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Geral

Mulherzinha, Supermulher Ou Simplesmente Você? – Isabelle Ludovico da Silva

1280 853 Aliança Evangélica Portuguesa

O estigma que pesa sobre a mulher não é recente. A supremacia do homem deu-se às custas da desvalorização da mulher. O homem encarregou-se sozinho da construção do mundo e confinou a mulher na esfera privada gerando assim uma dicotomia empobrecedora para ambos. A mulher anulou-se para atender às expectativas do “príncipe encantado” e dedicou-se ao cuidado dos filhos e da casa. Esse trabalho não remunerado resultou numa dependência económica que se transferiu para o plano emocional.

Reproduzindo o modelo da própria mãe, a mulher confunde gradualmente a sua identidade com a sua função materna. Até o seu marido frequentemente passa a chamar-lhe “mãe”. Quando os filhos se tornam independentes (apesar dela, diga-se de passagem), ela tem que enfrentar a sua pior crise: a “síndrome do ninho vazio”. A relação conjugal dissolveu-se e foi substituída pelos papéis parentais que já não têm mais razão de ser. O marido investiu as suas energias no trabalho e enfrentou desafios que o levaram a crescer enquanto ela estagnava num universo restrito, delimitado pelos famosos três “C”: casa, comida e criança. Restam-lhe a solidão, a frustração e o ressentimento pela falta de gratidão do marido e dos filhos. Esta Amélia vive à sombra do marido porque teve medo de se aventurar fora do casulo da casa que serviu de proteção, mas também de prisão. O seu potencial foi tolhido enquanto desenvolvia mecanismos manipulativos para compensar a exigência de submissão, estabelecendo assim com o marido uma relação de mútua desconfiança.

A partir dos anos 60, este modelo foi rejeitado por muitas mulheres que reivindicaram a sua emancipação e partiram em busca de novos desafios. Na ânsia de compensar o tempo perdido, a mulher quis desempenhar todas as funções ao seu alcance. Esta mulher maravilha inaugurou um período no qual a luta pela sua auto-realização se travou no terreno da competição com o homem: universidade, profissionalização…, mas também dupla jornada de trabalho para não deixar de ser mãe e dona de casa e provar a si mesma que é capaz de brilhar em todas as áreas e conciliar todos os papéis… Ou por exigência do parceiro que, numa mensagem dupla, incentivou as suas conquistas profissionais desde que o equilibro familiar não fosse alterado. Ela fez o possível para se encaixar no mundo frio, objetivo e racional construído pelos homens abdicando, para isso, de uma parte fundamental da sua personalidade: a ternura, a subjetividade, a sensibilidade, o instinto, a empatia. Ela conseguiu êxito profissional, mas à custa do fracasso da sua relação amorosa e do desajuste dos filhos, sem falar do stress. Tendo investido muito na sua auto-realização, ela sente-se, pela segunda vez, frustrada e solitária. Ela passou muito radicalmente da passividade e resignação a uma atitude omnipotente.

A mulher alcança agora a sua grande oportunidade de uma verdadeira libertação. Para isso, ela precisa de encarar os conflitos e os antagonismos que convivem dentro dela, dos quais ela tentou fugir através de um ativismo desenfreado e que são frutos da coexistência interna de modelos modernos e tradicionais: a dependência de um poder-saber externo (pai, marido, médico…) apesar da descoberta dos seus próprios recursos; a expectativa incoerente de uma atitude de docilidade e fragilidade na relação afetiva contrastando com a força e determinação necessárias na vida profissional. Está na hora da mulher fazer um balanço que pode dar início a uma nova fase integradora, de resgatar a relação com o parceiro e os filhos, de renunciar à competição em favor da cooperação e do companheirismo. Ao ter a coragem de encarar os seus próprios medos, limitações, raivas, desejos, a mulher poderá também respeitar os do homem. Após ter confundido a sua identidade com a sua função de mãe e, posteriormente, com o seu desempenho profissional, a mulher quer, hoje, ser reconhecida não pelo que ela faz, mas pelo que ela é. Ela não visa somente a igualdade de direitos com o homem, mas a restauração dos valores “femininos”: sensibilidade, empatia, intuição, compaixão. Valores essenciais para construir vínculos significativos, inclusive com Deus.

