deus devia ser com a Medicina, com a missão, com o evangelismo mas não com a Arte. Como é que a Arte poderia mudar vidas? Como poderia trazer esperança a um mundo caótico?

A experiência da Guiné acabou por me reconciliar com este talento e enquadrá-lo com o Reino de Deus. Hoje entendo que a Arte tem um propósito divino muito claro: ser a manifestação do Belo, da Beleza, ou seja, marcar em beleza um mundo caído e desfigurado da imagem de Deus e do seu projeto original.

Apesar da criação estar cada vez mais longe do Seu Criador e o mesmo ter acontecido com a Arte, que cada vez mais se tem afastado do Primeiro Artista – transformando-se em subversiva, mas desprovida do Belo – a criação carece da Arte, para recuperar e pontuar a sua Beleza.

Então, a Arte que revela a Beleza do Criador e ressalta a Beleza da criação tem um propósito e uma missão divina, tão necessária como qualquer outra expressão de serviço. Hoje, isso é algo que está apaziguado no meu entendimento.

Deus de milagres

Para além da pintura, tive ainda o privilégio de poder participar de um culto na aldeia missionária, onde os momentos de louvor até hoje ecoam nos meus ouvidos. Como é possível um tempo de adoração composto única e exclusivamente de vozes e palmas conseguir penetrar tão profundamente o nosso coração? Creio que a simplicidade do louvor, mas o desejo profundo de louvar, cativam o coração do nosso Deus.

Ainda nesse culto tive o privilégio de pregar e de repente não sabia bem o que havia de falar.  Como partilhar o Evangelho naquela realidade? O que Jesus ensinaria naquele contexto?

Do púlpito, recordei a mulher da hemorragia interna, que mais do que um milagre no corpo, experimentou um milagre no seu coração, com a convicção profunda que Deus continua empenhado a fazer milagres em corações humanos, independentemente do lugar do mundo em que nos encontremos.

Vânia Magalhães

Licenciada em BD/Ilustração e Mestre em Artes Plásticas

Cooperadora no Desafio Jovem Portugal.

Ajudar em tempos de pandemia

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São muitos os que neste tempo de pandemia têm ficado mais vulneráveis. Desde logo, aqueles que, em condições normais, já são desfavorecidos em questão de desigualdade social: os refugiados, imigrantes, os que têm menos qualificações, os que têm trabalhos precários, os que têm menos acesso a recursos digitais e as vítimas de violência doméstica.

Se conhece alguém nestas ou noutras situações de fragilidade, e se, dentro das suas possibilidades e com as devidas proteções, puder ajudar, faça-o com sabedoria e prudência.

Eis aqui alguns exemplos de ajuda que poderá dar:

– Ofereça alguns alimentos a uma família desempregada ou imigrante perto de si, e que tenha algumas necessidades nesta ou noutras áreas básicas (use sempre as devidas proteções).

– Se tem uma empresa e pode oferecer trabalho a alguém, faça-o.

– Dentro do possível, compre e consuma produtos da economia nacional (é grande o número das empresas que não consegue subsistir neste tempo, sem vendas e abre falência).

– Se tem um PC a mais e pode emprestar ou oferecer, faça-o. Há crianças que podem precisar para os trabalhos escolares.

– Se conhece alguém que passa ou passou situações de violência doméstica, ofereça-se para ajudar, para ouvir, para ser pessoa de confiança.

– Nas redes sociais, ou por telefone, tente estar em contacto principalmente com pessoas que estão sós. Escreva e fale mensagens de esperança, encorajamento e ânimo.

Por vezes, nem todas as pessoas conseguem logo pedir ajuda explicitamente, e, tal como os quatro amigos que levaram o paralítico a Jesus (Mateus 9:2-6), é possível que neste tempo tenhamos de “carregar” alguém na esteira das nossas orações, dos nossos cuidados ou mensagens de esperança. Sim, plantar esperança nos corações tristes deve ser tão frequente neste tempo, quanto desinfetar as mãos ou usar máscara.

