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Não nos cansemos de fazer o bem

Não nos cansemos de fazer o bem

960 720 Aliança Evangélica Portuguesa

Era um dia de semana, eu era recém-casada e estava há sensivelmente há três meses na Guiné-Bissau.

Lembro-me como se fosse hoje, pois foi a primeira vez que me aventurei a ir ao mercado sózinha (sem o meu marido).

Não conseguia comunicar em crioulo, embora tivesse nascido na Guiné, pois o facto de ter vindo para Portugal aos seis anos fez com que me esquecesse por completo da língua crioula.

A falta de conhecimento das espécies de peixe guineenses da Guiné (que são uma delícia), também constituía, na altura, um factor dissuasor das minhas idas ao mercado.

Deambulava pelo recinto, enquanto os meus olhos se deixavam surpreender pelas cores dos legumes e das frutas tropicais, sempre acompanhada pelos gritos das vendedoras (bideiras) ao longe, as quais iam persuadindo a clientela de forma a comprarem os seus produtos. Enquanto passeava pela zona do peixe, houve um em particular que me chamou a atenção pelo seu aspecto fresco que me saltava à vista e porque, naquele dia em particular, queria cozinhar o famoso caldo de siti guineense (óleo de palma), e pensei que seria a melhor opção em termos de compra.

Pensei para mim mesma com orgulho: vai ser este o meu primeiro peixe comprado na Guiné.

Fui burlada, pois paguei quatro peixes por 5.000 francos cfa (ronda os 7.50 euros) e o preço real seriam 500 francos, porquanto se tratava de um dos peixes mais baratos na Guiné, o djafal. A vendedora aproveitou-se do facto de eu ser estrangeira e não conhecer os preços reais do peixe.

Quando o meu marido chegou a casa, a comida já estava pronta e perguntou-me se eu sabia que peixe era aquele e quanto eu tinha pago por ele. Respondi-lhe à questão e ambos ficámos surpreendidos por eu ter sido enganada e fomos ao mercado à procura da vendedora para falar com ela.

Quando lá chegámos, a senhora fez-se de surda e disse-nos que nunca me tinha visto.

Passado uma semana, o meu marido, que também desenvolvia um ministério de primeiros socorros, foi chamado à noite para ir socorrer uma criança que estava gravemente queimada em casa.

Quando entrou em casa, deparou-se com a criança e reconheceu a mãe, que era a vendedora do peixe djafal.

Quando a senhora o viu ficou envergonhada e sem palavras. No entanto, o meu marido não pagou o mal por mal, mas pegou nela e no filho, levou-os ao hospital, pagou a consulta e o tratamento do menino.

Quantas vezes nos sentimos injustiçados (por vezes com razão), humilhados, traídos e usados, juramos a nós mesmos que nunca mais voltaremos a confiar e a ajudar aquela pessoa que nos fez mal e a primeira coisa que nos vem à cabeça é vingarmo-nos e fazermos justiça pelas nossas próprias mãos.

Contudo, em Gálatas 6:9, o Apóstolo Paulo insta-nos a não nos cansarmos de fazer o bem, porque a seu tempo colheremos os seus frutos.

Cada vez é mais difícil fazermos o bem, porque as pessoas têm comportamentos cada vez mais individualistas e interesseiros. Porém, quando investimos na vida de alguém e nos damos por completo, torna-se ainda mais difícil.

Contudo, Deus convida-nos a termos uma atitude diferente. Convida-nos a não nos cansarmos de fazer o bem, por mais anti-natura que possa parecer. Ele ajudar-nos-á.

A Bíblia refere, em Romanos 12:20: “Se o teu inimigo tiver fome, dá-lhe de comer, se tiver sede, dá-lhe de beber; porquanto amontoarás brasas de fogo sobre a sua cabeça.” O que significa que quando pagamos o mal com o bem, a pessoa que nos fez mal sentirá uma vergonha profunda pois recebeu uma inesperada atitude de amor como pagamento da sua má conduta connosco. Quem age como sendo nosso inimigo será influenciado pelo nosso comportamento cristão, o que provocará uma mudança no coração dessa pessoa. Não devemos esperar que a pessoa se considere culpada dos seus atos para podermos perdoá-la.

O perdão é a melhor saída para a libertação da nossa mente e das nossas emoções, e conduz-nos a uma vida livre e de vitória, e o mais interessante é que quebra as barreiras entre nós e a pessoa que nos magoou.

Que Deus nos dê forças para não nos cansarmos de fazer o bem e assim podermos influenciar outros.

Irina Sanhá

Jurista e fundadora da plataforma evangélica guineense “Fórum Mulher”

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