Isabelle Ludovico da Silva
isabelle@ludovicosilva.com.br

Os Microplásticos – Isabel Cunha Soares

960 720 Aliança Evangélica Portuguesa

Nas últimas décadas e sobretudo nas sociedades ocidentais, tem crescido em nós uma mentalidade do descartável, levando-nos muitas vezes a crer que tudo é substituível e dispensável. Isto reflete-se nas decisões que tomamos, nos relacionamentos que temos, nas escolhas que fazemos, na forma como vivemos, afetando muitas áreas sejam elas sociais, culturais, económicas ou até mesmo espirituais. Ao mesmo tempo, a ciência e a tecnologia, têm evoluído de forma a tornarem as nossas vidas mais fáceis e com maior acessibilidade a produtos, que muitas vezes não sendo absolutamente necessários, se tornam imprescindíveis e que pela sua natureza e caraterísticas se vão tornando habituais no nosso dia-a-dia. Um desses produtos é o plástico.

Essencialmente o plástico é um polímero derivado do petróleo e como o seu nome em grego indica, capaz de ser moldado e de adquirir uma forma após a moldagem. E porque é um material barato, duradouro, resistente, leve e maleável a sua produção tem continuado a aumentar em todo o mundo.  A título de exemplo em 2009 na Europa, cerca de 40% de todo o plástico produzido foram embalagens – muitas delas, embalagens de refeições rápidas (fast food), cujo tempo de vida útil é muito curto, tão curto que não é suficiente para valoriza-las.

Mas o que acontece a todo este plástico quando o deitamos fora? Será que é um problema apenas dos municípios ou também é um problema nosso?

O lixo que fazemos e forma como o deitamos fora faz toda a diferença para o nosso bem-estar, para a saúde pública e para a saúde do meio ambiente.

No final do século 20 uma embarcação, descobriu por acaso, uma quantidade de lixo no oceano pacifico com cerca de 680 km2 de área, equivalente a 6,5 vezes a área metropolitana de Lisboa. Este lixo era na sua maioria composto por embalagens plásticas que levadas pelas correntes oceânicas ficaram retidas neste ponto do pacifico. Apenas em 2010 as Nações Unidas decidiram fazer uma monitorização por todo o mundo para se perceber qual a magnitude do problema.

Como é que o lixo vai parar ao mar?

De todo o lixo produzido, apenas um pouco mais de metade é reciclado, incinerado ou encaminhado para aterros e o que sobra fica livre no ambiente e a maior parte deste acabará eventualmente no mar. O lixo que chega ao mar tem muitas origens; lixo que fica solto nas ruas e por ação da chuva ou do vento é arrastado para o mar, lixo deitado ilicitamente no mar ou nos rios, má gestão na recolha de lixo por parte das entidades responsáveis, perdas e despejos no tratamento de águas residuais e esgotos, despejo de lixo das nossas casas através das sanitas e lavatórios, despejos e perdas de lixo industrial no mar ou nos rios, despejos ou perdas de lixo em atividades económicas ou de lazer junto ao mar ou nos rios, despejo das plataformas de extração de grude no mar entre outras. Uma vez no mar, o lixo ou afunda ou fica à superfície. Ainda pouco se sabe acerca da quantidade de lixo que chega ao mar, que parte fica à superfície e que parte afunda. No entanto estima-se que o que se vê à superfície é apenas 15% de todo o lixo que afunda.

Porque é que este lixo é perigoso?

Já há muito tempo que se ouve falar de animais marinhos que ficam presos em linhas ou pedaços de plástico e acabam por morrer, ou de tartarugas que confundem os sacos plásticos com alforrecas e ao ingeri-los morrem asfixiadas ou ainda de aves que ingerem tampas, ou outros pedaços de plástico ou vidro colorido pensando que é alimento. Para todos estes casos o fim é a morte. Mas recentemente descobrir-se que alguns desses plásticos são de dimensões tão pequenas que podem ser ingeridos por animais marinhos que se encontram na base da cadeira alimentar, podendo mesmo ficar retidos nas suas células sendo transportados através das cadeias alimentares e acabando no nosso prato (só em 2014 o mar forneceu-nos 80 milhões de toneladas de produtos marinhos). A estes plásticos de pequenas dimensões chamamos microplásticos e estes podem ter uma origem primária ou secundária. Os microplásticos primários de tamanho inferior a 5 mm, são usados na indústria na produção de outros plásticos mas também podem se encontrar nas pastas de dentes, cremes esfoliantes ou geles de limpeza. Os secundários com tamanho superior a 5mm, são resultantes da fragmentação dos plásticos que se encontram no mar devido ao sol, força das ondas e água do mar. É ainda desconhecido o total efeito que estas partículas de plásticos podem ter na nossa saúde e na saúde pública em geral o que se sabe é que estes plásticos contêm químicos poluentes orgânicos persistentes (POP) que são por si só extremamente perigosos para a saúde humana e ambiental.