Elsa Correia Pereira

Socióloga

A mulher e a oração

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No dia 8 de Março, a cada ano, comemora-se o Dia Internacional da Mulher. Embora algumas investigadoras considerem esta explicação um mito, a realidade é que para a “História o que ficou é que a origem do Dia Internacional da Mulher remonta a 8 de Março de 1857, quando operárias russas e norte-americanas protestaram nos seus países contra as condições de vida e de trabalho. Contudo, só em Dezembro de 1977, a ONU instituiu a data para lembrar as conquistas femininas” (Como nasceu o Dia da Mulher (noticiasaominuto.com)).

E o Dia Mundial de Oração? Também tem uma data a assinalar. Ao que consegui apurar, é uma celebração móvel que ocorre na primeira sexta feira de Março e é celebrado em 170 países (curiosamente, muito próximo do dia 8 de Março – dia da Mulher – portanto!). Diz-se que o Dia Mundial de oração nasceu no século XIX quando mulheres cristãs dos EUA e Canadá iniciaram, através da oração, uma série de atividades de cooperação e apoio à participação de mulheres em obras missionárias pelo mundo.

E se juntássemos os dois dias? Assim, nasceu o Dia Universal de Oração da Mulher Cristã, cuja realização em Portugal, aconteceu pela primeira vez há 75 anos, no dia 8 de março de 1946, promovido pela Aliança Evangélica Portuguesa (AEP). Na altura, esta iniciativa foi organizada pela missionária Katherine Tucker, juntando-se para o efeito 43 mulheres.

Para os leitores localizarem historicamente este acontecimento, deixem-me apontar que, a AEP foi organizada em 1921, embora o seu estatuto legal tenha data de 1935. Contudo, apenas em 1939 foram admitidas como sócias as primeiras mulheres.

Hoje reconhecemos a oração como um pilar fundamental da igreja cristã evangélica, das nossas famílias e comunidades. Assim, queremos desafiar todas as mulheres portuguesas a tirarem um momento, neste dia 8 de Março, para ao telefone, pelas Redes Sociais, por videochamada, etc. terem um momento de oração com uma ou mais amigas. Lembrem-se dos exemplos bíblicos de mulheres de oração que fizeram a diferença no seu tempo: Ana, mãe de Samuel que orou no templo por um milagre e Deus lhe respondeu dando-lhe um filho (I Samuel 1) tão especial e dedicado ao Senhor. Ester, que convocou oração e jejum pelo livramento do seu povo. A viúva Ana (Lucas 2), que dedicou a sua vida a jejuar e orar no templo.

Sabemos que Deus responde ao clamor do Seu povo. Seja uma intercessora, pela sua família, a sua comunidade, a sua igreja, o seu país. Deus irá honrar o seu esforço e fé.

Elsa Correia Pereira

Socióloga e autora de “O Diário de Uma Mulher Feliz”

Deus cuida dos detalhes

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Eu sou a Marta e quero contar-vos a história muito especial do meu filho Rodrigo. Tudo começou em 2007, quando casei com o Nuno. Dois anos depois, sentimos que seria altura de pensar em ter um filho, o que constituiria uma alegria para toda a família… E um tempo depois, aconteceu!

O teste do pezinho

O Rodrigo nasceu em 2011, de cesariana, e por isso eu tive de ficar mais uns dias no hospital. Saímos no 6º dia, e no 7º dia o Rodrigo fez o teste do pezinho. Todos os pais fazem porque é obrigatório, mas normalmente nunca mais nos lembramos dele… O problema foi quando, passados 10 dias, chegou a nossa casa uma carta a dizer que havia ligeiras alterações no rastreio alargado do pezinho e solicitaram-nos uma nova amostra de sangue. Isto, para uma mãe que acabou de ter um filho, significa milhões de dúvidas sobre a ideia de não ser normal. “Nunca ouvi falar disto, porque é que estão a pedir uma segunda amostra?” Passados mais 10 dias, eu recebi um telefonema do Hospital de Dia das doenças metabólicas, para fazer novas análises. Mais uma vez nos disseram que o segundo teste tinha vindo com anomalias, e que seria necessário fazer análises mais específicas e enviar para o Instituto Ricardo Jorge, no Porto, que era onde estavam os especialistas em doenças metabólicas. Teríamos que esperar um mês e meio pelos resultados.

