• Siga-nos nas redes sociais

CONVERSA NO APRISCO

CONVERSA NO APRISCO

626 442 Aliança Evangélica Portuguesa

Aninhadas no calor e no conforto do redil, as ovelhas saboreiam uma noite de descanso. Bem alimentadas pelas ervas tenras e saborosas dos campos, sentem-se confortáveis e seguras. Uma vez por outra, ouvem o uivar de lobos, que vagueiam pela serra. É assustador mas nem tanto assim. Sabem onde estão e a quem pertencem. A voz do pastor conduz-lhes os passos. O seu amor é imenso, inexplicável. Sabem que por elas faria tudo. Seria até capaz de dar a sua vida.

A certa altura sentem-se despertadas por um ruído incomum àquela hora. Ouvem passos que se aproximam. Alguém está abrir a porta do curral. Logo a voz do pastor as tranquiliza. Com delicadeza, retira dos ombros uma ovelha ferida e assustada que traz consigo e coloca-a cuidadosamente junto das outras. Ela precisa de descansar. Andou perdida muito tempo e está exausta. O pastor fecha a porta com suavidade e firmeza e vai. A ovelha aninha-se confortável sobre a palha. Lá fora, ouve o pastor a falar com uns vizinhos. As palavras parecem sair entusiásticas, embora o adivinhe cansado, depois de fazer todo aquele percurso a pé, carregando-a aos ombros. Apura o ouvido. Ah, ele está a manifestar a sua alegria por tê-la encontrado. E agora todos parecem excitados com a notícia. O tom de voz alto e a forma rápida como falam denunciam isso mesmo. Embora debilitada, não deixa de se impressionar com o regozijo que a sua presença trouxe ao pastor. É tão importante para ele, mais do que pensava…

Sob uma claridade ténue do luar, que se infiltrou discretamente pelas frinchas da porta, olha à sua volta. Como desejou aquele lugar! O cheiro, o aroma e aquele silêncio tranquilo enchem-lhe a alma. Como se sente segura agora! As outras ovelhas parecem ter-se entregue ao sono de novo e ela fará o mesmo. De facto, não lhe apetece conversar, explicar o que quer que seja. Tudo o que deseja é saborear aquele descanso. E adormece rapidamente.

Algum tempo depois, ouve-se um ruído seco, sobre a madeira da porta. Alguém está a abri-la. Há ovelhas que acordam, sobressaltadas. É o pastor, de novo. Traz consigo outra ovelha. Esta vem a balir, ferida. Inclina-se, coloca-a suavemente sobre a palha macia e acaricia-a. De vez enquanto volta a gemer, pela dor. Ele começa a tratar-lhe o corte que sangra.

As ovelhas vão acordando, uma a uma, despertadas pelos sons inesperados ali dentro do aprisco. Olham o pastor e a ovelha ferida, acompanhando todos os movimentos e palavras.

Uma ovelha, não se contém: “Pastor, esta é outra ovelha perdida?”

“Sim, é.” responde o pastor, enquanto envolve a ferida com gaze limpo, e prende bem.

“Pensava que havia só uma, como na história.”

“Não. Há muitas ovelhas perdidas. Muitas.”

“Quantas são?” Pergunta outra ovelha, mais curiosa.

“São muitas, mais do que as que estão aqui dentro.” Responde o pastor, mantendo o seu ar apreensivo.

Ele olha para a ovelha recém-chegada e detém-se a observá-la. Alimentada e tratada, parece preparar-se, finalmente, para descansar. Aninha-se na palha, procurando a posição mais confortável, evitando que a zona dorida toque o chão. Ele esboça-lhe um sorriso suave, que ela retribui, como um cumprimento de despedida. Depois ergue-se, preparando-se para sair.

A outra ovelha ainda está intrigada com a resposta do pastor. Tem mais uma pergunta a fazer-lhe:  ”É por isso que o nosso curral é tão grande? É que aquele lado ali está vazio e às vezes penso porque é que é assim tão grande, porque…”

“É isso mesmo. Eu tenho aqui lugar para todas as ovelhas perdidas.”

A ovelha olha à volta com surpresa, como se observasse aquele espaço pela primeira vez. E salta-lhe outra pergunta: “E achas que o vais encher?”

“Gostaria… São tantas as ovelhas perdidas pelos montes… Umas afastaram-se tanto que perderam o rumo, outras enredaram-se no meio dos espinhos, outras correram para locais que lhes pareciam mais verdejantes, outras seguiram ovelhas já perdidas… Algumas têm feridas, estão magras e cansadas, mas o seu maior desejo é encontrar o caminho de volta.”

“E porque não voltam?”

O pastor fixa o olhar naquela ovelha, com carinho. Faz-lhe uma festa na cabeça. “Nunca te perdeste, pois não?”

“Não, nunca me perdi. Houve vezes em que estive quase, mas corri a tempo…”

“Uma ovelha que se perca não sabe voltar sozinha. Tem que ser alguém a ir buscá-la. É mesmo assim. “

O pastor ergue-se. A ovelha segue-lhe os movimentos com o olhar. Gostaria que ele continuasse ali. As suas palavras transmitem-lhe uma ternura fora do comum. Ele parece ler o seu pensamento e diz-lhe: “Dorme agora, descansa. Vou ter de ir.”

A ovelha adormece, embalada pelas palavras do pastor que ainda parece ouvir. E sonha com um redil cheio.

Bertina Coias Tomé
Psicóloga, Especialista em Psicologia Clínica e da Saúde e Psicologia Comunitária

error: Conteúdo Protegido!