 

O que podemos fazer?

Esta é a pergunta mais importante a ser feita. O problema é complexo e não é de fácil resolução, por isso não existe apenas uma resposta nem apenas uma solução e estas terão sempre que ser partilhadas por todos os setores públicos e privados, comunidades científicas e educativas, e sociedade civil em geral, pois sendo parte do problema temos que ser também parte da solução. Importa primeiramente investigar para se conhecer melhor o problema e as suas consequências, legislar e educar para que saibamos o que fazer e como fazer e por fim agir. Para já, podemos começar por agir, consumindo menos plásticos, lendo bem os rótulos dos produtos para saber escolhe-los, selecionar, reciclar e depositar o nosso lixo nos locais certos, não deitar artigos pequenos nas sanitas – como cotonetes e por fim passando a palavra a outros.

Como mulheres cristãs que somos, temos a dupla responsabilidade de agir, para a glória de Deus, cuidando do mundo que Ele criou e cuidar da nossa família fazendo boas escolhas.  O lixo é resultado do nosso consumo, quando menos e melhor consumirmos menos lixo faremos.

 

Isabel Cunha Soares
Coordenadora do programa de Educação Ambiental da Associação A Rocha
www.arocha.pt
www.educacaoambientalnarocha.blogspot.pt

DOMINGO DE ORAÇÃO PELOS REFUGIADOS

1280 928 Aliança Evangélica Portuguesa

Para assinalar o Dia Mundial do Refugiado (20 Junho), as Alianças Evangélicas Mundial e Europeia estabeleceram 2 Domingos de Oração pelos Refugiados, o último dos quais decorre no próximo dia 24 de Junho. É uma oportunidade para todas as comunidades evangélicas refletirem, orarem e agirem em favor daqueles que tiveram de sair do seu país para salvar a sua vida.

Sugerimos ainda a visualização do documentário “Pontes para a Paz” – 3 histórias de superação e amor ao próximo. Veja o trailer aqui (legendado em português):

 

Para aceder ao documentário completo gratuitamente registe-se aqui: https://peacebetweendialogue.us18.list-manage.com/subscribe?u=98f5aaf4539a1c675edf7be43&id=b40f656d3b

O que Veem os Seus Olhos? – Bertina Tomé

960 640 Aliança Evangélica Portuguesa

Amigas

Este espaço dedicado a mulheres, completa agora seis meses. Ainda está a dar os primeiros passos, mas já é uma referência para muitas, que aqui encontram conforto, ensino, inspiração. E sentimos imensa gratidão a Deus por isso. Eis alguns dos comentários que temos recebido:

“As publicações na AEP no espaço Mulheres, têm sido para mim uma bênção.”

“Sinto-me muito grata, abençoada pelos bons artigos, sempre elucidativos, no espaço Mulheres, da Aliança Evangélica.”

“PARABÉNS com as maiores bênçãos do Pai, para este novo espaço dedicado a MULHERES! Muito bem concebido, em diversas vertentes excepcionais… Precisávamos mesmo de um cantinho só para nós, mulheres! Ficarei atenta cada 15 dias…”