Duas mutações

Quando os resultados chegaram, no dia 18 de Maio, o Rodrigo tinha 2 meses. Ele tinha duas mutações. Uma delas era o VLCAD, uma doença ligada à cadeia dos ácidos gordos, da cadeia muito longa. Sobre a segunda mutação, o resultado dizia que “não se encontrava descrita na literatura”, pelo que seria necessária nova análise… Esta nova análise foi realizada num ambiente super protegido para não haver qualquer risco de contaminação, e foram retiradas amostras de sangue a mim e ao bebé, na Faculdade de Ciências de Lisboa, e enviadas para a Holanda, onde estão os maiores especialistas em doenças metabólicas, para analisarem a segunda mutação. Foi então que os profissionais de saúde explicaram melhor o que se passava – se o Rodrigo tivesse apenas um gene com mutação, seria portador, tal como eu e o pai, o que é uma situação raríssima ou seja, ambos somos portadores de uma mutação e, por coincidência, os dois passámos a doença ao nosso filho (podia não ter acontecido, sequer).

O que significa?

A primeira mutação do gene do Rodrigo –VLCAD significa que a enzima não processa os ácidos gordos da cadeia muito longa. Quais as implicações disso? O nosso corpo precisa de energia para funcionar. Ora, se a enzima não consegue processar os ácidos gordos, o organismo não teria energia e era necessário fornecer-lhe essa energia. Na altura, os profissionais de saúde tinham muito pouca informação. Foi-nos facultado o protocolo da doença VLCAD, em inglês. Eu sentia um misto de angústia e anestesia, pela surpresa da situação, mas uma das coisas que não me saía da cabeça era que uma das consequências graves da doença poderia ser coma ou morte. Para uma mãe, com uma criança de dois meses nos braços, não é fácil ler isto. A questão é: se o corpo não consegue produzir energia a partir dos alimentos, vai tentar ir buscá-la aos músculos, aos órgãos, “consumindo” a estrutura destes, e atacando especialmente o coração, podendo então provocar o coma ou a morte súbita.

A alimentação

Era regra para o Rodrigo comer de 3 em 3 horas, incluindo à noite. Bem, há pais que conseguem dar um biberão aos bebés, mesmo com eles a dormir, ou quase… Mas não era o caso do Rodrigo. Ele não acordava, serrava os dentes, não queria beber, só queria dormir, e quando era mais crescido atirava o biberão fora, só para poder dormir. Podem imaginar o nosso desespero como pais, sabendo que o nosso filho tinha esta doença, e que ela não tem outro tratamento a não ser comer… O nosso corpo adquire energia através dos açúcares (que se consomem rapidamente), dos hidratos de carbono, e caso não existam estas fontes de energia, o corpo vai buscar às “reservas” de gordura, coisa que o Rodrigo não tem. O corpo do Rodrigo tinha pois, de ser constantemente “reabastecido” de energia, caso contrário, poderia entrar em descompensação.

Os resultados chegaram da Holanda. Confirmou-se que o Rodrigo tinha VLCAD, embora, graças a Deus, fosse uma variante “leve”. No entanto, a doença era grave, havia pouca informação e o que se sabia é que o bebé não podia deixar de comer, independentemente do sono ou das birras…

Eu orei tantas vezes a chorar: “Por favor, Deus, guarda o meu menino, se ele não comer”. Tenho a plena consciência que Deus o guardou muitas vezes, e que eu fazia de tudo para o manter acordado, mas por vezes ele passava o número de horas estabelecido, pois não acordava.

O Rodrigo hoje

O meu filho tem agora 9 anos, e quem olha para ele não vê qualquer indicação de doença. Contudo, o Rodrigo tem restrições e tem de saber viver com elas, apesar de ser apenas uma criança. Por exemplo, numa festa de aniversário, ele não pode comer batatas fritas, gomas, doces, chocolates “à vontade” como os seus amiguinhos. Pode apenas comer uma destes alimentos pontualmente, pois o seu organismo não os processa.

Hoje, a informação sobre a doença evoluiu e o Rodrigo já pode tomar o MCT Oil, que é a gordura que o corpo humano processaria para obter energia, e também algumas vitaminas. Este produto e um outro medicamento são caros mas são comparticipados pelo Estado, o que é uma bênção grande.

A graça de Deus!

Apesar de todos estes condicionalismos, eu consigo ver a graça de Deus em cada detalhe, o Seu cuidado, proteção e amor. Outras pessoas há com doenças, das quais os médicos não conseguem detetar as causas, não conseguem identificar os tratamentos, o que nunca aconteceu com o Rodrigo. Por exemplo, eu soube de um caso que só ao fim de 10 anos foi detectado que a pessoa tinha uma doença metabólica, com todas as consequências que daí advieram, infelizmente. Eu conheço bem a angústia de não saber o que o meu filho tem, para se tratar convenientemente, e por isso agradeço a Deus que a doença tenha sido logo detetada no Rodrigo, prevenindo situações graves. Sei que o papel dos pais é fundamental, nunca deixando passar as rotinas alimentares e as tomas dos medicamentos, mas mais do que tudo sei que Deus cuidará de cada detalhe, como até aqui, e é isso que sossega o meu coração. O Rodrigo até hoje é acompanhado pelas Unidades Metabólicas e pela Cardiologia, realizando Holters frequentes. É um menino saudável, apesar de tudo, que gosta de saltar e pular, correr e brincar, e isso é a graça de Deus visível na sua vida, na nossa vida!

Com este meu testemunho, quero expressar a enorme gratidão que eu tenho para com Deus e a serenidade que tenho dentro de mim pela certeza de que, seja qual for o problema, podemos colocar sempre aos pés de Deus e Ele, na Sua infinita misericórdia, nos ouvirá e resolverá, caso seja essa a Sua vontade. Para Ele nada é impossível.

Marta Aleixo

Assistente executiva

Apaixonada pelo Maestro

960 540 Aliança Evangélica Portuguesa

Levantei-me sem dores, com a energia normal de quem bebe café e sai de casa em pulgas para ver o tão esperado concerto de música clássica.

Mas percorri todo o parque da Gulbenkian, depois de subir e descer escadas do metro, comboio e sei lá mais o quê, tudo para chegar minutos antes e entrar naquela sala ainda agitada de pessoas mascaradas à procura do seu lugar regrado por distância.

Não admira que me sinta ainda entusiasmada mas já com a cabeça um pouco a andar à roda. Oiço a apresentadora explicar que a obra se divide em vários actos e os primeiros são de estórias infantis, desenhadas na sua composição com muito detalhe, que nos daria a oportunidade de ouvir algo complexo e difícil de uma forma simples e bela. Fico ainda mais curiosa e sinto o calor do pequeno sprint que fiz perdida à volta daquele edifício. Apagam as luzes e abrem as cortinas por trás dos músicos. Uma janela para o lago do parque, que cenário! O maestro entra, formoso e famoso e não se ouve um suspiro. Vai começar…

Lembro-me que nos dois primeiros actos a minha pele esteve sempre arrepiada mas o meu cérebro não conseguia assimilar… Estava ainda a despir-se do que se passava lá fora. A semana fora intensa e era preciso deixar tudo à porta mas entrou rápido demais e a melodia acompanhava aquele despir das roupas molhadas e pensamentos ensopados, como se estivesse farta deles e tivesse pressa de começar outra vez.

Sinto a cabeça dormente, foi rápido demais para uma pessoa que está a recuperar de uma exaustão neurológica e psicológica. Mas agora estava ali, e despida já estava, mesmo assim.