Mulheres que se têm sentido revigoradas pelo que lêem aqui…

Ver e ler

Na verdade, aquilo que vemos e lemos tem um papel relevante na nossa vida. Pode promover em nós reflexão, despertar-nos, levar-nos a outros patamares de conhecimento e, sobretudo, de proximidade com Deus. Ou não, se não passar de um amontoado de “novidades”, de veracidade quantas vezes duvidosa, e que, embora coloridas como missangas, não são pão. Ou se se tratar do “conselho do ímpios” (Salmo 1:1), nunca por aí nos alimentaremos. Ciente disso, o salmista tomou uma decisão: “Não porei coisa má diante dos meus olhos…” (Salmo 101:3) e, mais à frente, acrescentou “Os meus olhos estarão sobre os fiéis da terra, para que se assentem comigo;” (Salmos 101:6)

Pois bem, procurando ser fiéis a Deus, também trazemos este espaço a cada mulher, cristã evangélica ou não, para que venha até aqui e se “assente connosco”. E já somos uma multidão, onde, com certeza, há também muitos homens, e são bem-vindos!

A história de Hagar

Voltando à questão daquilo que vemos e lemos, num programa televisivo muito apreciado em Portugal, dedicado a entrevistas a figuras públicas, havia uma pergunta sempre presente: “O que é que dizem os seus olhos?” Hoje, proponho-lhe uma outra pergunta: “O que é que veem os seus olhos?”

Lembro-me de uma mulher cuja perspectiva sobre a sua vida mudou totalmente quando ela viu! Viu o quê?

Numa zona desértica, caminhava errante com o seu filho. Só se tinham um ao outro. A vida dera umas quantas voltas, talvez estranhas e até distantes dos seus sonhos de menina. E hoje dava por si como mãe sozinha, a procurar construir um novo projecto de vida para ambos. Onde, como, com a ajuda de quem? Ainda não sabia…

As possíveis ruminações sobre o futuro tinham-se desvanecido agora, sob o peso de uma questão imediata, de sobrevivência: acabara-se a água no odre! Não havia como matar a sede e ela não sabia o que fazer, num lugar árido, onde nada parecia existir… Os seus passos sobre o terreno arenoso tornam-se mais lentos e, finalmente, pára. Em desespero, deita o filho sob a sombra de umas árvores e, lá mais adiante, senta-se a chorar. Acredita que o seu filho irá falecer ali. Uma angústia indescritível até que… Ela vê! E o seu ânimo ressurge. Ah, está ali um poço de água!

Curiosamente, ela vê porque “abriu-lhe Deus os olhos”(Génesis 21:19) E ela corre a encher de água o seu odre e ambos se refrescam e veem as forças renovadas. E o relato bíblico deixa-nos espreitar os anos seguintes, revelando-nos que: “Era Deus com o menino, que cresceu; e habitou no deserto, e foi flecheiro.” (Génesis 21:20)

Uma oração

Seja qual for o cenário de vida que cada uma de nós tenha hoje diante de si, a minha oração é para que Deus abra os nossos olhos. Que Ele nos faça ver as fontes de água que tem preparado para nós, para além da areia seca, dos arbustos espinhosos do deserto, do calor… Que cada uma de nós possa correr a refrescar-se Nele, e aí ver-se reabastecida de alento e confiança.

Por onde começar? Abra a sua Bíblia, leia no Salmo 119:18 e descubra aí uma oração que vem ao encontro do nosso tema de hoje. Esse pode ser um ponto de partida para uma boa conversa com Deus.

Um grande abraço para si e até daqui a 15 dias!

Bertina Coias Tomé
Psicóloga, Especialista em Psicologia Clínica e da Saúde e Psicologia Comunitária
Membro da Direcção da Aliança Evangélica Portuguesa

EUTANÁSIA

1280 853 Aliança Evangélica Portuguesa

Na antiguidade o Juramento de Hipócrates, do século V antes de Cristo, incluia um voto específico em que o médico se comprometia a não realizar a eutanásia nem a morte. Os autores do Novo Testamento não se pronunciam especificamente sobre as questões da eutanásia ou do suicídio assistido. Mas, como têm como base a lei de Moisés, o mandamento afirmado em Êxodo 23:7 – neste caso em consonância com a medicina oficial – não terá sido alvo de qualquer discussão, nem no tempo de Cristo, nem na Igreja Primitiva. Segundo este texto,

«…não matarás o inocente e o justo; porque não justificarei o ímpio».

Já no livro de Gênesis, 9:6, Deus diz a Noé:

«Quem derramar o sangue do homem, pelo homem o seu sangue será derramado; porque Deus fez o homem conforme a sua imagem».

Mesmo quando a morte provocada é a vontade expressa da pessoa, isto não invalida o facto de ser só Deus quem dá a vida e de ser só Ele que tem o direito de a terminar (Gênesis 2:7 e Eclesiastes 12:7).

Numa altura um homem, mentindo, afirma ter que terminou o sofrimento do rei Saúl, praticando com ele a eutanásia. Fala como se isto tivesse sido um bem realizado a favor de Saúl (2 Samue 1.10) mas o rei David diz-lhe o seguinte:

«O teu sangue seja sobre a tua cabeça, porque a tua própria boca testificou contra ti, dizendo: Eu matei o ungido do Senhor» (Samuel 1:16).

O mandamento do amor ao próximo, afirmado pelo Apóstolo Paulo em Romanos 13:9, inclui expressamente a proibição de matar. Mesmo que alguém julgue que matar, praticando a eutanásia, ou assistindo o suicídio de alguém, são atos de amor, Paulo obviamente terá entendido, à luz das Escrituras do Velho Testamento, e à luz dos princípios médicos afirmados no seu tempo, que não o podem ser.

Por outro lado, aplicar a medicina paliativa em casos de doença terminal é uma prática que o bom senso e a humanidade afirmam, e é recomendado expressamente pelo texto de Provérbios  31:6-7:

«Dá as bebidas fortes àqueles que desfalecem e o vinho aos que têm o coração amargurado, para que, bebendo, possam esquecer a sua fraqueza e a sua infelicidade».

 

Pastor Allan Pallister

Aliança Evangélica Portuguesa

Cuidar Até Ao Fim Com Compaixão

900 600 Aliança Evangélica Portuguesa

Declaração do Grupo de Trabalho Inter-religioso Religiões-Saúde

O debate em curso na sociedade portuguesa sobre a realidade a que se tem chamado “morte assistida” convoca todos a realizarem uma reflexão e a oferecerem o seu contributo para enriquecer um processo de diálogo que necessita da intervenção da pluralidade dos atores sociais. As Tradições religiosas são portadoras de uma mensagem sobre a vida e a morte do homem, bem como sobre o modelo de sociedade que constituímos, e é legítimo e necessário que a apresentem, com humildade e liberdade.

Agora que a Assembleia da República vai discutir e colocar em votação propostas de uma eventual lei sobre a eutanásia, nós, as comunidades religiosas presentes em Portugal signatárias, conscientes de que vivemos um momento de grande importância para o nosso presente e o nosso futuro coletivo, declaramos:

 

  1. A dignidade daquele que sofre

Acreditamos que cada ser humano é único e, como tal, insubstituível e necessário à sociedade de que faz parte, sujeito de uma dignidade intrínseca anterior a todo e qualquer critério de qualidade de vida e de utilidade, até à morte natural. A vida não só não perde dignidade quando se aproxima do seu termo, como a particular vulnerabilidade de que se reveste nesta etapa é, antes, um título de especial dignidade que pede proximidade e cuidado. Assumimos que todo o sofrimento evitável deve ser evitado e, por isso, estamos gratos porque o desenvolvimento das ciências médicas e farmacológicas alcançou um tal patamar de desenvolvimento que permite o eficaz alívio da dor e a promoção do bem-estar. Contudo, não ignoramos o carácter dramático do sofrimento e a dificuldade de que se reveste a elaboração de um sentido para o viver. Sabemos que a religião oferece uma possibilidade de sentido a quem acredita, mas sabemos também, pela experiência do acompanhamento de tantos que não são religiosos, que não depende de o ser a possibilidade de encontrar sentido para o próprio sofrimento. Com esses aprendemos, aliás, que nesta tarefa reside uma das maiores realizações da dignidade pessoal. A dignidade da pessoa não depende senão do facto da sua existência como sujeito humano e a autonomia pessoal não pode ser esvaziada do seu significado social.