Então chegou o terceiro acto. Comecei a reconhecer a linguagem dos instrumentos, entendi o diálogo tumultuoso da “Bela e o Monstro” que depois se torna príncipe entoado já por cordas de harpa e acaba tão vigoroso que há uma pausa silenciosa seguida de um aplauso esplendoroso. E eu já estava no filme… Entrei no 4º acto como se vivesse uma cena da Jane Austen… Sentia a nostalgia de algo fantasiado no meio de uma beleza surreal que invadiu os meus ouvidos, enquanto me distraía a ver os patos lá fora a dançar no lago ao som daquela composição. Já não sei bem em que parte limpei a cara molhada mas recordo-me da brisa que me invadiu o peito, porque por um lado estava feliz demais e não sabia conter todo ar que estava lá dentro, mas ao mesmo tempo tinha uma saudade avassaladora do que ainda não vivi.

Como se aquele momento me profetizasse o futuro, uma simples melodia, antecipava em mim a certeza de que esta frágil capa um dia se rasga e revela um coração cheio, com cicatrizes e estrias de tanto esticar e encolher, mas cheio de amor para dar e vender. Um coração livre que celebra a vida com um aplauso emocionado, de pé e sorriso nos lábios por cada acto tocado, cada solo, por cada instrumento mais afinado da nota mais triste à mais saltitante, vivida na mente d’Aquele que dirige a orquestra e de lágrimas nos olhos, tal como eu, se vira para receber o meu aplauso, enquanto eu me prostro porque não sei mais o que fazer para lhe agradecer dirigir esta obra magnífica que Ele diz ser eu mas que foi criada por Ele. Obrigada Maestro.

“Pois possuiste os meus rins; entreteceste-me no ventre de minha mãe. Eu te louvarei, porque de um modo terrível e tão maravilhoso fui formado; maravilhosas são as tuas obras, e a minha alma o sabe muito bem. Os meus ossos não te foram encobertos, quando, no oculto, fui formado e entretecido, como nas profundezas da terra. Os teus olhos viram o meu corpo ainda informe, e no teu livro todas estas coisas foram escritas; as quais iam sendo, dia a dia, formadas, quando nem ainda uma delas havia. E quão preciosos me são, ó Deus, os teus pensamentos! Quão grandes são as somas deles!”

“O Senhor teu Deus veio para viver no meio de ti. Ele é um poderoso Salvador e far-te-á vencer; terá grande prazer em ti; amar-te-á e não mais te acusará. Ouço um alegre cântico que traduz a própria alegria que o Senhor sente em ti.”

Raquel Costa

Formada em Serviço Social, fundadora do projecto www.worshiphouses.org e Líder de Louvor na Igreja CCVA Alverca

Recordações de um tempo sombrio

1048 730 Aliança Evangélica Portuguesa

A encomenda é volumosa e pesada. Acabou de ser entregue, pelos Correios, no seu local de trabalho.

Ao sair, ela chama um táxi, para poder transportar aquela grande caixa para casa.

Foi enviada pela mãe e pela irmã, que vivem longe e não estão consigo há meses por causa da pandemia.

Abre-a e delicia-se só de olhar. São várias refeições cozinhadas – aquelas comidas que ela mais gosta, em diferentes caixas bem acondicionadas. E tem ainda o seu bolo de laranja favorito, uma torta, queijo, marmelada… Também um jogo de lençóis térmicos, de que precisava. Ah, e um envelope branco. Abre, e dentro encontra uma nota de 10 euros, com a indicação de que é para pagar o táxi de que terá precisado para levar a encomenda para casa.

Aconteceu há dias com uma amiga minha e é uma daquelas recordações confortantes que irão ficar, deste tempo diferente e difícil.

E dou comigo a pensar: que memórias irão ficar deste tempo de confinamento? O que é que cada um de nós poderá fazer para criar boas recordações, apesar de tudo?

Numa altura de provação na vida de Paulo, em que esteve preso, não em casa por confinamento mas numa autêntica prisão por anunciar o evangelho, Onesíforo foi um sopro de ânimo e suporte. Escrevendo a Timóteo, Paulo lembra esse apoio tão confortante, e que aconteceu muitas vezes:

“O Senhor conceda misericórdia à casa de Onesíforo, porque muitas vezes me recreou, e não se envergonhou das minhas cadeias.” (II Timóteo 1:16)

Um provérbio antigo, lembra-nos que a angústia gera irmãos. Diz assim: “Em todo o tempo ama o amigo e para a hora da angústia nasce o irmão.” (Provérbios 17:17)

Neste tempo aflitivo no nosso país, e também por todo o mundo, marcado por ansiedade, tristeza, doença, luto, solidão, que possamos buscar de Deus recursos espirituais, afectivos, materiais e partilhar uns com os outros, no cumprimento do seu mandamento: “Amai-vos uns aos outros como eu vos amei.” (João 13:34) E que, no futuro, este ano possa ser lembrado como um tempo de grande união e entreajuda em que, por isso, nos tornámos mais fortes.

Bertina Coias Tomé
Psicóloga, Especialista em Psicologia Clínica e da Saúde e Psicologia Comunitária

Aviva-nos!

1052 699 Aliança Evangélica Portuguesa

Nos últimos quase 5 anos, tenho vivido numa casa com lareira. Sempre gostei imenso de ver uma lareira na sala, e mais ainda de sentir a sua companhia nos dias frios de Inverno. Contudo, durante todos estes anos nesta casa, apenas acendemos a lareira duas ou três vezes, e acabámos por desistir, pois revelou-se inútil nos seus propósitos.

Qual a utilidade de uma lareira apagada? Ela esteve sempre lá, imponente, ocupando um bom espaço da nossa sala, condicionando a decoração e a disposição dos móveis, mas apagada…

A razão de não usarmos esta lareira é óbvia: gastava imensa lenha e não aquecia o espaço, pois não tinha recuperador de calor. Colocávamos a lenha, e o fogo devorava a madeira antes que pudéssemos sentir o ambiente acolhedor do seu calor. Só nos aquecia se nos colocássemos quase dentro dela.

Bem, perante estas razões e aproveitando o facto de a casa estar a ser remodelada, decidimos destruir a lareira e colocar uma salamandra no seu lugar, aliás noutro lugar da sala, mais estratégico.

Durante quase 5 anos olhei para esta lareira, frustrada, porque, apesar de gostar de ter lareira, esta especificamente não me dava o que eu precisava. Algo que me podia ser muito útil, estava a ser um verdadeiro estorvo.

Dei comigo a pensar na lareira, e imediatamente veio um versículo à minha mente: “Aviva, Senhor a Tua obra, no decorrer dos anos…”. Encontra-se no livro do Profeta Habacuque 3:2. Quantas vezes tentámos acender a lareira e avivar o fogo de forma a que nos aquecesse, mas sem êxito. Sim, o fogo ateava e queimava a lenha muito rapidamente, mas não havia combustível que aguentasse um serão em família.

Sabemos que, na Palavra de Deus, o fogo é um símbolo do Espírito Santo. O Espírito Santo é uma Pessoa, é Deus, como o Pai e o Filho. E da mesma forma que uma lareira tem de ser bem construída para acolher e manter o fogo aceso durante várias horas de forma consistente, assim também nós fomos criados para acolher e manter aceso o fogo do Espírito Santos nas nossas vidas. De que serve sermos ateados esporadicamente, se logo o fogo se apaga por falta de combustível?

A oração do profeta revela um desejo ardente e urgente de ver em operação o trabalho de Deus na sua vida e na vida do seu povo, do povo que ele representava diante de Deus. Mas não um trabalho pontual, fugaz, limitado. O profeta desejava que algo mudasse de forma radical. Num mundo longe de Deus, desobediente à Suas Leis, ignorante da Sua misericórdia, Habacuque faz esta oração depois de ouvir da parte de Deus algumas declarações que o despertaram.

E o que isso tem a ver connosco? Muito! Tudo! Também eu me vejo a viver num mundo longe de Deus, tantas lareiras aparentemente úteis, mas apagadas. Mas há esperança. Podemos ser mais do que lareiras sem calor; podemos dar ouvidos ao Espírito Santo, o fogo de Deus que deseja arder em nós, tornar-nos úteis enquanto aquecemos outros, e o ambiente à nossa volta, não de forma pontual, mas de forma consistente; não de vez em quando, mas a cada dia.