 

  1. Por uma sociedade misericordiosa e compassiva

O sofrimento do fim de vida é, para cada pessoa, um desafio espiritual e, para a sociedade, um desafio ético. Comuns às diferentes Tradições religiosas, princípios como a misericórdia e a compaixão configuraram, ao longo da história da civilização, modelos sociais capazes de criar, em cada momento, modos precisos de acompanhar e cuidar os membros mais frágeis da sociedade. Hoje, o morrer humano é um dos âmbitos em que este desafio nos interpela. O que nos é pedido não é que desistamos daqueles que vivem o período terminal da vida, oferecendo-lhes a possibilidade legal da opção pela morte, à qual pode conduzir a experiência do sofrimento sem cuidados adequados. Esse é o verdadeiro sofrimento intolerável, que cria condições para o desejo de morrer. Nasce de uma sociedade que abandona, que se desumaniza, que se torna indiferente. Confirma-nos nesta convicção a experiência de que quem se sente acompanhado não desespera perante a morte e não pede para morrer. O que nos é pedido é, pois, que nos comprometamos mais profundamente com os que vivem esta etapa, assumindo a exigência de lhes oferecer a possibilidade de uma morte humanamente acompanhada.

 

  1. Os Cuidados Paliativos, uma exigência inadiável

Acreditamos que os cuidados paliativos são a concretização mais completa desta resposta que o Estado não pode deixar de dar, porque aliam a maior competência científica e técnica com a competência na compaixão, ambas imprescindíveis para cuidar de quem atravessa a fase final da vida. A verdadeira compaixão não é insistir em tratamentos fúteis, na tentativa de prolongar a vida, mas ajudar a pessoa a viver o mais humanamente possível a própria morte, respeitando a naturalidade desta. Os cuidados paliativos fazem-no, valorizando a pessoa até ao seu fim natural, aliviando o seu sofrimento e combatendo a solidão pela presença da família e de outros que lhe sejam significativos. Interpelamos a sociedade portuguesa para corresponder à exigência não mais adiável de estender a todos o acesso aos cuidados paliativos e assumimos a disponibilidade e a vontade de fazermos tudo o que esteja ao nosso alcance para participar neste verdadeiro desígnio nacional. E não podemos deixar de interrogar se a presente discussão, antes de realizado este investimento, não enfermará de falta de propósito.

 

As Tradições religiosas professam que a vida é um dom precioso e, para as religiões abraâmicas, um dom de Deus e, como tal, se reveste de carácter sagrado; mas este apenas confirma a sua dignidade natural, da qual derivam a sua inviolabilidade e indisponibilidade intrínsecas, que, portanto, não dependem da fundamentação religiosa. Mas a religião confere à vida um sentido, uma esperança, uma outra possibilidade de transcendência. As sociedades precisam desta visão do humano ao lado de todas as outras.

Nós, comunidades religiosas presentes em Portugal, acreditamos que a vida humana é inviolável até à morte natural e perfilhamos um modelo compassivo de sociedade e, por estas razões, em nome da humanidade e do futuro da comunidade humana, causa da religião, nos sentimos chamados a intervir no presente debate sobre a morte assistida, manifestando a nossa oposição à sua legalização em qualquer das suas formas, seja o suicídio assistido, seja a eutanásia.

 

Por isso assinamos em conjunto a presente Declaração.

 

Lisboa, 16 de maio de 2018

 

Assinaturas:

  • Aliança Evangélica Portuguesa
    Pastor Jorge Humberto, em representação do Presidente da Aliança Evangélica Portuguesa, Dr. António Calaim
  • Comunidade Hindu Portuguesa
    Sr. Kiritkumar Bachu
  • Comunidade Islâmica de Lisboa
    Sheik David Munir
  • Israelita de Lisboa
    Rabino Natan Peres
  • Igreja Católica
    Cardeal Patriarca D. Manuel Clemente
  • Patriarcado Ecuménico de Constantinopla
    Arcipreste Ivan Moody
  • União Budista Portuguesa
    Eng.º Diogo Lopes
  • União Portuguesa dos Adventistas do Sétimo Dia
    Pastor António Carvalho, em representação do Presidente da União Portuguesa dos Adventistas do Sétimo Dia, Pastor António Amorim

 

VERSÃO PDF:

https://drive.google.com/open?id=1wvoO4DMVH-yvaW7_nVvSOrQkTGowLPKo

 

Orações Que Não Se Perdem – Carmina Coias

960 640 Aliança Evangélica Portuguesa

Aquele momento era particularmente precioso. Costumava acontecer à noite. Sentávamo-nos na nossa sala, e ali fazíamos o nosso culto doméstico. O meu marido pegava na sua Bíblia de capas pretas, lia alguns versículos e depois orávamos. Recordo-me bem da forma convicta e detalhada como o meu marido falava com Deus. Ele mencionava o nome de cada filho e de cada neto diante do Senhor, pedindo-lhe a Sua bênção, a Sua protecção.