Mas como fazer isto? O Espírito Santo habita em nós desde o dia em que convidamos Jesus, o Filho, para ser o nosso Senhor e Salvador, Aquele que nos pode perdoar os pecados. Depois é nutrir um relacionamento íntimo com Deus, o Pai. Passa por entregar-Lhe todas as áreas da nossa vida e ficarmos completamente rendidos a Ele. Aí, o Espírito Santo encontra liberdade para atear o Seu fogo em nós. Ao contrário de uma lareira, cuja lenha eventualmente acaba, o Espírito Santo jamais se extingue; o Seu poder é ilimitado. Primeiro, Ele transforma a nossa vida, queima o que não presta, e depois Ele aviva em nós a Sua obra, para que outros ao nosso redor sejam também ateados pelo seu fogo, pelo Seu poder!

E neste tempo de incertezas, e medos, que o fogo do Espírito Santo te dê coragem, ousadia e virtude para acenderes outras vidas com este calor de Deus. No ano de 2020 não pudemos, como igreja, levar a cabo as muitas atividades normais: conferências, retiros, cultos de avivamento… Eram momentos em que muitos eram cheios, avivados, as suas baterias recarregadas. Mas sem esses momentos, como manter o fogo do Espírito Santo em nós? Entramos na mesmice da rotina dos cultos, sem nada que nos ateie? Não! Este é o tempo de clamarmos a Deus: Aviva, Senhor a Tua Obra! Aviva o desejo de Te conhecer, ó Deus! Aviva o meu amor pelos outros, ó Deus! Aviva-me…

Afinal, a minha lareira teve uma utilidade: ela foi objeto desta parábola para me despertar e orar como Habacuque: “Aviva, Senhor a Tua Obra, do decorrer dos anos…”

Rute Lopes

Serve a Deus, com o seu marido, Pr. Samuel Lopes, na igreja Assembleia de Deus em Vila Chã.

Andanças

960 539 Aliança Evangélica Portuguesa

O sol é persistente e mesmo no rigor do inverno ele teima em brilhar. O mais típico nesta estação, pelo menos neste lado do mundo, é que as chuvas encharquem a terra, as nuvens carregadas escureçam o céu e o vento gelado seja uma constante. Contudo, neste ano, apesar do frio intenso, o sol continua a brilhar. As noites são enluaradas e as estrelas visíveis desenham no céu pontos de luz como para lembrar que há mais para além da paisagem que temos. Elas aproximam de nós o universo e nem se quer percebemos.

Ao pensar neste quadro desenhado não por mãos humanas, ou pelo fruto de um acaso qualquer, mas por um Deus soberano que reina e a quem amamos, rendo-me à confiança de que se o jardim é tão belo e perfeito, as nossas vidas são incomparavelmente mais preciosas em Suas mãos.

Ele nos fez mulheres e a nossa natureza vem em ciclos.

No princípio eram os lacinhos que enfeitavam o cabelo, o vestidinho rodado, os sapatinhos a combinar… Criança ainda, o nosso mundo era repleto de ilusões, emoções que iam nos moldando, transformando as nossas vidas, enquanto o corpo desajeitado ia mudando aos poucos, sem a gente perceber, porque afinal o sonho era crescer…

Até que, de repente, temos que lidar com a menina que somos num corpo que começa a sangrar, e se moldar… E a adolescência vem e traz muitas ondas com ela. Medos, inseguranças quanto ao futuro, paixões, e desejos entranhados que assustam, ao mesmo tempo que impulsionam e nos fazem fazer escolhas que nesta altura não sabemos, mas que podem marcar a nossa história para sempre…

Crescemos. E crescer envolve decisões, conflitos e emoções que vamos aprendendo a lidar, e a menina vai dando lugar à mulher, com todo o potencial para o qual foi criada. A juventude esbanja a sua alegria, através de um sorriso, de uma maquilhagem bem feita, de um cabelo arranjado, mas principalmente dos caminhos que escolhemos, dos sonhos que concretizamos, dos medos que vencemos… Aqui escolhemos a carreira, as amizades se solidificam, escolhemos o amado, entregamos o corpo, o coração e os anos que virão a alguém que se torna um connosco. Geramos filhos, dividimos os nossos corpos e as entranhas do nosso ser com alguém que vai encher a nossa vida, no princípio de choros, brincadeiras, gracinhas e risos… E para sempre de um vínculo de alma que nos faz perpetuar e testemunhar…

Outras não. Por opção, porque não deu, porque não foi como queria ou porque não era o caminho, escolhem andar sozinhas, são valorosas, apoiam, sustentam… Cheias de  graça, caminham, são plenas e vão…

E a maturidade vem. Com ela alguns cabelos brancos, a menopausa, a certeza de muitas conquistas e alguns sonhos deixados atrás, outros ainda por concretizar. O corpo não perde o vigor, mas pede calma, abranda, mostra que precisa de mais tempo…  O ninho começa a esvaziar-se, e é tempo de preencher espaços, renovar a esperança e continuar a caminhar. E a mulher arranja o cabelo, retoca a maquilhagem, escolhe um novo batom e vai…

Até que a velhice vem, com ela talvez a solidão, as saudades de um tempo que se foi, as lágrimas pelas perdas, pelas vitórias, pela vida… O sorriso cansado, os cabelos branquinhos e a face enrugada, como se nela estivesse desenhada a história de cada emoção.

Mas como a vida é uma caminhada, a estrada é longa, por vezes larga e cheia de encanto, outras estreita, cheia de obstáculos, repleta de atalhos que seduzem… Para muitas mulheres, cada ciclo da vida foi antes de mais um fardo, ao invés de encanto.  Quantas foram deixadas de lado, não conseguiram viver, foram maltratadas, abusadas, sofreram…

Porém, como o sol que teima em brilhar mesmo no rigor do inverno, Deus nos capacita a perseverar. Em alguma etapa deste nosso ciclo de vida, somos confrontadas com a melhor escolha que podemos fazer. Jesus, o Salvador, é Aquele que se propõe andar connosco, quer seja uma caminhada alegre ou nem por isso. Quer estejamos rodeadas por outros ou solitárias. Quer não entendamos as mudanças ou não saibamos caminhar… Ele anda connosco e nos ensina a servir, compreender e, principalmente, amar…

Ele ama, e porque podemos ter esta confiança, O abraçamos e vamos… e enquanto andamos lado a lado com Ele, oramos assim:

“Jesus, capacita-me a influenciar esta geração. Geração perdida em valores passageiros, efémeros e que não renovam a esperança.

Ensina-me a ser um exemplo ao gravar as verdades da Tua lei e andar com elas enquanto, eu falo, ando, olho e acompanho…

Ajuda-me a ouvir-Te sempre, de tal forma que a geração que aí vem saiba Te ouvir também e tenha coragem de seguir a Tua voz, mesmo que este mundo de tantos barulhos tente convencer que os seus sons são ideais e um alvo a alcançar.

Leva-me a confiar em Ti como o Pastor. E, mesmo em meio ao desespero de não saber para onde ir nem como dirigir, eu possa ter o privilégio de Te ver amparar, acudir e proteger esta geração perdida. Filhos gerados do ventre, dos relacionamentos, da vida, mas que precisam de Ti.

Capacita-me a escolher-Te a Ti, ó REI. E que através da minha escolha eu possa ser exemplo para aqueles que aqui estão e para os que virão. E que possa pagar o preço desta Esperança que transcende e vai além do bem estar tão esperado, mas que é eterno a partir de agora e vai além, muito além do temporal.

Jesus, obrigada por me trazer de volta a esperança. E que nessas andanças eu possa brilhar o Teu brilho, cantar o Teu canto e acreditar a cada dia que só em Ti há solução. Que eu saiba mostrar ao mundo que anda tão confuso que Tu não és religião, mas amizade, companhia e direcção… o melhor Caminho, o único Deus e a Vida que andamos à procura…

Arlete Castro

Escritora

Mestre em Intervenção Terapêutica

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