Entretanto, ele partiu para estar com Deus. Contudo, acredito que cada uma daquelas orações ainda estão válidas diante do Senhor. Na Sua sábia e soberana acção, não existe a tecla Delete/Apagar. Nada do que lhe oferecemos ou levamos em oração se desvanece ou se perde. Nada é apagado. As nossas palavras sinceras permanecem diante Dele, guardadas na Sua memória.

Assim sucedeu com Cornélio. Ele era um homem que orava. Era frequente trazer diante do Senhor as suas petições, os seus anseios. Algumas ainda permaneciam por responder mas ele persistia no seu clamor ao Senhor. Certo dia, foi surpreendido pela visita de um anjo, que lhe disse: “As tuas orações e as tuas esmolas têm subido para memória diante de Deus;” (Atos 10:4)

Em memória diante de Deus… Mesmo que ainda não tivessem sido respondidas, não estavam esquecidas diante Daquele que tudo sabe e tudo pode.

Há quanto tempo Isabel e Zacarias haviam orado, pedindo um filho? Não sabemos, mas possivelmente há muito, pois agora já eram idosos. Teriam sido orações da sua juventude, possivelmente. O anjo disse: “Zacarias, não temas, porque a tua oração foi ouvida, e Isabel, tua mulher, dará à luz um filho, e lhe porás o nome de João. E terás prazer e alegria, e muitos se alegrarão no seu nascimento.” (Lucas 1:13-14)

A oração de Zacarias fora ouvida! O facto de ainda não haver resposta não significava que a oração se perdera algures, entre a terra e o céu. Não! As suas palavras haviam chegado à presença do Poderoso Deus. E, anos depois, ali se estavam a cumprir.

Ao falar com Deus, David pensava nas palavras que pronunciava. O que lhes aconteceria? Dispersar-se-iam no ar como partículas minúsculas que o vento espalha, fazendo-as rodopiar até virem, finalmente, a repousar no chão? Não! Ele sentia que as suas palavras subiam diante Dele como o fumo perfumado do incenso aceso. E disse, certa vez: “Suba a minha oração perante a tua face como incenso, e as minhas mãos levantadas sejam como o sacrifício da tarde.” (Salmo 141:2)

David não estava enganado. Muitos anos ,mais tarde, o apóstolo João teve essa revelação e conta-nos o que viu: “tendo todos eles harpas e salvas de ouro cheias de incenso, que são as orações dos santos.” (Apocalipse 5:8) Ah, as orações, aos milhares, não se haviam perdido. Como material precioso, enchiam salvas de ouro.

Que preocupações temos levado diante de Deus, em oração? Há quanto tempo? Estão diante Dele!

Vamos continuar a orar, sem desfalecer. Palavras sinceras diante de Deus, são preciosas para nós e para Ele. “… a um coração quebrantado e contrito não desprezarás, ó Deus.” (Salmo 51:17)

E, no tempo certo, a resposta virá pois “a oração de um justo pode muito em seus efeitos.” (S. Tiago 5: 16)

Precisamente hoje, dia 25 de Maio de 2018, faríamos 60 anos de casados! Este artigo é também uma homenagem, ao meu marido, Pastor Miguel Coias – uma vida de dedicada ao Senhor e a servir os outros, em humildade e amor.

Carmina Coias
Missionária

António Calaim Fala Sobre a Marcha por Jesus 2018

533 300 Aliança Evangélica Portuguesa

Marcha por Jesus 2018

700 393 Aliança Evangélica Portuguesa

 

Monstros e Companhia – Ana Ramalho Rosa

1280 853 Aliança Evangélica Portuguesa

Quem não conhece o filme de animação Monstros e Companhia? Pessoalmente, é um dos meus favoritos. E isso não aconteceu porque me tornei mãe e passei e “ter que ver” desenhos animados. Sempre gostei (e gosto!) de boa animação e de uma boa história. E não, este não vai ser um texto sobre o que os nossos filhos devem ou não ver — isso é um exercício interessante que como pais precisamos fazer porque há por aí muito lixo e muita mensagem não subliminar que precisamos filtrar.

Associo o título do filme a uma época da maternidade, que passámos, ainda o Francisco não tinha nascido. Sermos pais pela primeira vez é uma experiência que não se aprende nos livros e que, mesmo que se tenham todos os cursos do mundo, só se sabe quando se passa por lá.

A expectativa era grande e fomos para a primeira ecografia. Dias antes tinha feito análises e estava a chegar “a hora da verdade”. Era cedo e apanhámos uma técnica provavelmente com TPM (desculpem o sarcasmo!), porque foi antipática desde o primeiro momento até ao último minuto. Mas, pronto, a antipatia aguenta-se, especialmente quando, pela primeira vez, começamos a escutar o coração do nosso bebé a bater e a vê-lo. Que sensação única! Inexplicável! Ali estava ele!

Depois da ecografia veio o cruzamento com o resultado das análises. E veio um balde de gelo (água fria é pouco!). “O seu bebé tem uma grande probabilidade de ter Trissomia 13 ou 18. O melhor será fazer amniocentese.” Sinceramente, depois daquela notícia já nem me lembro bem do que a senhora com necessidade de suplementos em simpatia nos disse. Só me recordo de entrarmos no carro e de ter rebentado a chorar. O meu marido começou a animar-me e orámos a Deus, mais uma vez. Era um sentimento de impotência devastador. Os monstros do medo e da incerteza entraram no “sótão” e começaram a querer assustar-nos!

Nos dias que se seguiram procurámos ajuda junto de várias pessoas da área, a qual foi preciosa para nos apoiar e perceber o que seriam aquelas probabilidades e como seria possível verificar a existência de algum daqueles problemas no nosso filho. Mas era preciso tomar uma atitude. E foi o que fiz. Entrei numa loja e comprei um pijama para 6 meses. Foi pela fé. Decidimos também, uma vez que era possível através das ecografias verificar se havia alguma má formação no bebé, que não iríamos fazer amniocentese. Foi uma decisão pessoal, é certo, mas entregámos o futuro do nosso bebé nas mãos de Deus e confiámos. “Expulsámos” esses monstros e preferimos a melhor companhia – Deus!

A gravidez teve alguns riscos e, no final, ele não queria sair, de tão bem que estava. Mas finalmente saiu, saudável, graças a Deus. Desde esse dia até hoje temos sido tantas vezes sobressaltados com situações de saúde, questões de desenvolvimento e interação social. E muitas das vezes os monstros da insegurança, da impotência e do desespero tentam fazer ninho na mente e no coração. Somos humanos e sentimos as coisas. Temos um grande Deus, é certo, mas Ele tornou-Se homem e sabe o que significa ser tentado, provado e sofrer. Não acontece só aos outros. E podia ter-nos realmente acontecido a nós.

Mas o susto levou-nos mais uma vez a olhar para Jesus. Como precisamos fazer sempre, e em todas as circunstâncias. Quando tudo vai bem. Quando o mundo desaba em cima de nós e parece que não conseguimos suportar os desafios que enfrentamos, sem que os tenhamos criado pelas nossas próprias decisões. Podemos ter momentos muito difíceis, porque eles existem, mas a verdade é que “(…) temos um tão excelente supremo sacerdote, que é Jesus o Filho de Deus, que penetrou nos céus, mantenhamo-nos firmemente fiéis à fé que confessamos ter. Este nosso sacerdote supremo não é um simples homem que não possa compreender as nossas fraquezas. Pelo contrário, ele passou por todas as mesmas provas que nós, mas sem ter pecado. Portanto cheguemo-nos com confiança ao trono de Deus para podermos receber misericórdia e graça, e para sermos ajudados sempre que tivermos necessidade.” (Hebreus 4:14-16, O Livro)

 

Ana Ramalho Rosa
Diretora-adjunta de Publicações CAPU|CPAD Livraria Cristã
Autora e coautora de vários livros e recursos para Adolescentes
www.anaericardorosa.blogspot.pt

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